O rapaz levantou-se abruptamente da mesa e a mocinha da blusa laranja abaixou a cabeça e começou a soluçar.

Moça da blusa laranja, tão largada nessa dor de coração partido, não exibe a menor vergonha (o que eu acho muito lindo da sua parte, segurar lágrimas faz mal, o coração absorve. E ninguém quer o coração pesado como uma nuvem de outubro), com esse rosto de passarinho todo molhado, como eu queria te dizer umas coisas e ser sua amiga, mesmo que por um momento...

Se você chora por ele, não chore mais. Veja bem que meu próprio coração foi partido algumas vezes e sou a prova viva de que não se morre de mal de amor (embora muitas vezes eu tenha acreditado que pelo menos em coma eu entraria, tamanho era o estrago dentro de mim).

Você chora de saudades pelos filhos que nunca terão, por si mesma, por ter de explicar pra mãe que ela estava certa, por ter de ir ao churrasco no sábado com todos aqueles olhos curiosos e cheios de piedade? Você chora por saudades do cheiro dele no seu travesseiro, saudades do jeito que ele te protegia da multidão e parava pra amarrar seu tênis no meio da rua e te trazia bolo de chocolate e remédio de dor de cabeça quando você estava de TPM? Ele te fez bem? Ele segurou sua mão quando você precisou? Ou você se apegou a um fantasma que não existia, mas que você mesma projetava com o rosto dele (fazemos muito disso, nós humanos)?

(Mudei de ideia, agora eu também quero chorar)

A dor é cegante e dilacera, eu sei. Como é ruim sentir essa dor do amor que acaba ou do amor rejeitado.

E não faz mal chorar no shopping, não ligue pra essas pessoas. Elas querem que você esconda sua dor, mas é como se seu baço estivesse explodindo lentamente: é uma agonia sem fim.

Não corra atrás dele, moça de laranja. Largue já esse celular enquanto tem alguma dignidade. A não ser que você esteja convocando sua melhor amiga: “estou em cacos na frente do Giraffas”. Eu mesma já fiz isso, mas a minha mensagem era “estou aos prantos no banheiro da biblioteca”. Mudam-se os atores, as mensagens de socorro para as melhores amigas se mantém as mesmas.

Não corra atrás dele porque faz bem que no fim você seja digna. Eu já perdi minha dignidade por amor e como sofremos nós, os sem dignidade. Passamos frio e estamos constantemente expostos emocionalmente, como galinhas depenadas. Patético e muito, mas muito gelado.

Francamente? Ele já vai tarde. Não me importa se você é bonita ou não, mas o seu rosto tem alguma coisa assim de heroína romântica, sabe? Eu assistiria seu filme.

A vida é tão vasta, moça de laranja, e os amores são tantos que quase não vale a pena se agarrar a um amor específico (com certeza não a um que te deixa tão magoada nessa praça de alimentação, com essa luz fria terrível). E são tantos e vários, de tantas intensidades e cheiros, lembranças de infância e segredos e sorrisos e bocas, que uma vida inteira não seria o suficiente para se apaixonar por tantas pessoas genuínas e legais.

E se mesmo depois você decidir se dedicar a uma só pessoa, saiba que se ele não respeitá-la, o melhor a fazer é cair fora. Se ele não te olha com olhos de total admiração, ele não te merece. Não desperdice esse coração tão verdadeiro com alguém que está com você por comodismo. E lembre-se de entrar numa relação para devorar a alma da pessoa. Virá-la do avesso. Paixão meia boca só te aquece no inverno e pode crer que não vale a dor de cabeça.

Fume um cigarro ou dois, pergunte a sua amiga se ela te acha pateta (elas nunca nos acham otárias, mesmo quando claramente somos) e depois durma ouvindo Sia.

Sim, as cicatrizes ficam, você poderia até dar uma olhada nas minhas, se eu não as escondesse debaixo de um sutiã ridiculamente caro, duas camadas de blusa e uma muralha mais espessa que a da China.

Você pode argumentar que as cicatrizes são feias, mas elas dizem que você já entregou seu coração antes. E esse tipo de entrega requer muita coragem. O tipo de coragem necessária pra se mostrar tão vulnerável na praça de alimentação.

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