Resistências sapatrans: notas sobre visibilidade trans lésbica

Raíssa Éris Grimm
6 min readJan 29, 2018

Acredito que há muitos espaços a serem ocupados por nós, pessoas trans, enquanto resistência política. Dentro de uma sociedade transfóbica, somos expulsas, negadas ao direito de estar em diversas esferas da nossa sociedade — expulsas das famílias, das escolas, do mercado de trabalho.

Um dos espaços que me parece necessário ocupar é o espaço dos afetos. Ou, noutras palavras, lutar pelo direito à visibilidade de nossos afetos.

Isso implica construir uma visibilidade que possa reconhecer pessoas trans não como “objeto”, como corpos exóticos, frutos de um mirabolante espetáculo da biomedicina

mas como pessoas que amamos e somos amadas

como pessoas que desejamos e somos desejadas.

Como pessoas cuja sexualidade não se resume automaticamente à nossa identidade de gênero — mas que somos, também, pessoas que possuem orientações sexuais.

Reconhecer travestis e mulheres trans enquanto pessoas que podem ser: lésbicas, bis, pans, hétero ou assexuais.

Reconhecer homens trans enquanto pessoas que podem ser: gays, bi, pan, hétero ou assexuais.

Nesse dia da visibilidade trans, não quero falar sobre minha experiência enquanto mulher trans.

Quero falar sobre minha experiência enquanto lésbica.

Através do mito de uma história única,
nossa sociedade ensina que só existe uma única forma
de se entender lésbica, ou enquanto sapatão. Narrativa única
sempre centrada da experiência das lesbianidades cisgêneras
(*cisgeneridade é aqui utilizada pra se referir a pessoas que não são trans*).

A transfobia em nossa sociedade se manifesta também no entendimento das orientações de desejo:

se você é uma pessoa com pênis que deseja pessoas com bucetavocê é necessariamente heterossexual.

Nega-se, portanto,a possibilidade de que uma pessoa com neca (*termo pajubá utilizado como sinônimo de “pênis”) possam efetivamente

existir como mulher — amar e querer ser amada como mulher — desejar e querer ser desejada enquanto mulher, e que essa realidade possa ser mais central na definição de sua identidade do que simplesmente a genitália desde a qual se faz sexo.

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Escrevo desde minha experiência:

durante 28 anos da minha vida, vivi relacionamentos com mulheres, sustentando a crença de que eu era um “homem” (cisgênero) supostamente heterossexual. Digo “supostamente”, porque assim fui levada a acreditar, embora isso nunca tenha sido vivido realmente como uma verdade sobre mim mesma.

Ainda que tais relações não sofressem violência e preconceito externo por parte de outras pessoas — afinal, relacionamentos supostamente “hétero” são incentivados por nossa sociedade — foram 28 anos da minha vida em que me vi presa a um armário, a uma prisão:

por mais que eu sentisse desejo e atração por aquelas com quem me envolvi, estar com ela sustentando o papel “homem” devolvia uma imagem distorcida sobre meu corpo, fazendo eu constantemente sentir-me suja, com algo errado em meu corpo sempre no processo. Um sentimento constante de dissociação.

Com o tempo, fui entendendo que a heterossexualidade não era a forma como eu desejava mulheres. Pensei, inicialmente, que o problema fosse minha orientação sexual — mas, conforme me relacionei com homens cisgêneros, descobri que não estava ali a centralidade do meu desejo.

A questão que me gerava dor não era a de que eu não amasse ou desejasse mulheres — mas a forma como esse amor e esse desejo eram reconhecidos, dentro de uma identidade que era violenta com meu corpo.

Conforme comecei a me entender enquanto mulher, um dos meus maiores medos era o de que eu deixaria de ser desejada por outras mulheres caso começasse a transicionar. Medo este que reflete, simultaneamente, tanto a lesbofobia quanto a transfobia de nossa sociedade: acreditava que não seria amada enquanto mulher — e, sobretudo, acreditava que não seria amada enquanto mulher trans.

Todas as referências que eu tinha sobre travestis e mulheres trans eram de pessoas cujo estigma social lhes condenava a uma solidão compulsória — estigma esse também ligado ao fato de muitas sermos pressionadas para o trabalho sexual como única possibilidade de existência. A perspectiva de transicionar implicava enfrentar uma série de medos — medo da rejeição de minha família, medo de não conseguir me sustentar financeiramente, mas (sobretudo) o medo de nunca mais ser realmente amada ou desejada.

Tentei por muitos anos “me encaixar” no papel da heterossexualidade, unicamente pelo desejo de “ser amada” — enquanto algo que eu não era. Até perceber que estas relações só me geravam mais dor, mais sofrimento.

Conforme fui me aproximando mais de mulheres (cis)lésbicas, assim como fui conhecendo outras mulheres trans lésbicas e bissexuais, pude então construir um outro referencial sobre minha identidade, e entender o que acontecia comigo:

o problema não estava na orientação do meu desejo (gostar de mulheres), mas no fato de ser lida enquanto “homem” dentro dessas relações.

Conforme fui transicionando, afirmando minha mulheridade, codificando meu corpo de outras formas — percebo como isso trouxe um âmbito muito maior de paz, de prazer dentro dessas relações, que justamente não existiam antes (quando meu corpo era anulado pela cisnormatividade).

Quando resgato minha história, o faço pra contar uma vivencia, dentro da qual a transfobia se intersecciona com a lesbofobia:

não se negava a mim o direito a me relacionar com mulheres — mas se negava o direito de existir como mulher nessas relações.

Negava-se que o reconhecimento de que o desejo e o amor que sentia, eram o desejo e o amor de uma mulher.

Ao longo do meu processo de transição, conforme me deparei com o estigma da transfobia — percebi que, junto a todo um sistema de violência que sofremos, a solidão é sim uma realidade imposta às mulheres trans. Mas que ela não é necessariamente uma regra escrita a ferro… é passível de ser quebrada, e minha história confirma que entre as dores e os invernos da transfobia, é possível encontrar afetos que impliquem nossa existência como mulheres enquanto um processo de descoberta, de prazer e potencialização da vida.

O que também diz de nossas experiências enquanto mulheres lésbicas — entre estigmas, invisibilidades e sofrimento, resisitir como sapatão (sapatrans) também é lutar por um espaço para afirmar nossos sorrisos, nossas alegrias.

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Lésbicas travestis e trans não somos “homens heterossexuais tentando nos infiltrar dentro do movimento”.
Somos simplesmente mulheres,
construídas desde outros corpos e outras histórias — que, embora sejam diferentes daquela de mulheres cisgêneras,
não nos posicionam
sob uma posição simétrica a de quaisquer homens
(sejam estes heterossexuais, bissexuais ou gays).

É verdade que nossas vivências
de afetividade com outras mulheres (sejam elas cis ou trans)
passa por recortes, experiências e atravessamentos
diferentes
daqueles que constróem boa parte da vivência
de lesbianidades cisgêneras.

Reconhecer essas diferenças, entretanto,
não deveria ser um motivo pra negar nossas lesbianidades -
nossa existência enquanto mulheres que amam mulheres,
nossa existência enquanto lésbicas que amam mulheres.

Podemos ouvir, e entender,
lésbicas que sentem rechaço por nossos corpos -
construindo entendimentos e diálogos de forma cuidadosa
pra que esse rechaço não se expresse dentro de uma narrativa de ódio transfóbico,
mas como, simplesmente, um desencontro possível dentro das normas que todas nós (em alguma medida) reproduzimos — sem que isso se transforme
numa barreira que impossibilite
nossas alianças Políticas.

Não é necessário transar, ou querer transar, conosco
para estarmos juntas no front de batalha.
Isso deveria ser óbvio — mas há certas obviedades que precisam ser repetidas,
quando nossa mera presença em espaços de Sociabilidade e Ativismo lésbico
vem sendo interpretada, automaticamente, como uma suposta tentativa de “coerção” pra que transem conosco.

O mais importante, sobretudo,
é que nossas vivências (bem como a das mulheres que se relacionam conosco)
não sejam negadas, silenciadas e invisibilizadas
simplesmente por carregarmos narrativas
que desviam da “história única”
pautada pela cisgeneridade.

A gente pode, e precisa entender, que essas mesmas narrativas — das lesbianidades cisgêneras -
são também subalternizadas
invisibilizadas
e lutam por reconhecimento.

Não estão nem perto da posição de poder
que ocupa a heterossexualidade compulsória — ou mesmo da posição de poder
que exercem homens gays cisgêneros.

Mas o fato de lutarmos
pelo empoderamento e pela visibilidade
de todas as lésbicas — não quer dizer
que estas estejam isentas de cometer opressões,
contra lésbicas que não se encaixam nessas narrativas, nessa “história única”.

E uma dessas posições
é a existências das lesbianidades travestis e trans.

Lésbicas travestis e trans existimos.
Resistimos.
Não voltaremos pro armário.
Reconhecer nossas multiplicidades,
coexistir com nossas diferenças — ao contrário de nos enfraquecer — só tem a somar
e potencializar nossas lutas.

(esse texto foi escrito a convite da página Isoporzinho das Sapatão:

fortalecendo as alianças ❤)

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