(Neuro)Economics— Resenha

Resenha do texto “Experimental Methods in (Neuro)Economics” de Vernon Smith.

[Esse texto escrevi para um trabalho da faculdade, faz um bom tempo.]

Vernon Smith em seu texto “Métodos Experimentais em (Neuro)Economia” nos leva a divagar sobre o mundo ainda oculto da mente humana. O que nos leva a decidir as trocas? O que nos faz optar pelo sim e pelo não, na troca, de forma que ambos negociantes estejam satisfeitos? E como ambos negociantes estarão satisfeitos? Há algum “protocolo” oculto que nos leva a agir em grupo de tal forma? E ainda de maneira que estejamos satisfeitos?

Vamos primeiro à observação e á teoria… O homem em si toma decisões, além de ter suas necessidades, para supri-las é necessário as trocas. As decisões que norteiam estas trocas não estão ligadas ao fato e à necessidade em si, mas ao meio, ao CONTEXTO em que essas trocas se dão. O contexto, dado o fato observado em si, não deve ser ignorado quando observada a decisão tomada.

Um exemplo, no texto, se refere a nativos da América do Sul (uma tribo do Paraguay), no qual se reparte a caça. O indivíduo, membro da tribo, arrisca sua vida quando sai à caça e obtendo sucesso divide o que tem com o restante do grupo. O sucesso na caça é algo difícil e um objetivo desta decisão é que, havendo sucesso um outro dia a caça nesse dia seja também dividida. Na mesma tribo não se vê tal comportamento com insumos/objetos abundantes e ou, inseridos em outro CONTEXTO. Temos então um exemplo no qual observamos a credibilidade e o anseio por algo comum em todos os seres humanos: A reciprocidade.

Além da reciprocidade temos também a faculdade de “punir” a desonestidade. Talvez algo que não tenha sido retribuído, dado o favor que se faz. E tudo isso ainda depende do CONTEXTO em que se observa esses fenômenos.

Esses fenômenos: Reciprocidade, Contexto, punição, confiança, não confiança; podem ser transportados para o nosso mundo de mercados, em que basicamente temos dois tipos de atores: Os que compram e os que vendem. Basicamente a evolução dos termos de troca.

Nos experimentos foram utilizados computadores em rede e simulados diversos CONTEXTOS, com indivíduos que simulavam com outros indivíduos, não com computadores. Diversas situações como colocar aleatoriamente quem seria o comprador e o vendedor a até mesmo a resolução de um Quiz no qual quem obtivesse maior pontuação (e no caso de empate, menor tempo respondido) seria o Vendedor.

A partir daí, o vendedor com um teto de $10 por exemplo (dez unidades monetárias) poderia oferecer uma certa quantia ao comprador. O comprador tomaria a decisão de aceitar aquele preço ou não. Interessante observar que com um teto de $10 oferecer $2 ou $1 poderia ser entendido como “trapaça” (após um certo tempo de jogo…) e que num contexto no qual o teto fosse de $100, valores menores que $30 passariam a significar “trapaça” após um certo tempo.

Isso pois intuitivamente, tendo-se noção após um período de trocas do limite que há no contexto (riqueza), é entendido como trapaça a sua não repartição igualitária entre os membros, ou a não proximidade disto. E mesmo assim, “contexto” não pode se resumir só ao teto, ao limite e disponibilidade da riqueza mas também aos valores sociais e culturais dos indivíduos que anonimamente jogam entre si.

Isso pode ser transposto para o mundo atual, o mundo de mercados, no qual os anseios dos que realizam trocas, baseados nas intuições cognitivas de nossas mentes, levam no mínimo que todos concordem em um equilíbrio. Só que esse equilíbrio depende do contexto em que as decisões são tomadas e por isso não podemos pensar aqui em um equilíbrio geral.

Testes experimentais não-cooperativos usando pares anônimos em jogos de duas pessoas geralmente falham quando se busca algum suporte para se provar certos conceitos de equilíbrio. Os diversos jogos, exemplificados e descritos no texto, não são recíprocos. O modelo mais satisfatório é o que é baseado na reciprocidade e na habilidade peculiar do ser humano em comunicar intenções através de ações.

A base da reciprocidade está na nossa capacidade de “ler mentes”, ou melhor traduzindo, “ler intenções”. Isso se deve a características do nosso cérebro. Um teste com crianças autistas e normais (os cérebros funcionam de forma diferente) leva a essa conclusão.

Ao mostrar uma caixa de balinhas para uma criança e pergunta-se o que ela contém. A criança responde: Balas. Abrindo a mesma mostra-se que tem apenas lápis. Pergunta-se então, à mesma criança, o que uma outra criança prestes a vir pensará que tem na caixa. Crianças ‘normais’ dirão “bala”. A maioria das crianças com autismo responderá “lápis”.

Estudos sobre autismo e outras formas de danos ao cérebro mostram dificuldade na habilidade social em pacientes. Imagens magnéticas sobre o cérebro revelam atividades em determinadas áreas do mesmo, quando o indivíduo é levado á tomar decisão com outro indivíduo, ainda que anônimos. A ativação é maior ainda na área de “mind reading” que prefiro traduzir aqui como “leitura de intenções” quando o indivíduo interage com outro ser humano.

A conclusão? A organização externa, regida por meios de troca, tem um “link” com a organização interna da mente humana e o próprio ser humano é tão adaptado ao regime de trocas que reciprocidade sobreviveria inclusive em interações anônimas entre os indivíduos.

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