A GRANDE VITÓRIA DO RETROCESSO É O QUE DEIXA DE ACONTECER.

O Brasil é movido a base de catástrofes. Esperamos que ocorram para nos movimentar.

***

Estamos às vésperas da queda de um arremedo presidencial e ainda não temos certeza sobre as consequências.

Ao que tudo indica, 2017 caminha para ser um ano engessado. Os olhos do país inteiro estão vidrados num processo judicial que se arrastará por anos. Assistimos aos episódios iniciais da Operação Lava-Jato como se estivéssemos prestes a nos deparar com o fim definitivo da corrupção. Equivocada expectativa 1.

A consciência de que esse tipo de prática não surgiu ontem nem se acabará amanhã deve orientar uma luta perseverante. A queda de Temer não será o fim da corrupção no Brasil.

Por isso, além de atentos ao presente, precisamos nos focar nos debates fundamentais e seguir nos mobilizando para que eles sejam alcançados, seja lá qual for o governo eleito.

A população é que carrega o destino dos seus desejos. A ela cabe o esforço de sua realização. Não podemos cair no conto de fadas de que o governo é o detentor dessas aspirações, como se o espírito coletivo fosse magicamente transferido no momento do voto. Temos que ter clareza que o poder flui do povo em direção ao governo e não o contrário. A democracia representativa está com seus dias contados.

É preciso fazer uma dura oposição à ilusão delegatória das eleições. Nessa ilusão, as pessoas acreditam que abrem mão de sua responsabilidade no momento do voto. A onda de votos nulos é resultado dessa ilusão. O discurso prevalente é que as pessoas são culpadas por aquilo que é feito pelos representantes eleitos. Em verdade, ninguém deve ser culpado por votar honestamente em quem quer que seja. Porém, todos devemos receber culpa pela omissão. Nossa responsabilidade é pressionar os eleitos. Não importa se o ‘representante’ recebeu ou não nosso voto. Somos responsáveis quando não agimos.

Devemos nos esforçar para quebrar com concepções do tipo “não é minha culpa, votei no Fulustreco”. As ações de qualquer governo impactam a todos. Quando não há pressão, o que ocorre é que o peso das escolhas não cai sobre os ‘representantes’ que as decidem, mas sobre outros. Aí, fica fácil demais cometer barbaridades.

Paradoxalmente, estamos atravessando um período que irá marcar nossa história de forma positiva, exatamente por existir a possibilidade de agir. E agimos. Lembremos que a consequência mais notável da Constituição de 1988 — junho de 2013 — demorou 25 anos.

Entretanto, após três anos de uma acirradíssima disputa ideológica, pessoas que antes se mobilizavam dão mostras de cansaço quanto aos rumos da política brasileira. Ao contrário do que se pensa, as eleições municipais de 2016 não revelaram uma ascensão do conservadorismo de direita, mas sim um momento de fraqueza das forças que lutavam por uma mudança consistente em nosso ainda lamentável quadro político.

Nesse cenário, é necessário lembrar, em primeiro lugar, que a expansão do debate político é um avanço gigantesco, sobretudo num país de tradição autoritária tão ferrenha. Na juventude dos nossos pais, o mero questionamento da condução política era visto como delito. Não é de surpreender que esse tipo de preocupação ainda não tenha amadurecido como deveria.

Igualmente, não é de surpreender o que acontece no momento atual. A desesperança é a reação natural de quem encara o cenário do momento como resultado desses três anos de combate. Após lutar até esgotar suas limitadas forças, a juventude foi presenteada com um governo que reunia a elite do retrocesso político.

Isto posto, é preciso abrir mão do imediatismo para nos inserir na perspectiva de um processo histórico mais amplo. A história não se faz através de uma infindável sucessão de vitórias.

Agora, o que acontece é que o momento nos faz esquecer do que é mais importante para olhar pro que é mais urgente. Aqui, as sucessivas crises usurpam o lugar de problemas que já muito mal caminhavam. Todos os debates ficam presos num nó cego de uma política fraudulenta. Não sabemos, com certeza, nem ‘se’ e nem ‘quando’ o atual governo irá cair, e ao cair, não sabemos o que acontecerá.

No cenário menos pior, eleições serão convocadas para que uma nova gambiarra presidencial seja introduzida. Com isso, deixa-se de lado a parte mais relevante do processo eleitoral, que é a ampla discussão acerca de um projeto para o país. E é essa discussão que permite o amadurecimento. Uma eleição feita às pressas e desorganizada será de pouca serventia.

No pior, eleições indiretas serão realizadas por um congresso que não dispõe de um fiapo de credibilidade junto à população. Se o cenário anterior é ruim, este possui consequências catastróficas e nos jogará num poço ainda mais profundo.

O cenário mais que pior é aquele em que uma ‘força maior’ cancela as eleições de 2018. O exército já está nas ruas.

Ao povo o que é do povo. Às instituições o que é das instituições”

Em momentos como esse, apesar das complicações, os problemas sobre os quais há consenso — como investimento sólido em saúde e educação pública de base — deveriam continuar em marcha. Além disso, a discussão de outros temas, como regulamentação das drogas e aprisionamento em massa, deveria caminhar independentemente das tribulações governamentais, tendo em vista que direcionam resultados de longo prazo. Alguns desses problemas estão profundamente relacionados, sendo impossível resolver um problema sem tratar do outro.

Entretanto, não é isso o que ocorre. O pensamento de um país inteiro encontra-se hipnotizado por notícias desastrosas. Em lugar de avançar, somos obrigados a gastar todas as forças para barrar retrocessos. Os clamores por melhores serviços públicos foram respondidos com cortes nos setores essenciais para pagamento de juros da dívida pública.

Em outras palavras, assistimos à escavação da nossa própria sepultura. Paralelamente, afundamos no engodo de manchetes que direcionam o debate para becos sem saída. Há muito o que discutir além daquilo que aparece nos jornais.

O mais preocupante de tudo isso é ver as manifestações cessarem no momento em que são mais necessárias. Esse momento de silêncio, nessa fase tão complicada do processo, concretiza a humilhação que está sendo imposta à coletividade dos brasileiros. A mensagem que procuram passar — sem que ninguém precise dizer — é que aqui se pode cometer todo tipo de iniquidade sem que ninguém reaja.

Prefiro pensar o oposto: que essa é a pausa natural da respiração, que se esvazia para tomar fôlego e voltar com mais força.

Que esse momento não marque o fim da moda das manifestações políticas, quando tudo parece ir mal é pois quando mais precisamos de energia. E que o carnaval que vem aí recarregue nossas baterias. Apatia jamais!

1 Nada de “Fim do Mundo”. O jogo apenas começou.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.