Das águas.
Há quarenta dias a chuva lava minha cidade. Com voz suave, diz:
“Isso não é tempo de viver. As formigas entram em suas tocas, os ben-te-vis não saem a cantar, nem mesmo o sol majestoso atravessa o pesado véu dos meus cabelos. Uma vez por ano me é permitido reinar. Uma vez por ano posso cantar meu canto sereno e compassado. Ponho pessoas a dormir, faço o encontro dos amantes, limpo as dores do chão e abro caminhos”.
Os olhos do céu estão fechados e é como se o dia vivesse vendado. É a glória dos guarda-chuvas e das capas contra o ataque das poças, da lama e do mormaço. É o tempo de cultivar tristeza adormecida; de procurar e não achar. Tempo de sofrer e de ouvir. Ouvidos ficam atentos no tempo da chuva. Outrora alegre litoral se fecha embaixo de cinzas. Frios. Lençóis viram objetos de culto, colchões tornam-se carne do sonho.
E o sono permanece, ainda que acordados. Nada desperta completamente. Tudo foi posto a dormir num império de nuvens e garoas. O dia não amanhece nem se põe; mal abre os olhos e fica num espreguiçar-se interminável.
Mal surgiu, volta ao encerramento.
É a sedução das horas paradas.
É o domínio de conchas e esconderijos, cobertas, abrigos.
Tempo de chuva e tempo de espera. Inverno da nossa esperança, e dos céus.

http://www.hominiscanidae.org/2013/05/mahmed-dominio-das-aguas-e-dos-ceus-2013.html
