Rafiki e a Fuga do Real

Raul Pacheco
Nov 1 · 6 min read

Wanuri Kahiu — Kênya (2019) — Teatro de Cultura Popular — 28.10.2019

A exibição foi remarcada, mas deu certo!

Assim como os ventos do oeste, o coletivo negro Mulungu Audiovisual veio trazer um sopro de mudança ao exibir o filme keniano Rafiki¹.

Contando a história de um casal de garotas, Kena e Ziki, o filme exibe uma trama de sentimentos e vastas compreensões que se revelam aos olhares mais atentos.

Banido no Kênya, o filme foi o primeiro de seu país a ser exibido em Cannes, na mostra Un Certain Regard, além de ter sido premiado no Festival Panafricano (FESPACO) pela atuação brilhante de Samantha Mugatsa na brilhante interpretação da protagonista.

Kena é uma garota tímida, observadora e extremamente inteligente. Embora viva com a mãe, numa relação longe de ser fácil, convive todos os dias com seu pai, ajudando-o na sua pequena bodega de sortimentos.

O filme se passa num período de eleições, permitindo que o leque se abra — além do plano de gênero e familiar — para o campo político, eleitoral e religioso. Seu pai é uma das primeiras figuras a aparecer na tela. De imediato, senti que seria uma espécie de antagonista num filme plano e previsível. Impossível cometer engano maior.

À medida em que a narrativa avança, as relações vão ganhando profundidade. Kena se apaixona justo pela filha do rival do seu pai (Okemi) na disputa pelo cargo de vereador. Remetendo a situações que poderiam ocorrer em qualquer cidade do interior potiguar, a história se desenvolve num microcosmo de proximidade onde as relações interpessoais são conhecidas e bem definidas. Até o personagem gay, que não fala uma palavra sequer, consegue participar bem do enredo e transmitir mensagens claras sobre pertencimento e exclusão naquele universo.

Rafiki, entretanto, é um filme de sutilezas que joga de forma sagaz com as percepções de quem o assiste. Nada é atirado de maneira explícita. As tensões são construídas de forma gradual para que cada emoção seja construída no sentir de quem vê. Mesmo quando algo é escondido dos olhos, o ambiente faz com que o recado se revele claramente.

Assim, Wanuri Kahui consegue tecer uma obra inesperadamente forte ao evitar os recursos óbvios de uma cinematografia transgressora. Ao equilibrar seus elementos, a diretora traz à tona essa maravilha de compreensões diversas, íntegras e surpreendentes.

Um romance, naturalmente idealizado (a cena da kombi…!), serve de pano de fundo para a apresentação de situações dolorosamente reais. A rejeição da mãe, a execração pública, a vergonha e a humilhação são retratadas de maneiras intensas.

Isso, porém, não faz com que Rafiki (swahili para ‘amigas’) seja um filme de angústia. Cada dor é amparada por uma alegria. E essa alegria, como força de vida e de superação, é a sua nota principal.

Mesmo com todos os seus desafios, Kena consegue ir além de suas expectativas e alcançar um lugar que nem ela mesma esperava. Contudo, o tapete de sua esperança de afeto é puxado de forma cruel.

Acho incrível como o enredo aborda algumas relações: a mãe vigilante e intransigente, a ‘sogra’, que uma hora parece megera, outra é compreensiva (numa contradição que, em vez de estranha, é na verdade muito humana), a fofoqueira, que separa e reata (ainda que sem intenção). E também as amizades redutoras, a agressividade e a ira cega de uma multidão que se acha correta nos seus propósitos.

Neste segundo longa, a diretora revela invejável domínio narrativo ao retratar sua teia ondulante de encontros, sonhos, frustrações e choques. Ao mesmo tempo pesada e sutil (o que se reflete na sua delícia de trilha sonora), a história de Rafiki realiza-se num campo de contradições onde a arte liberta seu maior potencial.

Confesso que fui pego no contrapé. Eu, que esperava um filme raso, fiquei aterrado de beleza e vibração.

Rafiki foge completamente ao clichê de ser intragável para ser intenso. Qual comida bem feita, o filme dosa com serenidade seus temperos. Não excede o sal da violência e balanceia a doçura com acertadas gotas de acidez, ao mesmo tempo em que articula o (não raro traiçoeiro) uso da pimenta erótica.

Alcança a proeza de ser belo como uma bolha de sabão porém muito menos instável. Carrega as matizes coloridas da cultura-mãe sem escorregar no lodaçal comum de ver um continente inteiro como um poço de dor.

Refazendo os caminhos da tragédia e do romance, Kena e Ziki escapam do fim último e deixam aberta a porta incerta do futuro (como se Julieta, em vez de morrer, escolhesse salvar Lavínia de seu violento pai).

Curiosamente, Rafiki e Mulungu possuem inesperada sintonia. A árvore de flores avermelhadas é planta reconhecida por suas propriedades ansiolíticas. Conduzindo o filme com extrema sensibilidade, sua diretora denota uma feitura inteligente que é tudo menos apressada.

Através das sugestões, dos quase encontros, aproximações e distanciamentos, Wanuri cria tensões e orquestra seu filme com paciência, sem cansar a mente e os olhos. Sopesando clichês românticos, Rafiki é um bom filme comercial, destinado a ser visto por largas audiências.

Além da temática de gênero (na qual o filme não se fecha, embora dela parta), Rafiki assume a tarefa de apresentar um novo olhar sobre a África, sobrepondo-se aos fantasmas da guerra, da aids, fome, mutilação e pobreza. Seres neurolinguísticos, nós criamos e modelamos nossa visão com base nas informações que nos chegam do mundo. Por isso, a contação de novas narrativas é fundamental e conduz à criação de novos universos.

Com suportes vindos de Holanda e África do Sul, despretensiosamente, o filme gera novos paradigmas de romance e aceitação, atuando em camadas comunicantes de temas afetivos, raciais e culturais que tem imenso potencial de parir férteis consensos sobre respeito, tolerância e diversidade.

Rafiki é, no final das contas, um filme de celebração onde a alegria se compartilha entre quem o fez e quem o assiste.

Ao final da sessão, o palco do TCP recebeu um conjunto de quatro mulheres que falaram sobre suas leituras da obra e fizeram associação com suas experiências particulares de vida. Em seguida, abriram espaço para depoimentos mais intensos ainda das pessoas da plateia.

Esses momentos de conversa sobre o filme ao final da sessão têm a capacidade de clarear ângulos às vezes impensáveis sobre possíveis interpretações, fazendo com que uma obra já admirável se torne ainda mais fantástica.

Por fim, nada melhor que concluir agradecendo ao TCP Chico Daniel, pelo acolhimento, às distribuidoras (Ipecine e Telecine), por tornarem real esta exibição gratuita num espaço fora dos muros da Universidade, e a Rosy Nascimento e Karol Alves, pela garra, energia e carinho de sua voz.

Ps: gostaria de agradecer também a Renata (minha irmã) e Helena (sua namorada) que me deram o prazer de sua companhia nesta sessão : )

¹Baseado em Jambula Tree, conto da ugandense Monica de Nyeko.

Referências:

1 —Erythrina mulungu
http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:FloATjkaDtQJ:abmanacional.com.br/wp-content/uploads/2017/06/36-4-Erythrina-mulungu1.pdf+&cd=2&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br&client=firefox-b-d
2 — https://en.wikipedia.org/wiki/Wanuri_Kahiu
3 — https://en.wikipedia.org/wiki/Rafiki
4 — https://mg.co.za/article/2007-07-30-a-very-real-story-of-love
5 —http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/uma-hista-ria-de-amor-entre-amigas-no-qua-nia/462625

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