Teatro de Sombras
Cheguei lá por volta das seis horas. O espaço A3 é um buraco escuro no meio de uma das tantas ruas sinistras da Ribeira. Ali na Frei Miguelinho, o único lugar salubre deve ser a Casa da Ribeira. Encontrei a porta por acaso. Um casal de paulistas descia do carro justo na hora em que eu passava. Entramos juntos e conversamos longamente sobre assuntos variados. Viajavam pelo Brasil e no caminho iam prestigiando apresentações teatrais em cada cidade. Tinham andado pela Bahia, Minas Gerais, Paraíba e Pernambuco. Em Recife, disseram ter visto o grupo Magiluth e eu fiquei imensamente feliz por eles. Falamos sobre teatro, suas dificuldade,seu público, suas alegrias e sobre as diferenças entre cidades como Natal e São Paulo. A cidade da garoa, encravada numa planície estável como um diamante, evidentemente está a salvo da oscilações duma cidade que vive entre o mangue e a duna. Dei a sorte de encontrar Victor Cecílio e sua namorada. Passamos um bom pedaço trocando ideia sobre música e composição. Ela toca, eu não, mas tenho amigos músicos que admiro e que me inspiram profundamente. Nesse meio tempo, fui ao “Bar dos Marinheiros” que ficava ali vizinho para comprar cerveja. Iluminado por uma tênue luz azul, paredes decoradas com pinturas de deusas do candomblé — Iemanjá, Iansã — o lugar possuía o aroma ébrio de uma casa de prostituição. Embora eu tenha sido uma das primeiras pessoas a chegar, minha saída fez com que eu encontrasse na porta do A3 uma fila considerável de gente. Casa cheia, oxalá. Do fim da fila observei a distância imaginária que separava dois lugares tão próximos. A peça começou. Sentei numa das cadeiras ao fundo. O cenário era composto por uma tv, uma mesa com garrafas e comidas e um plástico transparente. No chão, três grandes massas vermelhas simulavam corpos carneados de cabras. Por detrás do público, Bex comandava a mesa de som. Quando a vi, mais cedo, quis dizer que tinha ouvido seu álbum, que tinha ficado impressionado etc etc, mas evitei incomodá-la. Assisti Danda receber um ramalhete de flores amarelas antes de encenar sua angústia sanguinolenta. Pressinto que essa estreia tenha sido o maior desafio de sua vida como atriz e dramaturga. Mas eu me sentia cansado e seco de encantos. Mesmo esperando gostar, fui tomado por uma sensação de debilidade. Na saída, falei com amigos também cansados. Depois, encontrei meu grupo passando de bicicleta e desapareci com eles subindo a Junqueira Aires.
