As Etapas do Pensamento Sociológico: Auguste Comte

Comte é um sociólogo da unidade humana e social com dificuldade para fundamentar a diversidade. Para ele só existe um tipo de sociedade válida e toda a humanidade deve chegar a essa sociedade.

As três etapas do pensamento de Comte

Para Raymond Aron existem 3 etapas da evolução filosófica de Auguste Comte.

A primeira etapa é a de 1820–1826. A segunda etapa é a do “Curso de filosofia positiva”. A terceira é a do “Sistema de política positiva”.

Na primeira etapa, nos “Opúsculos”, Comte trata das questões do seu tempo e analisa a sociedade teológica e militar, que, para ele, está em vias de ser substituída por uma sociedade científica e industrial.

Explicando, a sociedade medieval estava fundada sob a fé e o modo de pensar estava ligado a atividade militar. Com o progresso da humanidade, os sacerdotes estavam sendo substituídos por cientistas e os militares por industriais.

Nota-se também que, quando os homens passam a pensar cientificamente, a guerra dos homens contra os homens passa a se transformar na guerra dos homens contra a natureza.

Já nessa época Comte acredita que a reforma social tem como condição a reforma intelectual. Para ele a revolução ou violência não permitem reorganizar uma sociedade em crise. Para essa reorganização seria preciso a criação de uma política positiva.

Na segunda etapa Comte amplia sua perspectiva. Observa as ciências e daí tira 2 leis: a lei dos 3 estados e a classificação das ciências.

De acordo com a lei dos três estados primeiro o homem explica os fenômenos atribuindo-os aos seres, ou forças, comparáveis ao próprio homem. Depois, invoca entidades abstratas, como a natureza. E, por fim, no terceiro estado, o homem renuncia descobrir as causas dos fatos e se contenta em estabelecer leis que os governam. Isso é uma transição, primeiro a idade teológica, depois a idade metafísica e, finalmente, a idade positiva.

Essa passagem não foi feita de forma simultânea em todas as disciplinas. Para Comte as ciências mais complexas tendem a sofrer um atraso nessa evolução.

É da combinação da lei dos 3 estados com a sua ideia de classificação das ciências que funda-se a sociologia, uma ciência positiva da sociedade.

Aron avisa que as ciências deixam de ser analíticas para serem sintéticas. Esses termos tem múltiplas significações. A física e a química, por exemplo, são analíticas porque estabelecem leis entre fenômenos isolados. Na biologia é impossível explicar um órgão ou uma função sem considerar o corpo. Na sociologia não se pode entender a situação da religião, ou forma precisa do Estado sem se considerar o conjunto da sociedade. O declínio do espírito teológico e militar só se explica pelas suas origens nos séculos passados.

Isso faz crer que a sociologia tem como objeto o estudo da história humana.

No “Curso de filosofia positiva” cria-se a sociologia, que admitindo a prioridade da síntese sobre a análise e do todo sobre o elemento, tem por objeto a história humana.

Na terceira etapa de sua evolução filosófica, no “Sistema de política positiva”, destacam-se 3 ideias.

A primeira é que, para a história humana seja uma só, e essa é a concepção de Comte, é preciso que o homem tenha uma natureza reconhecível e definível a através de todos os tempos e de todas as sociedades. A segunda, é preciso que toda a sociedade comporte uma ordem essencial que se possa reconhecer através da diversidade das organizações sociais. E, a terceira, é preciso que essa natureza humana e social sejam tais que possamos inferir delas as principais características do devenir histórico.

Resumindo, Comte parte da contradição entre uma sociedade do tipo teológico-militar, que está em vias de acabar, e uma sociedade do tipo científico-industrial, que será a substituta.

Disso, passa ao “Curso de filosofia positiva” e nele identifica os métodos que foram usados pelas disciplinas e seus resultados. Isso da base para ele formar a sociologia.

Sociologia essa que busca resolver a crise do seu mundo, fornecendo um sistema de ideias científicas que irão dar origem à reorganização da sociedade.

Para tal, a sociologia deve apresentar resultados indubitáveis e exprimir verdades exatas, devendo ser então uma ciência sintética. Ciência que deve encontrar um determinismo global que os homens pudessem usar.

A sociedade industrial

As idéias que o pensamento cientifico comandaria os homens, que com a teologia desapareceria a estrutura feudal e a organização monárquica e que os cientistas e industriais dominariam a sociedade não são idéias originais de Comte mas, foram retiradas de seu tempo.

Uma coisa que chama atenção naquela época é o fenômeno da industrialização. Aron traça 6 características sobre esse fenômeno.

1º A industria organiza o trabalho de forma cientifica, a produção passa a ser ordenada visando ao lucro máximo e não mais aos costumes.

2º Graças a ciência, usada na organização do trabalho, as sociedades se desenvolvem maciçamente seus recursos.

3º Ela leva uma concentração dos trabalhadores nas periferias e fábricas, surge a massa operária.

4º Essas concentrações criam uma oposição entre trabalhadores e capitalistas.

5º Enquanto a riqueza da sociedade aumenta multiplicam-se as crises de superprodução, gerando pobreza.

6º O sistema econômico se caracteriza pela liberdade de trocas e busca de lucro, daí prevem a ideia de que quanto menos o estado intervir na economia, mais riqueza será gerada.

Para Comte as 3 primeiras características são decisivas, a quarta é secundária.

Para os socialistas, as duas mais importantes são a quarta e a quinta.

Para os liberais, a sexta é defendida como fonte de progresso.

A ideia de Comte não é nem liberal, nem socialista mas é o que Aron chama de teoria da organização.

Comte chama os economistas liberais de metafísicos, além disso, fala que cometem o erro de separar os fenômenos econômicos do todo social e ainda os critica por que, para ele, eles superestimam a eficácia dos mecanismos de troca e de competição no desenvolvimento da riqueza.

Mas também critica os socialistas, inimigos da propriedade privada. Ele acredita nas virtudes da propriedade privada e da concentração de renda.

Para ele a concentração da riqueza é não só inevitável, mas também benéfica. só se desenvolve economicamente a geração que produz mais do que necessita e transmite esses bens à próxima geração

Comte não concorda com o argumento de que o valor dos capitais concentrados deveria fazer com que a propriedade seja pública. Ele é indiferente a isso. Para ele em todos os lugares existem quem comanda e quem é comandado. Mesmo que quem comande economicamente também detenha a autoridade social.

Todavia, para Comte é importante que os donos das propriedades concebam suas funções como funções sociais. O seu uso deve ser feito pensando no coletivo.

Além de sua teoria sobre a propriedade privada outra ideia importante de Comte é a ideia de caráter secundário da hierarquia temporal.

Comte aceita a concentração da renda e a autoridade dos industriais porque nem tudo se define pelo lugar que os indivíduos ocupam na hierarquia econômica e social, aliás, essa é a ordem temporal. Para ele há, além dessa ordem, uma ordem espiritual, que é independente da ordem temporal.

Esta ordem espiritual não é transcendente. É uma ordem do aqui e agora, mas que substitui a hierarquia temporal do poder e da riqueza por uma ordem espiritual dos méritos morais. Esse mérito moral é o objetivo supremo para Comte.

Em Comte se identifica tanto a aceitação de uma ordem temporal autoritária e hierárquica quanto a superposição dela por uma ordem espiritual.

A sociedade que os positivistas sonham não é caracterizada principalmente pela rejeição do socialismo e liberalismo, ela é caracterizada pela reinvenção de um poder espiritual.

A sociologia, ciência da humanidade

No “Curso de filosofia positiva”, Comte expôs sua concepção do que seria a sociologia. Ele apresenta Montesquieu, Condorcet e Bossuet como inspiração para criar esta ciência.

De Montesquieu ele tira o determinismo dos fenômenos históricos e sociais.

De Condorcet ele retira a ideia de progresso como fundamento ao devenir das sociedades.

Juntando essas ideias chega-se a ideia central de Comte. Nas palavras de Aron: “os fenômenos sociais estão sujeitos a um determinismo rigoroso que se apresenta sob a forma de um devenir inevitável das sociedades humanas, comandado pelos progressos do espírito humano”.

Esse modo de observar o rumo da história leva a noção de que a história é única e prossegue para um estado definitivo não só do espírito humano como também das sociedades.

Comte é um sociólogo da unidade. O objetivo dele é reduzir toda a diversidade das sociedades a um projeto único, o progresso final do espírito humano.

Para ele, a antiga incoerência dos modos de pensar tem impulsionado o movimento histórico. Essa incoerência desaparecera na fase final, quando o positivismo atingir todas as disciplinas, inclusive a política e a moral.

Nota-se que há também que há um outro modo de se escapar a essa incoerência. O fetichismo, que é um modo de pensar espontaneo, é a saida adotada por sociedades anteriores.

Dito isso se pergunta qual a razão da história, já que o estado final da humanidade está no positivismo. A razão é que o positivismo não é espontâneo. O homem tem que reconhecer uma ordem exterior, perceber que não pode explica-la e se contentar em descobrir as leis que comandam suas ações.

Ainda resta uma pergunta. Mas se, para Comte, a história da humanidade é uma só, se suas etapas são necessárias e se há uma marcha em busca de um objetivo determinado, por que existem histórias diferentes?

Comte explica essa diversidade apontando 3 fatores: raça, clima e ação política.

Sobre a raça, cada raça tem uma inclinação. A raça negra, para ele, se caracteriza pela afetividade, por exemplo. As sociedades assim não evoluem da mesma forma por que cada raça tem dons distintos.

Sobre o clima, cada parte tem as suas condições naturais. Isso faz com que as sociedades vençam a natureza cada uma à sua maneira.

Sobre a ação política, cada sociedade tem políticos diferentes. por maior que seja um soberano se ele não compreender a natureza de sua época ele irá fracassar.

Os conceitos de estática e dinâmica também são duas características centrais na obra comtiana.

A estática é essencialmente o que ele chama de consenso social. Lembrando que se para Comte não se pode estudar o funcionamento do Estado ou política sem situa-los no conjunto da sociedade. Para estudar , então, o consenso, estática, temos que saber quais são os órgãos essenciais de toda a sociedade.

A dinâmica, inicialmente, é a descrição das etapas percorridas pelas sociedades.

A dinâmica está subordinada a estática. É a partir da ordem das sociedades que se pode compreender a história. A estática e a dinâmica levam aos termos ordem & progresso: o progresso é o desenvolvimento da ordem”.

Natureza humana e a ordem social

Numa primeira analise a estática social estuda como se organizam os diferentes elementos do corpo social. Como para Comte só há uma história,então, pelo estudo estático podemos apreender as características de todas as sociedades.

A estática social pode ser decomposta em: primeiro, um estudo preliminar da estrutura da natureza humana e, depois, o estudo propriamente dito da natureza social.

A natureza humana, em Comte, está exposta no que ele definiu como “quadro cerebral”. Isto é, uma teoria das localizações cerebrais relativas as disposições humanas.

Ele também indica que se pode considerar a natureza humana como dupla ou tripla. Essa natureza se divide em coração e inteligência, ou, sentimento atividade e inteligência. Para Comte, o homem deve: “ agir por afeição e pensar para agir”.

Quanto a natureza social, Comte traça uma teoria da religião, uma da propriedade, uma da família, uma da linguagem, uma da divisão do trabalho, consagra um capitúlo sobre a sociedade humana que se tornou positiva e outro, da explicação, a partir das leis da estática, da possibilidade e necessidade das variações históricas(dinâmica).

Sobre a religião há uma dupla exigência. Toda a sociedade comporta o consenso. Essa unidade exige um princípio de unidade, a religião.

Ela comporta na natureza humana, o aspecto intelectual, dogma; comporta a afeição, o amor; e um aspecto prático, o regime.

A função da religião para a alma é construir um consenso entre cada uma das 3 partes da natureza humana.

Sobre a propriedade e linguagem, há uma relação. Propriedade é a projeção da atividade na sociedade. Linguagem é a projeção da inteligência na sociedade. Em comum, a acumulação.

Sobre família Comte defende o modelo de família ocidental da época.

Sobre a divisão do trabalho, Comte defende a diferenciação das atividades e a cooperação entre os homens. Além disso o primado do positivismo é reconhecer a força na organização prática da sociedade. Comte segue assim a linha de Hobbes, onde a sociedade deve ser governada pela força. e a força é constituída pela grandeza ou pela riqueza. Mas, é importante saber que o poder espiritual faz um contra-peso limitando esse poder temporal.

Resumo do livro.

Bibliografia:ARON, Raymond. As etapas do pensamento sociológico. 7ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2008.