Mozart e a genialidade que não cai do céu

Essa história é sobre Mozart. Ela abre o livro “A História Secreta da Criatividade” de Kevin Ashton, lançado em agosto de 2016. Kevin é tido como o cara que cunhou o termo “Internet of Things” (IoT) e um dos pioneiros na tecnologia RFID (Radio-Frequency Identification). Hoje, ele atua no MIT desenvolvendo na prática tudo que o IoT pode significar para transformar as nossas vidas. Em seu livro, Kevin discorre sobre uma série de exemplos e histórias reais que sustentam a tese que a criatividade não é privilégios de poucos escolhidos pelos céus. Ela também pode ser fruto de observação atenta e constante, além de dedicação extrema.

Sobre Mozart, Kevin nos conta que o Jornal Geral de Música da Alemanha publicou em 1815 uma carta do compositor na qual ele descrevia como se dava o seu processo de criação artística:

Quando sou completamente eu mesmo, quando me encontro sozinho e de bom humor — por exemplo, se estou viajando de carruagem, caminhando depois de uma boa refeição ou sem sono à noite — minhas ideias fluem melhor e com mais abundância. Tudo isso incendeia minha alma e, se eu não for incomodado, o tema em que estou pensando se expande, torna-se metodizado e definido, e o todo, ainda que longo, surge quase acabado e completo na minha mente, de modo que posso analisá-lo com um único olhar, como uma bela pintura ou uma linda estátua. Não ouço em minha imaginação as partes sucessivamente, ouço-as todas ao mesmo tempo. Quando passo a escrever tais ideias, faço-o com bastante rapidez, uma vez que tudo, como eu disse antes, já está acabado e no papel elas raramente diferem do que eram na imaginação.

Pelo que a gente poderia supor ao ler essa carta de Mozart, suas criações geniais lhe vinham inteiras à mente quando ele estava sozinho e de bom humor. Inspirado. O que só reforça o mito da eureka divina, do insight genial, dos gênios incríveis que realizam feitos marcantes sem nenhum esforço. Simplesmente contando com uma genialidade mágica e natural.

Quando terminava de imaginar suas obras-primas, só precisava anotá-las.

Segundo Kevin, essa carta foi usada muitas vezes para explicar a criação. Partes dela aparecem em “The Mathematician’s Mind”, de Jacques Hadamard em 1945; em “Creativity: Selected Readings” de Philip Vernon em 1976; no premiado livro de Roger Penrose publicado em 1989, “A mente nova do rei”; e é citada no best-seller “Imagine”, de Jonah Lehrer, de 2012. Influenciou os poetas Pushkin e Goethe e o dramaturgo Peter Shaffer. Direta e indiretamente, ajudou a influenciar as crenças do senso comum sobre como se dá o processo criativo.

Mas há um problema. Mozart não escreveu essa carta.

É uma farsa. Uma falsificação. Algo que hoje em dia seria chamado de pós-verdade. Isso foi mostrado pela primeira vez em 1856 pelo biógrafo de Mozart, Otto Jahn. E desde então vem sendo confirmado por estudiosos. As verdadeiras cartas de Mozart — para seu pai, sua irmã e outras pessoas próximas — revelam seu verdadeiro processo de criação. Ele era excepcionalmente talentoso, mas não compunha por pura magia divina e abençoada. Rascunhava infinitamente as suas composições. Revisava-as de forma exaustiva e intensa. E sim, às vezes ficava empacado, em conflito, sofrendo com os dilemas de sua criação. Ainda que o talento e toda uma vida de prática o tornassem rápido e fluente, seu trabalho consistia nisso: trabalho, trabalho, muito trabalho. As obras-primas não lhe vinham em jorros completos e ininterruptos de imaginação nem prescindiam da ajuda de um instrumento; ele não as escrevia inteiras e sem qualquer alteração. A carta não é somente falsa, é mentirosa. Beira o cretino. Ela sobrevive porque apela para os mitos românticos sobre a invenção.

Há um mito sobre como algo novo surge. E gostamos de acreditar que há poucos escolhidos que são designados para serem abençoados com a genialidade. Mas isso não é verdade. Está provado por diversas pesquisas aos bancos de patentes: a verdadeira criatividade não acontece por magia ou por clarões de inspiração — apenas por dezenas de milhares de horas de trabalho. Pode até ser que ocorra sim um momento de eureka. Mas ele só vem depois de muito suor.

Logo, o que faz a diferença entre um gênio e uma pessoa comum é a capacidade de olhar diferente para as coisas e a resiliência em não desistir até que se consiga chegar ao melhor produto final possível.

Compre o livro clicando aqui: “A História Secreta da Criatividade” de Kevin Ashton.

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