Rotina, caos e uma…manga?

Estava eu no supermercado, andando tranquilamente mas com a mente a mil, antecipando tudo o que iria fazer quando chegasse em casa, me visualizando deitado na cama, pegando no sono até mesmo.

Pode parecer um tanto extremo saber que uma pessoa age dessa forma, mas quem não é, nem que por um momento do dia, assim? Na maioria das vezes apenas não nos damos conta das várias ações que, sem perceber, colocamos no automático.

E era exatamente sobre essas ações embutidas que comecei a refletir quando algo incrível me chama toda a atenção: O aroma da manga. Sim, uma simples e maravilhosa manga conseguiu diminuir meu cérebro de 5ª pra 2ª marcha, quase parando, em questão de segundos.

Fui até onde elas ficavam, peguei a primeira que vi mais vermelha e funguei tudo o que tinha direito, ali mesmo. Uma, duas, três fungadas, pra guardar bem essa lembrança. Então percebo uma criança do meu lado, menina, uns 6, 7 anos, olhando pra mim. Acho estranho porque ela não quer rir da minha cara, não, ela está curiosa. Entrego a manga pra ela, e observo enquanto a menina funga bem mais forte que eu. Ela então corre até a mãe e diz: “Mãe, porque isso cheira tão bem? Posso levar pra experimentar?”.

A mãe, nessa pressa de ações embutidas, rapidamente enfia a manga numa sacola e joga no carrinho. A menina sorri pra mim e sai cheirando todas as frutas que vê pela frente. Voltando a loucura da minha cabeça, olho pro relógio e vejo que passaram quase 3 minutos. Lembro que ainda tinha que passar no banco, chegar em casa pra alimentar os animais, começo a me deixar levar de volta pra essa rotina cega de todo dia.

Paro. Olho em volta pra todas aquelas pessoas, nas suas rotinas automáticas, olho pra manga no meu carrinho, lembro do aroma dela e me recordo de uma regra de um filme que gosto bastante, chamado Zumbilândia: Regra #32 Enjoy the little things (Aproveite as pequenas coisas).

“Twinkies!!”

Bom, tento relembrar do dia que se passou e se nele houve algo legal, que me trouxe alegria, que ouvi, que vi ou senti, alguma pequena coisa para aproveitar.. nada. Uma risada ou outra, mas em nenhum momento havia parado pra apreciar o dia que estava lá fora. Eis que uma manga e uma criança me mostram, em apenas alguns minutos, o universo de detalhes que deixei passar todo esse tempo, embutido, automático, tentando fazer tudo, pensando que não vai dar tempo, quando na verdade o tempo está para nos servir e não nós para servi-lo.

Ele é eterno, nunca vai se apressar, sempre vai estar ali a nossa espera, como aquela manga cheirosa esperando por alguém para apreciá-la.

Nós é que muitas vezes nos perdemos do tempo, tentando ganhá-lo.

Você leva a vida inteira e a vida é curta e coisa e tal.. Se você não aproveita a vida passa e tchau.
Leva a vida mais simples, que a morte é sempre ingrata.. Se acabar ficando quites, é a vida que te mata.

Se eu fiz algo de bom àquela criança, não sei, talvez ela se interesse cada vez mais por cheirar as frutas ou outras coisas que não sejam cocaína e derivados e isso seja bom. Talvez ela reeduque a própria mãe, mostrando como aproveitar os pequenos e felizes momentos como ela me reeducou ao se interessar em fungar uma manga e ver que, de fato, há muito mais ali do que os olhos podem ver, ou do que uma rotina pode esconder.

Só sei que saí do supermercado rindo. Oras, uma coisa tão banal, como não pude estar atento àquilo? Mas ri mesmo por saber que se eu consegui me desvencilhar desse caos que vivemos hoje, o mundo inteiro consegue. Veja bem, esse texto não tem a pretensão de ser inspirador, pelo contrário, desejo a você que leu até aqui muita ralação, dor de cabeça e correria, é isso que nos move pra frente. Como diria Elon Musk: “Se você precisa de palavras inspiradoras, não faça”. Ele tá certo. Ainda assim, que no meio de todas essas batalhas diárias, consigamos encontrar aquilo que realmente nos dá forças pra continuar: As pequenas coisas.

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