A metáfora da gaiola

A gaiola é uma das metáforas mais utilizadas na poesia e na literatura. Talvez por ser uma das melhores analogias, poetas e escritores bem melhores e capazes que eu a utilizaram. Justamente por isso, acabo escrevento constantemente sobre ela. Não por achar que sou bom como eles, mas para superá-los. E também, principalmente, superá-la.

A gaiola é uma prisão e escrever é tentar ser livre.

O pássaro, talvez a analogia mais utilizada para se falar de liberdade, não consegue escapar da gaiola. Ele tenta, de todas as maneiras, encontrar uma forma de escapar das barras que o prendem à realidade na qual se encontra.

A gaiola é uma prisão e escrever é tentar ser livre.

A gaiola se define por suas grades. As grades são sua parte e é seu todo. Etimologicamente, sua história está ligada à palavra latina caveola. Língua oficial da República Romana, e virou, após ser tomada pela Igreja, a língua dos acadêmicos e filósofos europeus medievais.

A gaiola é uma prisão e escrever é tentar ser livre.

Tomás de Aquino nunca escreveu sobre a gaiola, mas escreveu em latim. Escolástico, jamais se considerou um filósofo, a quem chamava de pagãos. Misturando fé cristã e pensamento racional, foi um dos pilares da teologia moderna.

A gaiola é uma prisão e escrever é tentar ser livre.

Teologia, por sua vez, vem do grego, não do latim. Theos significa divindade, e logos, estudo. Logo, o estudo do divino. Nunca fui religioso e sempre considerei a religião uma prisão, apesar de tentar deixar minhas opiniões só pra mim, não por medo de expor o que penso, apenas pra evitar conflitos. Conflitos me assustam e o medo do enfrentamento me enjaula.

A gaiola é uma prisão e escrever é tentar ser livre.

Não sei a origem etimólogica de medo, mas conheço phobos, palavra grega para o medo. Filho de Ares, o deus da guerra, e Afrodite, deusa do amor, era a personificação do medo que os guerreiros sentiam durante a batalha, junto de seu irmão, Deimos.

A gaiola é uma prisão e escrever é tentar ser livre.

Nunca tive grandes fobias. Nunca tive fobia nenhuma, psicologicamente falando. Tenho como medo maior, porém, falhar. Samuel Beckett, escritor bem melhor que eu, disse uma vez: “tente de novo, falhe novamente”. Não sei o quanto essa frase me inspira ou me aterroriza: tenho medo da falha, logo, não tento. E enquanto o medo da falha me impede de seguir em frente, o medo de não tentar me impede de olhar pra trás. Fico sem me mover e escrevo essas palavras parado, sentado, sem imaginar aonde elas possam me levar. Enjaulado. Preso.

A gaiola é uma prisão e eu escrevo pra tentar escapar.