Para as minhas desatenções percebidas.

Sobre a não vida, o que desapercebi e o que não atendi no meu 2018.

Tem muito tempo que não escrevo. Tipo, Escrevo (com maiúscula, sabe?).

Lembro quem em Janeiro de 2016 eu escrevi pela primeira vez sobre o que eu sentia sobre a escrita. Era um texto chamado “Diário de Bordo”. E ele dizia:

DIÁRIO DE BORDO
Tenho percebido que o poder da escrita está nas palavras simples. Dos aprendizados que a mão escreve com leveza, mas com atenção (e intenção). Dos sentimentos transcritos, descritos, escritos — seja os cotidianos ou os que dão nó na cabeça. Por essas e outras, quero manter um logbook — vulgo Diário de Bordo.
A primeira vez que me deparei com o conceito de um Diário de Bordo foi há 4 anos atrás, pelos conselhos de um morador do bairro São Pedro (em Belo Horizonte), o seu José. Ele era ex-professor de geografia, um viajante apaixonado — conhecia Minas Gerais de cabo-à-rabo — , poliglota e vivia a beira de seus 40 e poucos anos. Ele morava nas ruas. O conheci em um sopão comunitário, de distribuição de roupas para quem precisa — evito ao máximo rotular alguém como “morador de rua”, a menos que você também trate o vizinho do prédio acima do José de “morador de prédio”: o que soa igualmente frívolo. Por horas nós ficamos conversando sobre a vida, o universo e tudo mais. E toda a conversa era guiada pelas histórias do caderninho de bolso dele.
Quando conheci o José, ele fez questão de me contar toda a história do seu diário de bordo e a filosofia por trás dele. Queria compartilhar um pouco da imensidão que ele ensinou.
Escrever é aprender sobre si mesmo.
Ou, nas palavras dele:
“Eu escrevo para nunca parar de aprender: sobre mim, sobre o que eu vejo e sobre o que fazer com tudo isso.”
O seu José era um senhor que deixou para trás a vida de professor — aquele que é o centro de atenção e referência para a multidão — para a vida de um cidadão invisível — aquele que você já aprendeu a colocar no ponto cego da vista, quando o encontra na rua. Mas para o seu José, todos nós somos muito visíveis. Visíveis até demais.
É difícil saber tudo o que ele enxergou e o que ele enxergava, na vida nas ruas. Nós ficamos horas conversando sobre a sala de aula, sobre a frieza das pessoas, sobre escolhas, relações, olhares e momentos de crise. Mas a escrita era a forma que ele encontrou para assimilar uma resolução leve para tudo isso.
(…)
Por essas e outras, começo hoje esse logbook.
Um canal de apreciações, desabafos, aprendizados e devaneios sobre a vida, o universo e tudo mais. Sem pretensões estéticas.
É um exercício de atenção. 
Um registro para a vida não passar e eu perceber que ela passou despercebida.
(02 de Janeiro de 2016

Não transcrevi o texto inteiro, para não ficar longo demais. Mas coloquei o abaixo, caso queira lê-lo na íntegra. E aqui vale dizer: é impressionante a capacidade que a minha escrita tem de me esclarecer; mas são raras as vezes que eu realmente acredito que isso teria alguma validade para qualquer outra pessoa. Se esse for o caso, então, me perdoe então(desde já).


“É um exercício de atenção. Um registro para a vida não passar e eu perceber que ela passou despercebida.”

A primeira vez que vi essa frase, de alguma forma escrita em linhas, foi em um trecho do segundo capítulo de Walden, em que dizia:

“Fui para os bosques porque pretendia viver deliberadamente, defrontar-me apenas com os fatos essenciais da vida e ver se não poderia aprender o que ela tinha a me ensinar, em vez de, vindo a morrer, descobrir que não tinha vivido. Não queria viver o que não era vida, tão caro é viver; e tampouco queria praticar a resignação, a menos que fosse absolutamente necessária. Queria viver em profundidade e sugar todo o tutano da vida, viver com tanto vigor e de forma tão espartana que eliminasse tudo o que não fosse vida; encurralá-la num beco sem saída, reduzindo-a a seus elementos mais simples e, se ela se revelasse mesquinha, ora, aí então adentrar-me-ia então em sua total e genuína mesquinharia e proclamaria ao mundo essa mesquinharia; e se fosse sublime, iria saber por experiência própria, e poderia apresentar um relato fiel em minha próxima excursão.”

Walden é um livro que relata a experiência dos dois anos, dois meses e dois dias que Henry David Thoreau viveu apartado da sociedade, à beira do Lago Walden, sob um teto que ele mesmo construíu, suprindo as próprias necessidades através do que podia usufruir da terra que dispunha e dedicando seu tempo à estudar, contemplar a natureza e a conhecer a si mesmo.


… que ela passou despercebida

Esse ano definitivamente não foi um ano que passou despercebido. Mas, diferente de outros anos, foi um ano que, em mim, pareço não ter registrado. O termino sem saber se consegui ter atenção suficiente para colher o que ele tinha para me ensinar. Sinto que, apesar da intensidade do que me vivi, não me atentei.

Termino o ano com muitas pendências. Cancelar o cartão de crédito X, passar no banco Y, buscar a bicicleta na oficina, correr atrás daqueles pepinos do trampo, terminar a tal da fisioterapia — aliás, falta tanta atenção, que por vezes me esqueço que passei 3 dos 12 meses desse ano com a mão direita quebrada; e que talvez a falta de cuidado para cuidar do cuidado dela, cuide de resumir exatamente o que estou cuidando de escrever aqui: “moleque, cuide da tua atenção”.

Por um outro lado, foi um ano que reconheço ter me colocado completamente à serviço. Se, por um lado, não me atentei a mim plenamente: saio dele extremamente feliz por ter ajudado outras pessoas a atentarem sobre si mesmas — e confesso que, apesar de feliz, ainda não consigo ter plena consciência da magnitude desse serviço.

Foi um ano de turmas muito intensas, no Dojô (a escola de autoconhecimento, que fundamos em Belo Horizonte). No processo de atentar as turmas, me atentei. Ou, pelo menos, tentei.

E, só por ter tentado, eu já sou grato por todo ou qualquer desserviço a mim mesmo.


… um exercício de atenção.

Talvez 2018 não fosse um ano para atentar. Apesar de ter me faltado atenção e registro, talvez tenha sido o meu ápice de percepção sobre a magnitude dela — novamente, esse ano definitivamente não passou despercebido.

A Vida nunca teve uma letra tão maiúscula. Se faltou cuidado para atentar, definitivamente não faltou cuidado para perceber. Nunca senti a cena da vida com tamanha sensibilidade e sensatez.

Nunca consegui ser tão fiel ao que era, realmente, essencial. Nunca consegui ser tão cruel ao que era, realmente, artificial.

Aliás, talvez 2018 tenha sido o início do fim do ciclo da minha irresolúvel luta contra o que não me é natural: irresolúvel pois a triste realidade é que, para viver à serviço do que me faz vivo, eu preciso estar constantemente de cara-a-cara com a inaturalidade da mecânica da parte da vida que, há muito, não tem brilho. E isso era algo que eu ainda não tinha percebido — e se você compartilha da rotina de uma vida de cidade grande, no meio de grandes prédios, grandes ruas, grandes políticas, grandes negócios, você bem provavelmente também já deve ter já percebido isso, mesmo que ainda não atentado.

“Não queria viver o que não era vida, tão caro é viver; e tampouco queria praticar a resignação, a menos que fosse absolutamente necessária.”

Por mais natural que a vida seja, por mais viva que seja minha vontade de vivê-la deliberadamente, na mais pura simplicidade que ela merece: a vida ainda reserva uma gigantesca camada de não-vida. E tudo bem: se não fosse pela triste realidade de que a grande maioria das pessoas prefere resignar-se ao que ela não é.

No meio de momentos de felicidade e epifania espartana, dois mil e dezoito foi um ano em que me vi frente-a-frente com uma parte suja da humanidade. À sombra de toda essa alegria, me vi, em diversos momentos, extremamente decepcionado com a minha inabilidade de conseguir perceber ao meu redor, em naturalidade, um digno valor comum de humanidade. Pelo contrário, percebi uma comum habilidade de arredondar a humanidade à um valor artificial: e, de alguma forma, isso realmente se tornar algo realmente natural; como se as regras do jogo tivessem mudando e as pessoas tivessem se rendido, de vez, ao jogo das aparências, das violências, das obediências, das incoerências e das negligências — a distração do que te importa se tornando uma traição daquilo que de fato te é importante.

“encurralar a vida num beco sem saída, reduzindo-a a seus elementos mais simples e, se ela se revelasse mesquinha, ora, aí então adentrar-me-ia então em sua total e genuína mesquinharia e proclamaria ao mundo essa mesquinharia(…)”

De 2019 eu não sei ainda o que quero. Mas pretendo conseguir, dessa vez, não só perceber a não-vida: mas traduzi-la, transcrevê-la, com a sinceridade que ela merece.

Acender a luz e fazer arte de tudo aquilo que assombra e artificia a vida. Sem perder a simplicidade; muito pelo contrário: naturalizar o que não é vida, para que a gente volte a perceber que aquilo que há de mais profundo nela é fácil de se perceber. Apesar de não tão fácil de atender.

A vida se torna natural dependendo do tanto que a gente se coloca à serviço de perceber o que há de mais essencial nela.

Mas, além disso, a naturalidade da vida depende do tanto que a gente se coloca à serviço de atender, em si, a sua essência.

De 2019 eu pretendo, dessa vez, não só perceber a não-vida: mas registrar tudo o que não-desapercebi. E, quem sabe, ao encurralar (em mim) tudo o que ela não a é, eu possa conseguir me atentar: e assim voltar a (re)escrevê-la.


Um registro para a vida não passar e eu perceber que ela passou despercebida.

Essa frase é como um mantra, para mim.

Já a reescrevi de formas diferentes, em diferentes textos, em diferentes momentos da minha vida. Uma vez eu a reescrevi em completas outras palavras, mas com a mesma intenção. E sinto que ela sintetiza o que eu quero me atentar em 2019.

Esse é um ciclo que não sei se vai durar para sempre, se vai dar tempo, se vai dar certo. Mas sinto que preciso investir uma energia em tentar fazer.
Para saber se vale.
Para saber se custa.
Afinal de contas, a vida é sobre isso.
Entre o nascer e morrer:
Sentir o valor do que se faz. 
Sentir a pena do que se fez.
E, no fim, descobrir se valeu a pena.

E é isso.


PS:

texto de [27/12/18], citações de [02/01/16]
Tenho percebido que o poder da escrita está nas palavras simples. Dos aprendizados que a mão escreve com leveza, mas com atenção (e intenção). Dos sentimentos transcritos, descritos, escritos — seja os cotidianos ou os que dão nó na cabeça.
Por essas e outras, (re)começo hoje esse logbook.
Um canal de apreciações, desabafos, aprendizados e devaneios sobre a vida, o universo e tudo mais. Sem pretensões estéticas.
É um exercício de atenção. 
Um registro para a vida não passar e eu perceber que ela passou despercebida.