Das observações e achismo ao preconceito: a vida em comunidade


A vida em comunidade não surgiu ontem, nem hoje. Não é de agora ou do depois, mas de longe, bem de longe. Para parafrasear os Tribalistas: da época em que tudo se esconde. Para descobrir, era necessário se aglomerar, unir-se, somar-se, saindo, assim, para caçar, desbravar, conquistar e continuar a saga natural da vida.

Com o passar dos tempos, nada pertence mais. Não é propriedade, não é particular. Tudo flui, tudo transborda, tudo ecoa e se mistura nesse mundão danado. Por exemplo, um lápis fabricado na China tem materiais de diferentes partes do mundo. Ou, então, uma palavra dita aqui vai ecoar do outro lado do globo.

Isso poderia até pautar sobre globalização. Mas, não. Não é sobre isso que falo. As informações já corriam quando ainda não havia esse tipo de fenômeno. E, aqui o pessoal da comunidade costuma (pelo menos o que aparenta) saber bem disso.

O Sr. Manoel da padaria sabe que a Ana gosta de 4 reais de pães franceses, a quantia perfeita que alimenta seus dois filhos e marido. Os primeiros saem para estudar e só chegam tarde da noite. O último, coitado, sempre trabalha bastante, mas quando Ana sai com as amigas, ele aproveita para sair com a amante, que está grávida do namorado. Sr. Manoel, que está no segundo casamento e já tem certa idade, tem dois filhos que já o abandonaram, mas é obrigado, pela justiça, a pagar pensão alimentícia. Os filhos, que fazem faculdade, um de engenharia e outro de direito, são mulherengos, cervejeiros e curtem uma boa pelada no fim de semana. Mas, um deles já engravidou a filha de Dona Teresinha, que é uma senhora de certa idade, que pariu, de certa forma, tarde e foi deixada pelo marido.

Tudo isso descobri num bom dia que dei à Dona Teresinha, enquanto ela varria a porta de casa, resmungando, como sempre, da vida. E lá ia ela, de xingamento em xingamento, de dedo em dedo, apontando as peripécias da vida de cada um, que fazia questão de tomar parte, ocupando boa parcela do seu tempo desocupado com essa ardilosa tarefa.

Olhar atento e boca afiada

E se alguém ousasse em trazer uma novidade, ela logo se inteirava da situação. O carro novo do Moacir mesmo, que comprou semana passada, mas já está dando problemas é um bom exemplo disso. Ou então a gravidez escondida da Alexsandra, filha dele, que está pensando em abortar.

Dona Teresinha é mesmo daquelas que entende a unicidade de cada momento e o quão ímpar ele é na vida das pessoas. Se cada momento fosse um flash, ela seria uma câmera perfeita, com amplo cartão de memória. Ali não tem Alzheimer certo. E olhe que ela não é de demorar para dar uma resposta não, processa tudo rápido (e que rapidez, diga-se de passagem).

Não sei se ela tem formação acadêmica alguma, até porque aluguei o quartinho dos fundos há pouco tempo. E, é válido lembrar que saiu logo me dizendo: “Você tem cara daqueles meninos mimados, criados com vó. Cara de menino metido e inteligente”. Eu apenas ri, claro. Quem era eu para desafiar ou contrariar Dona Teresinha? Estou fora.

Enfim, creio que pela astúcia dela, deve ter bastante experiência de vida mesmo. E olhe que deve ter passado por maus bocados. Não sei se ela tinha alguma experimentação com a filosofia, mas a arte dela mesmo era a observação. Bem, não sei se observação era o certo para ela. Não tinha paciência para observar, gostava mesmo era de analisar brevemente e inferir. Dizer, rotular, pressupor já afirmando. É daquelas que, como ela mesmo diz, não é de perder fio de meada algum.

Passou, captou, avaliou, registrou. O processo é o mesmo. A velocidade que vai sempre se aprimorando e as técnicas se diferenciando. Ela não está nem aí, nem chegando para conhecer realmente o que se passa. Creio que quando ainda perguntava sobre o quartinho que estava para alugar, àquela época, ela já devia ter pensado trezentas coisas sobre mim, das quais não aparenta esquecer nem mudar a impressão, de forma alguma.

Ela é daquelas que se apaixona ou odeia à primeira vista. Se gostou, gostou. Se não gostou? Dane-se. Quando ela não fala diretamente para você, fala pelos cotovelos ou pelos ouvidos que costuma encontrar nessa jornada.

A impressão que tive é que ela conhece tão bem todo mundo a ponto de não conhecer ninguém. Sabe de tudo que se passa, mas de um jeito tão dela, tão particular, tão unilateral, que pouco se deixa ver o lado verdadeiro. E aquilo se propaga de pouco a pouco e, a essa altura, por exemplo, todo mundo já deve saber que o rapaz do quartinho, um branquelo de meia altura é um tiradinho, que deve ter uma mãe bem desnaturada. Ou então, que a garota que às vezes vai tirar dúvidas comigo é uma drogadinha, cheia de tatuagens, que é bancada por uma família rica que pouco se importa. E ela, totalmente leviana, só quer curtir e torrar a grana dos pais. Estudo? Que nada!

É tudo assim para Dona Teresinha: nem conheceu, mas já vai formando ideia, já vai propagando, já vai espalhando e aos que ela contou já vão contando. E quando viu? Já está tudo formado.

Tenho pena das amigas da filha dela que devem ser intituladas de tudo quanto é nome, menos das características verdadeiras. Ou então das pessoas novas na comunidade, assim como eu, que serão avaliados de um jeito ou de outro. E você que vá falar com Dona Teresinha que ela está se descuidando em fazer isso ou então que não gosta de comentar da vida dos outros, ela dá logo um “chega pra lá” e diz que só foi impressão, o que pareceu ou então que só tá falando o que viu.

E o estranho é que ali esse não era um problema só de Dona Teresinha. O negócio dela era com as pessoas. Um para um. O lado individual. Mas Sr. Manoel, por exemplo, não suportava ver o filho da Dona Alice, que era homoafetivo, que logo gritava “bichinha”. Ou quando os filhos dele viam alguma jovem indo à praia com aquele biquíni da moda, logo ensaiavam os assobios e disparavam “gostosa”. E, até mesmo a filha de Dona Teresinha não se continha ao ver um negro de black, que soltava piada para aparar um pouquinho as pontas.

E o pessoal conversa pouco e sabe pouco um do outro. Só quer saber da aparência mesmo. Será que isso consegue dizer tudo? Será que tudo é observado de forma tão estranha mesmo, a ponto de massacrar as pessoas? De massacrar, por consequência, determinados grupos? Ou eu que estou lendo tudo errado dessa história toda?


“Será que isso consegue dizer tudo? Será que tudo é observado de forma tão estranha mesmo, a ponto de massacrar as pessoas?”

Creio é que já estou ficando doido com isso tudo e que já estou até craque nisso. E olhe que só conheço a comunidade há poucas semanas e até de Dona Teresinha já falei. Será que isso contamina mesmo? E que contagia rápido assim? Vou procurar saber…

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