Beatles e impactos coletivos para resolver os maiores problemas do mundo

Rodrigo Bandeira
Aug 22, 2017 · 8 min read

Os maiores problemas do mundo são as maiores oportunidades de negócios do mundo.

A frase é do Peter Diamandis, mas seu fundamento foi elaborado há mais de 30 anos por Bill Drayton, fundador da Ashoka. Já nos anos 80 ele dizia algo como: nem mesmo uma gigante da indústria como Coca Cola jamais terá uma demanda tão grande para seus produtos quanto têm os empreendedores sociais da Ashoka.

Um desses empreendedores é o bengali Muhammad Yunus, ganhador do Prêmio Nobel da Paz em 2006 e fundador do Grameen Bank e de outras 50 empresas em Bangladesh, a maior parte delas como negócios sociais. Uma delas, a Yunus Negócios Sociais, com escritório no Brasil, oferece apoio técnico e financeiro para empreendedores com modelo disruptivo para solucionar os grandes problemas do mundo.

O poder da sinergia

Este post tem as seguintes premissas:

  • A colaboração é crítica para resolver grandes desafios.
  • Instituições políticas e econômicas que permitem igualdade de condições e estimulam a inovação são pré condição para negócios vicejarem.
  • Democracia, como forma de vida — não apenas como sistema político — permite a coexistência de pontos de vista e visões de mundo diferentes, fomentando a colaboração.
  • O capitalismo é, na verdade, um sistema em constante expansão para aumentar a cooperação entre estranhos (F. A. Hayek)

A seguir conto sobre algumas peças do quebra-cabeças da colaboração entre organizações que venho montando desde que, em 1995, fui picado pela mosca do empreendedorismo social, quando trabalhei no escritório da Ashoka em Washington DC.

Objetivo audacioso

Lançados em 2015, os 17 objetivos e 169 metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável integram, interconectam e equilibram as dimensões econômica, social e ambiental do desenvolvimento sustentável, com foco em erradicação da pobreza em todas as suas formas e dimensões, incluindo a pobreza extrema. Este plano, elaborado pelo PNUD, alinha todas as pessoas trabalhando em todos os países do mundo, com credibilidade e legitimidade. Segundo essas metas, até 2030 (algumas até 2020) teremos conseguido um bocado!

Com base nos resultados da agenda antecessora, a dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (embora haja controvérsias sobre isso), esse conjunto de objetivos extremamente audaciosos deverá ser alcançado, se não no todo, pelo menos em grande parte até 2030.

Agora, imagine que em 2030 poderemos estar vivendo em um planeta sem pobreza ou fome, sem mortes evitáveis, disparidades, discriminação ou violência, onde o trabalho seja sempre decente, onde não haja crimes ou abuso de substâncias tóxicas, onde haja direitos iguais e acesso a tudo que é importante para todos viverem bem, onde o comércio sirva apenas para melhorar o nosso bem estar, o crescimento econômico e a produtividade das economias sejam a regra, vacinas e medicamentos de ponta sejam disponíveis universalmente, não haja poluição e florestas, rios, mares e todas os seres vivos (especialmente os seres humanos) vivam em consonância com o clima, onde haja eficiência do uso dos recursos naturais, proteção a diversidade genética de sementes, plantas e animais, onde o Estado de Direito garanta igualdade de acesso à justiça e onde as parcerias dos setores público, privado e com a sociedade civil eficazes sejam a regra.

Parece a música Imagine dos Beatles? Você ainda acredita que isso é um sonho…?

Vamos lá!

Colaboração e democracia

A colaboração tem sido a prática dominante na história da existência humana, tendo levado à criação de realidades intersubjetivas tais como a família, as cidades, empresas e governos pois cada uma delas é resultado de uma concertação de ideias e ações de um grande número de pessoas em torno de um mesmo ideal.

No livro "Sapiens: Uma Breve História da Humanidade", seu autor, Yuval Harari, confirma isso quando fala sobre a vitória da humanidade sobre as outras espécies por sua capacidade de colaborar em grandes grupos e de forma flexível.

Para esta colaboração produzir resultados é necessário que haja destruição criativa — conceito criado por Joseph Schumpeter, que encoraja inovações que alterem o estado de equilíbrio, tais como: a introdução de novo bem no mercado, a descoberta de novo método de produção ou de comercialização de mercadorias, a conquista de novas fontes de matérias-primas, ou mesmo a alteração da estrutura de mercado vigente, como a quebra de um monopólio, por exemplo. Ele diz que essas inovações acabam por criar mais valor e trabalho, não o contrário.

Para isso é necessário que governos proporcionem um campo de jogo nivelado (level playing field), um conceito de equidade. Não que cada jogador tenha a mesma chance de ter sucesso, mas que todos joguem pelo mesmo conjunto de regras.

Isso inclui mercados livres, democracias plenas, sistemas de freios e contrapesos (checks and balances) entre os poderes, empoderamento de amplos segmentos da sociedade para o exercício da participação social, sistema político pluralista, liberdade de imprensa, incentivos e recompensas à inovação, possibilidade de que todos participem de oportunidades econômicas, respeito a direitos de propriedade intelectual disponível em igualdade de condições a todos, poder político centralizado etc., características comuns a países como Japão, França, Inglaterra, EUA, e Coreia do Sul.

Por outro lado, mercados controlados, monopólios, bloqueios à criatividade e incentivos, ditaduras, concentração de renda, imprensa controlada, falta de acesso a tecnologias (mesmo eletricidade e internet), falta de infraestrutura, serviços públicos ruins (educação, saúde etc.), clientelismo, patrimonialismo, escravidão e leis que fortalecem pequenos grupos, às custas do restante da sociedade, levam apenas à situações como as que se pode observar em países como Zimbábue, Rússia, Venezuela, China, Coreia do Norte, Congo e Serra Leoa.

Esses são os argumentos centrais dos autores de "Porque as Nações Fracassam", obra muito recomendável para entender melhor qual poderia ser uma agenda que fomentasse negócios capazes de resolver os grandes problemas do mundo, e do Brasil.

O que eu vi

Neste sentido, tive importantes aprendizados com os projetos Causas Comuns, Webcidadania Xingu e Mapa dos Sonhos da Vila Pompeia, todos pelo Instituto Cidade Democrática, e que serão tema de outro post.

O mais perto que cheguei disso, no entanto, foi com a iniciativa do Pará Social, que utilizou o Índice de Progresso Social da Amazônia e a abordagem de Collective Impact (Impactos Coletivos ou Parcerias de Impacto Social) para orientar os esforços do governo (eficiência) e da sociedade (sinergia multistakeholder) no longo prazo em torno de metas sociais claramente definidas. Este também, será tema de um próximo post.

O grande achado, contudo foi quando, no processo de procurar construir acordos em torno de agendas claras, e conseguir que grupos de pessoas concordassem em seguir caminho em direção a um mesmo objetivo, aprendi que seria necessário:

  • Criar estratégias de longo prazo com objetivos claros
  • Criar sistemas de indicadores que medissem o progresso em direção aos objetivos da agenda
  • Formular e implementar de sistemas de governança que integrassem governos, empresas e sociedade
  • Elaborar conteúdos para ações de comunicação e engajamento
  • Associar indicadores a recursos disponíveis para o seu aprimoramento
  • Desenvolver tecnologias para obter dados da sociedade sobre temas públicos

De tudo que conheci até agora, a abordagem de Collective Impact foi um presente pois considera como elementos fundamentais para proporcionar impacto significativo por meio de ações sinérgicas, quase todos os pontos acima. Esta abordagem pode ser resumida nos elementos na imagem a seguir:

Elementos fundamentais na abordagem Collective Impact

Repare, no entanto, que duas variáveis ficam fora dessa equação — e isso faz todo sentido. Nada se diz a respeito de como fazer ou sobre os recursos necessários para que cada iniciativa possa conduzir suas ações. O que isso quer dizer é que não precisamos, e não devemos, nos preocupar com a forma como cada organização trabalha dentro de um arranjo de impacto coletivo e, além disso, que cada organização deve buscar os próprios meios para suas atividades, seja por financiamento, doação ou modelos de negócio que parem de pé. Isso garante a autonomia necessária em uma abordagem que se preocupa com a questão da interdependência de organizações atuando em um mesmo tema.

A partir deste modelo, os projetos de que participei tiveram como resultados, além das agendas em si, a influência significativa na elaboração dos planos e orçamentos dos governos, sem quem, como dissemos antes, não é possível criar um ambiente em que vicejem iniciativas capazes de resolver nossos grandes desafios.

O que aprendi nesse processo

  1. O caminho crítico é a ação. Ou seja, que os atores efetivamente realizem suas ações e projetos e monitorem seus resultados utilizando os indicadores. Há uma tendência a (i) não começar, querendo aperfeiçoar o planejamento ou (ii) começar, mas modificar os indicadores e metas. Em ambos os casos há uma perda enorme de sinergia e queda de confiança dos outros atores envolvidos. A ausência de foco nos resultados (outcomes) contribuiu para uma fragmentação das ações por meio de uma miríade de programas dedicados a resolver frações de um mesmo problema, com uma multiplicidade de diferentes visões que criam obstáculos a esforços de medição e avaliação.
  2. Parecido, mas diferente do aprendizado acima, trago também a questão da lógica de gestão com base em investimentos, construída durante décadas. Na narrativa da performance de projetos, especialmente na área pública, ressaltam-se os investimentos e dá-se pouca atenção aos resultados obtidos.
  3. Finalmente, um pouco do conhecimento sobre como promover a colaboração e a sinergia de ações entre diferentes grupos de agentes, está registrado no paper de Universidade de Stanford sobre Collective Impact, onde os pesquisadores estudam o caso de uma notável exceção observada em Cincinnati, quando havia apenas frustração nos esforços heroicos de inúmeros professores, administradores e organizações sem fins lucrativos, juntamente com bilhões de dólares em contribuições de caridade para melhorar as escolas nos EUA. Esta experiência mostra que, para que a mudança social em larga escala acontecesse, foi necessária uma ampla coordenação intersetorial que se deveu a que um grupo central de líderes comunitários decidisse abandonar suas agendas individuais a favor de uma abordagem coletiva para melhorar os resultados dos alunos, que foi coordenar as melhorias em cada estágio da vida de um jovem, desde o berço até a carreira.

Imagina se a moda pega e começamos a abandonar nossas agendas individuais a favor de uma abordagem coletiva? Seria a derrocada do ego organizacional? Como existir em uma dinâmica em que os resultados não podem ser apropriados por organizações específicas e ficam no limbo por terem sido produzidas por uma coalizão sem hierarquia?

Esses são alguns dos desafios (alguns talvez imaginários) com que teremos de nos defrontar se queremos atingir os objetivos ambiciosos a que os ODS nos inspiram (tome um bom fôlego antes de clicar nesse link).

Como disse antes, parece mesmo com o que os Beatles quiseram dizer com sua canção Imagine. Você pode dizer que eu sou um sonhador, mas já não sou o único. Tem um montão de gente organizando seus esforços em torno dos ODS e espero que você se junte a nós, se é que já não está entre nós.

Será que vale a pena? Ponha na balança, faça suas contas e bom trabalho!

Este post é inspirado na minha fala com empreendedores sociais durante a Virada Sustentável (Vire sua Cidade), dia 26 de agosto, em frente ao Impact Hub e ao Civi-co, na Vila Madalena.

)

Rodrigo Bandeira

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