Minha experiência como empreendedor

O mundo é cada vez mais de quem cria o próprio trabalho, e há cada vez menos espaço para quem busca vagas de trabalho já existentes.
Nos próximos 10 ou 15 anos, as novas tecnologias e as mudanças que ensejam causarão um strike devastando até 35% do universo de carreiras e postos de trabalho. Um remédio para isso é o caminho do empreendedorismo, opção que tem ganhado espaço entre os novos entrantes do mercado de trabalho, especialmente substituindo vagas que já deixaram de existir.
Para entender a força desta mudança, basta imaginar a convergência tecnológica de computadores, redes, sensores, inteligência artificial, robótica, fabricação digital, impressão em 3D, biologia sintética, computação cognitiva etc. que levará a que computadores cada vez mais rápidos criem computadores ainda mais rápidos, a Curva de Kurzweil. Atualmente, todos estamos ligados o tempo todo e utilizando ferramentas que só estavam disponíveis para governos e grandes empresas há algumas décadas, e ainda não vimos 1% das mudanças que ocorrerão na próxima década, que deve acontecer a uma taxa maior do que a da Lei de Moore (dobro de capacidade e metade do preço a cada 12 a 18 meses).
Pois bem, foi com a vontade de empreender e começando a ver alguns parcos avanços tecnológicos que, em 1989, entrei na faculdade de administração de empresas. Desde o ginásio quando, com outros dois amigos, participei de um empreendimento que fazia pôsteres dos nossos ídolos do rock preferidos, adorei a liberdade de poder fazer o que queria e quis que esse fosse meu caminho. No entanto, não foi dessa vez. Nossa empresa dependia do pai de um de nós, dono de uma indústria de brinquedos, para produzir de fato os tais pôsteres que venderíamos. Mas tive minha experiência como empreendedor, gostei e segui em frente.
Ao longo desta trajetória, faltou-me humildade e sobrou ousadia. Na faculdade — que futuramente desenvolveu um projeto para-acadêmico chamado ‘Baixa a Bola’, mas nunca logrou que os alunos baixassem a crista — aprendi, e levei algum tempo para desaprender, que a arrogância era uma qualidade a ser desenvolvida. Ser confiante demais me fez quebrar a cara e nada melhor do que isso para aprender. Em cada uma dessas ocasiões mudei o curso, mas, mais importante, tive clareza sobre para que eu trabalhava, ou seja, qual o propósito que me guiava.
Com a possibilidade que a internet trouxe de dar poder ao indivíduo, minha principal motivação como profissional sempre foi dar condições para que cada um pudesse expressar sua máxima vocação. Fiz isso em uma editora de livros, criando um modelo de negócios que permitia dar acesso a quem não podia comprar livros até então. Fiz isso em uma ONG, amplificando a voz do cidadão comum para fazer valer seus desejos. E continuo fazendo isso como consultor, melhorando a eficiência de governos e organizações não governamentais e fortalecendo redes de micro e pequenos empreendedores.
Sei que posso ser criativo e utilizar essa característica bem como a experiência adquirida em desenvolver negócios para sustentar processos criativos e inovadores e, com essas cartas na mão, me lancei nas experiências que relato aqui.
Nesse post conto sobre meus três empreendimentos, seus resultados e aprendizados. Vamos aos fatos!
Editora
Em 1997, voltando de um sabático (que eu ainda não sabia que tinha esse nome) em Nova Iorque, aceitei o desafio de criar e dirigir a Seed Editorial, empresa familiar do ramo editorial, depois rebatizada de A Fantástica Fábrica de Livros.
A parte o fato de termos editado e produzido 92 livros infantis, que venderam mais de três milhões de exemplares, a operação não era lucrativa e mudanças no mercado e na via de distribuição porta a porta nos levaram a fechar a operação cinco anos depois.
O que fez meus olhos brilharem foi a possibilidade de, tendo modelo de negócio arrojado, custos baixos e canal de distribuição alternativo, vender livros para uma parte dos 92% da população brasileira que, segundo pesquisa da Retratos da Leitura no Brasil de 2000–2001 (CBL), não tinham acesso ao mercado de livros e só liam o que podiam emprestar em bibliotecas ou recebiam nas escolas.
O que deu errado?
1O governo federal, por meio de seus programas de distribuição de livros para as escolas, ampliou muito a compra de livros, a preços baixos pelo grande volume, inundando o mercado com livros distribuídos gratuitamente para quem não podia comprar. Ou seja, o que poderia ter sido um nicho de mercado, foi se transformando em uma política pública para doar livros com dinheiro de impostos.
2Os distribuidores estavam bem organizados e dividiam as regiões do país entre eles. Ou seja, se não vendesse para um deles, não vendia naquela região do Brasil. E, porque havia mais editoras do que distribuidores e, como consequência da abertura do mercado promovida pouco antes pelo governo Collor, livros de menor qualidade editorial entravam no país a preços baixos e os distribuidores negociavam duro para comprar por menos, comprimindo ainda mais nossa possibilidade de lucro.
3Como tínhamos experiência com este mercado pelo lado do escritor, profissão do meu pai, pensamos:
“Se um escritor recebe apenas 5% de direitos autorais, vamos nos tornar editores e ficar com 100%!”
Esse pensamento não parava de pé por um simples motivo: sendo escritor, você não tem risco nenhum. Já como editor, os custos são todos seus e o produto pode ficar no armazém indefinidamente se não tiver uma boa solução de mercado.
4Além disso, eu não era do ramo e a empresa familiar estava organizada de forma que as reuniões em que as decisões que deveriam ser tomadas com base em evidências, eram marcadas pela emoção das relações fraternas.
Foi bom enquanto durou. Conheci um pouco mais do Brasil e vi com meus próprios olhos como este mercado, com sua aura de romantismo, deve ser abordado com pragmatismo. Ainda hoje encontro nossos livros em bibliotecas, escolas e sebos pelo Brasil. Agradeço aos meus familiares pela oportunidade e a confiança e aos clientes e fornecedores pela parceria.
Cidade Democrática
Em 2008, tive o meu momento ahá! durante uma palestra do Steven Johnson, quando percebi a oportunidade de melhorar a qualidade da comunicação entre políticos e sociedade na esteira da web 2.0. Primeiro procurei oferecer isso como um produto comercial para possíveis parceiros, mas depois percebi que, se quisesse, eu mesmo teria que arregaçar as mangas e fazer. Foi assim que empreendi o Cidade Democrática.
Começamos com um site, cuja primeira versão beta permitia que qualquer pessoa identificasse uma questão (problema ou proposta), associando a temas e territórios, e que depois ensejou a instituição de uma associação sem fins lucrativos, o Instituto Seva, mais tarde renomeado em função do projeto principal como Instituto Cidade Democrática, que completa nove anos em novembro abrindo fronteiras no campo do engajamento cidadão.
Fomos pioneiros na utilização da Internet para engajar cidadãos, criamos uma tecnologia social reconhecida pela Fundação Banco do Brasil e pela FINEP, realizamos 14 concursos de ideias em São Paulo e no Pará, criamos quatro agendas temáticas ou regionais, fizemos um perfil do ecossistema de engajamento cidadão no Brasil, identificando 600 iniciativas que beneficiavam 380 mil pessoas com orçamento de R$ 86 milhões, criamos a primeira ontologia para participação social favorecendo a integração de bancos de dados e a criação de uma inteligência coletiva nesse domínio, movimentamos R$ 4 milhões em recursos financeiros e fomos reconhecidos pela FINEP (3º lugar com a tecnologia de inovação aberta em políticas públicas), Catraca Livre (finalista Prêmio Cidadão Sustentável) e Deutsche Welle (nomeação como melhor inovação).
O que foi fundamental para me apaixonar pela ideia e ter certeza de que eu tinha que fundar essa nova iniciativa — para além da questão da participação social na política — , foi a possibilidade de dar mais poder às pessoas. No Cidade fiz isso no campo da política, até porque meu mestrado foi em administração pública, o que ajudou a vislumbrar como a internet e a ciência de dados mudariam completamente a forma como o cidadão diz como deseja que seus impostos sejam gastos. Pensamos:
“O político não precisará mais tentar adivinhar a vontade dos cidadãos com pesquisas. Ele vai simplesmente comprar nosso relatório, ler os dados e dizer: ‘Puxa, esse grupo de pessoas quer isso nesse lugar, então vou procurar atender essa demanda.’, e, sendo melhor avaliado, seria reeleito.”
O que aprendi com o Cidade?
1No processo de procurar parceiros para o projeto que estava nascendo, conheci a presidente do Movimento Voto Consciente que sugeriu uma conversa com o Henrique. Um dia, depois de termos tido alguns encontros e conversas, no começo de 2009 sentamos pra tomar uma cerveja em um bar próximo da avenida Pompeia e ele me disse:
“Cara, para mim faz muito sentido trabalhar com vocês no Cidade”
Eu não pensei dois segundos antes de topar. Como diz Nancy Lublin do Crisis Text Line, trabalhe com pessoas que são apaixonadas por aquilo que você faz, não por você. Sem uma pessoa como o Henrique, com quem pude compartilhar decisões e trabalho, esse caminho teria sido muito mais difícil e tortuoso.
2Quando fomos registrar o domínio, tivemos algumas conversas sobre o que significaria criar uma .com e pensamos:
“Ninguém nunca vai querer compartilhar informações conosco sabendo que futuramente isso poderá ser vendido”.
Então escolhemos criar uma .org, que daria maior segurança de que os dados não seriam vendidos para um partido político, por exemplo. Adotamos esse caminho para o bem e para o mal. Pelo lado bom acredito, imodestamente, que somos uma referência quanto a uma atuação ética nesse campo, quem sabe inspirando formas de autorregulação. Isso também nos abriu portas na academia e com parceiros militantes das causas de dados abertos e software livre e movimentos de defesa de direitos. Por outro lado, fomos pouco a pouco perdendo espaço para iniciativas novas, que chegavam com muito gás e um discurso atualizado a partir dos aprendizados que sempre procuramos comunicar de forma transparente, como o Nossas Cidades, ou para iniciativas com modelos de negócio que incluíam a venda de dados e software proprietário, como o Colab. Foi uma escolha que nos levou para o lugar onde estamos agora, e de onde podemos contribuir com reflexões consistentes e soluções sofisticadas e poderosas, como é o caso do Empurrando Juntos. Desejo que possa haver espaço para ambos os modelos: o das .org, como nós, e o das .com., hoje dominante nos empreendimentos que têm triunfado nas mídias sociais.
3Pivotamos duas vezes o modelo de negócio. Começamos com o site, onde esperávamos conseguir dois milhões de usuários ativos, passamos para os concursos de ideias, baseado no modelo da Open Ideo, e que oferecia um produto a ser contratado por quem desejasse construir uma agenda local e, nesse momento, estamos mudando para uma nova tecnologia, baseada no software Pol.is. Em todos os casos, o uso de dados é parte do modelo de negócio, ou seja, conseguir dados sobre o que as pessoas querem para sua cidade ou bairro, trabalhar esses dados e entregar um relatório com sugestões de estratégias. Onde está nosso gargalo? Em cidadãos atuantes e com boas propostas. Como dizíamos antes da mudança para os concursos de ideias:
“O plano correu bem. Só faltaram dois milhões de usuários na plataforma…”
4Estou entre aqueles que acreditam que a colaboratividade está na essência do ser humano. Não fosse a disposição dos seres humanos em criar coisas juntos, como dizem Humberto Maturana, Clay Shirky e Stephen Johnson, não haveria cidades, mercados, famílias, empresas e países e a quase totalidade das histórias (realidades intersubjetivas) que nos permitem colaborar de forma flexível em grandes grupos, como Yuval Harari conta em seu recente livro Sapiens — Uma breve história da humanidade. Contudo, nosso sistema de incentivos confunde essa pulsão e, da mesma forma que em qualquer mercado competitivo, no terceiro setor a colaboração está muito longe de ser prática predominante. As organizações precisam competir pelos recursos existentes e, para isso, trabalham isoladamente cada uma em seu quadrado, lançando por terra a possibilidade dos ganhos de sinergia que poderiam existir caso trabalhassem de outra forma, a meu ver uma necessidade absoluta quando se fala em impacto social. Nossa busca por operações conjuntas, protocolos e agendas comuns tem sido uma constante nesses anos, mas a percepção é de que vivemos uma realidade de universo em expansão, com cada qual cuidando de conseguir diferenciar-se e destacar-se no cenário das fundações e financiadores. Já nos últimos dois ou três anos, temos vivido uma grande contração, com muitas iniciativas fechando as portas. Uma pena e uma perda para o cidadão que precisa ser ouvido e o político que deseja governar melhor.
5Formar uma boa equipe institucional é essencial e um grande desafio. Com as restrições dos recursos que chegam associados a execução de planos de trabalho, sem considerar os custos necessários para contratar e treinar, além dos custos associados às contratações por CLT, quando era o caso, o cobertor foi curto com uma equipe dedicada aos projetos e apenas duas ou três pessoas na área institucional, incluindo eu mesmo.
6Nossa cultura organizacional requer capacidade de auto gestão, trabalho à distância e compartilhamento de decisões. O benefício de construir junto é enorme, embora venha acompanhado de um tempo maior para se decidir, ou em momentos que requerem mudança de rota. Nossas maiores conquistas para gerenciar a equipe, que chegou a oito pessoas, foram a elaboração de planos de trabalho individuais, um plano de carreira prevendo aumento da remuneração por tempo de casa, formação adicional ou responsabilidades legais assumidas e as reuniões peripatéticas, que, à moda do que fazia Aristóteles com seus alunos, permitia que deliberássemos sobre os assuntos em pauta no caminho a pé entre minha casa e o nosso escritório, quando passava para encontrar o Henrique na descida da rua Barão do Bananal, na Vila Pompeia.
7Ainda sobre equipe, sempre fomos orientados com um sentido de propósito e, para isso, ter uma missão, visão, componentes estratégicos e KPIs claros foi fundamental. Ao longo da nossa jornada, tivemos um plano estratégico inicial e duas atualizações, em 2013 e 2016. Isso nos ajuda todos os dias a manter o foco no que é importante.
8Uma boa parte dos recursos necessários para nossa operação veio de amigos e familiares, além de mim mesmo, chegando a R$ 1,7 milhão. Quase nada deste recurso voltou para quem investiu. Foram doações em nome da causa e em confiança no time e na minha condução como diretor da organização. Mas nossa história, como não poderia deixar de ser, está muito relacionada aos parceiros que tivemos ao longo do caminho, uma vez que foram eles que aportaram a maior parte dos recursos na organização. Após alguns anos de investimento pessoal e um ou outro recurso conseguido por meio de pequenas prestações de serviços pelo Instituto, notadamente com Avina e Fundação Prefeito Faria Lima, em 2012, tivemos o primeiro grande aporte, da Omidyar Network, organização que investe em negócios na área de tecnologia que tenham impacto positivo na vida das pessoas, entre outras estratégias, por meio do engajamento cidadão. A doação tinha um componente de matching funds, ou seja, uma parte dos recursos dependia de que tivéssemos outras receitas. Felizmente, no começo de 2013, com a intermediação do Governo Federal, fomos contratados pela Norte Energia para elaborar uma agenda de desenvolvimento para a região de influência da usina de Belo Monte, o que nos rendeu nosso maior contrato até hoje e ajudou a destravar os recursos condicionados da Omidyar. Um ano depois foi a vez da IBM que, além de nos ajudar com recursos financeiros e indicação de parceiros, nos ofereceu o que chamam de service grants, disponibilizando seus consultores para nos ajudarem com planejamento estratégico, technology roadmap e plano de negócio. Por fim, em 2015, a Open Society Foundations juntou-se a esse seleto grupo e apoiou um projeto que seria o crème de la crème de tudo o que tínhamos aprendido até aquela época. Além desses, captamos via crowdfundig e tivemos outros parceiros como BrazilFoundation, BVSA, Instituto Betty e Jacob Lafer, Prefeitura de São Paulo, Prefeitura de Várzea Paulista e Escola AHÁ, entre outros que nos ajudaram a chegar em R$ 2,2 milhões de captação como doações ou prestação de serviços. Sem esses recursos captados de fora do nosso círculo íntimo nada teria sido possível e nossas conquistas andaram pari passu com o que essas doações permitiram. Sou eternamente agradecido a todos os que acreditaram e ainda acreditam em nosso trabalho e que têm nos acompanhado nessa caminhada.
Depois desses quase nove anos atuando na área de engajamento cidadão, fico com a percepção de que ainda não encontramos o caminho para a inovação que a Internet permite e o mundo político pede. Como diz Peter Diamandis em seus célebres 6 Ds, qualquer informação que possa ser digitalizada, ou transformada em zeros e uns e lida por computadores, para que possa desmaterializar, desmonetizar e democratizar o acesso, passa por um período de inovação enganosa (deceptive) antes de ser disruptiva. Na minha visão, ainda não chegamos na fase disruptiva.
Aprendi muitíssimo com essa experiência e, neste momento, faço o movimento de passar o bastão para que meus colegas, com mais ânimo e amor à causa, possam seguir em frente a partir do reposicionamento e da pivotagem para a nova solução tecnológica do Empurrando Juntos.
O que teria feito diferente?
Bom, teria feito muita coisa diferente, mas vou destacar os seguintes pontos:
1Teria mantido o foco no número de usuários no site de forma obstinada. Esse é o indicador chave para a mudança que queremos fazer e nada poderia ser mais importante do que saber, em base diária, quantos usuários ativos estavam na plataforma.
2Teria feito investimentos em tecnologia por meio de equipe própria. Fizemos investimentos enormes, para o nosso porte, mas a manutenção e mesmo aprimoramentos solicitados pela nossa base de usuários sempre sofreram por não termos uma equipe interna para fazer isso. Sendo uma organização intensiva em tecnologia, precisaríamos ter tido uma equipe interna de desenvolvedores.
3Teria me preocupado em oferecer recompensas alternativas para os participantes, já que a adesão dos políticos por meio da realização de investimentos, direcionamento de gastos públicos ou criação de leis avança com tantos obstáculos de diversas naturezas.
4A paixão é importante, mas não pode cegar, como diz Steve Spinner do RevUp. Desde o começo, ouvi de muitas pessoas que isso não daria certo por vários motivos. Alguns deles estavam corretos e outros não. Teria sempre tido como base de decisão números que ajudassem a identificar o que está dando errado e como podemos melhorar a operação. Por mais apaixonada que uma pessoa seja, ter bons números para basear-se na hora de tomar decisões é absolutamente fundamental.
Enzima
Exatamente um ano antes da fundação do Instituto Cidade Democrática e logo após seis anos entre um mestrado e cargos de confiança na área pública, com passagens por uma aceleradora de negócios sociais e uma fundação empresarial, no final de 2007 fundei a Enzima Consultoria com a missão de acelerar transformações para o benefício público. Desde então, essa tem sido minha principal fonte de renda, inclusive no período em que fiquei sem remuneração pelo Cidade Democrática.
Na bioquímica, as enzimas são catalisadoras e achei que o nome era bom se o desejo era de promover a articulação entre os objetivos e as ações dos setores privado, público e cidadão para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, hoje atualizados na forma dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
O fundamental, na perspectiva do que eu faço bem, gosto de fazer, as pessoas precisam e estão dispostas a pagar, continua sendo a possibilidade de conferir poder para as pessoas, no sentido de abrir possibilidades.
O momento que vivemos no Brasil, com os entes públicos fragilizados e governos sem dinheiro, pedir que governos invistam bem os recursos dos tributos, ainda que necessário, não é promissor para a criação de valor pela escassez de recursos na esfera pública, tanto para investir quanto para contratar. Empresas, por sua vez, têm surgido com força como sendo capazes de promover mudanças, criar valor e melhorar a vida das pessoas.
Neste momento, concentro minhas energias criativas para fomentar o empreendedorismo com a visão de ampliar as possibilidades ou empoderar — se não tiver problema com palavras na moda — pessoas que escolhem criar valor através de empresas, oferecendo consultoria especializada para micro, pequenos e médios negócios e também para empreendedores individuais com foco em fortalecer uma rede que possibilite que esses empreendimentos e empreendedores se conectem, conheçam suas competências, vocações e atributos e permutem isso no nível local.
Para dar um exemplo: uma empresa que tem um restaurante pode oferecer um espaço para fazer reuniões ou lançamentos de produtos, quando não está servindo refeições. Uma empresa de arquitetura pode ajudar negócios do bairro a melhorarem seus imóveis. Que essas pessoas possam estar em contato, apoiando-se mutuamente e aprendendo umas com as outras, inclusive por meio de workshops oferecidos peer-to-peer, é como vejo minha contribuição para o ecossistema de negócios aqui na Vila Ipojuca onde moro ou em qualquer outra parte.
Pensando um pouco maior, a convivência e a interação promovem oportunidades de criação de agendas comuns agregadoras, no formato do Collective Impact, conceito que inclui objetivos e indicadores comuns, ações que se complementam (sinergia), comunicação constante e uma estrutura backbone encarregada de tocar o bumbo, lembrando a todo o tempo:
“#Tamojunto!”
Como disse F. A. Hayek, a maior questão com o capitalismo é que este nome foi dado por seus inimigos, pois o capital é apenas um subproduto. O capitalismo é, na verdade, um sistema em constante expansão para aumentar a cooperação entre estranhos.
Este trabalho tem base nas seguintes premissas:
1 Convivência e interação têm promovido oportunidades de criação de agendas comuns (conceito de Collective Impact) entre estranhos e o aumento da criação de valor.
2 A hiperconectividade dos tempos atuais permite uma explosão de produtividade em locais e circunstâncias em que a cooperação seja reforçada por esta conectividade ampliando o nível de confiança entre as pessoas.
3 O avanço no progresso humano é função de como lidamos com estranhos. Trust index.
Para isso, percebi ser necessário mudar o modelo mental de uma lógica de escassez e competição para outra de abundância e colaboração e tenho trabalhado com dois grupos de empreendedores, oferecendo recursos para aprimorarem seus negócios e fortalecer suas comunidades, como a metodologia de scorecards, utilizada por Dan Sullivan, no seu Strategic Coach, com resultados interessantes.
O que tenho aprendido na Enzima?
1 A empresa sempre foi comandada apenas por mim. Assim, sem desafios de governança, sigo manobrando o barco a partir da minha vontade, balizada por boas conversas com amigos e parceiros de trabalho.
2 Com meu background, trabalhar como consultor, participando de projetos de acordo com a necessidade e vinculando pagamentos a entregas, tem funcionado bem para ambos os lados, além de poder trabalhar em parceria com outras consultorias, ampliando o campo de atuação e trabalhando com uma equipe que eu jamais poderia contratar. Nesse período, foram especialmente gratificantes os trabalhos com o Instituto Publix, Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia — o Imazon, Fundo Vale, Governo do Pará, Reserva da Biosfera da Mata Atlântica, Ashoka, Infraero, Fundação Telefonica, Fundação para o Desenvolvimento da Educação, Prefeitura de São Paulo e Fundação Itesp.
3 Ainda que nosso cipoal de leis exija atenção redobrada para saltar de um modelo para outro, o formato de uma empresa de consultoria optante do Simples é bom o suficiente para exigir pouco esforço na administração do dia a dia.
Quanto à ideia que me motiva atualmente de empreender em comunidade ou mesmo de fomentar comunidades de empreendedores e profissionais que se inter apoiem, empreendendo em rede, ainda não tenho certeza se quero isso para mim ou se prefiro oferecer como produto para que outros possam beneficiar-se. Atualmente tenho preferido ficar com ambos: para mim e para os outros.
Quanto a mim, já escolhi um pequeno grupo, que não chega a dez pessoas, com quem desejo estar próximo. É claro que novas pessoas sempre podem surgir, mas as que já escolhi para fazerem parte do meu dia a dia profissional sabem disso e com elas tenho me encontrado ou trocado ideias e mensagens sobre os assuntos que nos interessam, o que tem sido produtivo e promissor, além de um prazer. Quanto a oferecer aos outros, tem tido bons resultados o trabalho com os grupos de empreendedores da Vila Ipojuca, sobre o que falarei mais em outro post.
Esta é minha ocupação principal hoje e tem me oferecido ótimas oportunidades para aprender, impactar positivamente a vida das pessoas e ganhar dinheiro.
Fico feliz se tiver aproveitado a leitura e já digo para quem não sabe, que sou particularmente inclinado a aceitar convites para conversas que possam resultar no fortalecimento do ecossistema de negócios, especialmente aqueles que produzem valor e resultados.
