Roda e gira.

Eu não vi um fundo, eu ouvi um fundo. Um som de fundo.
Não qualquer som, mas um som cantado. Imaginei que quem cantava também dançava, mas não havia um corpo para imaginar dançando. E tava calor demais para isso, era sempre calor demais. Em meu quarto mal soprava vento. Quem dera o vento pudesse entrar e dançar, mesmo que invisível para mim. O canto cessou e eu adormeci.
Eu não vi um fundo, eu ouvi um fundo. Um som de fundo.
Novamente, um som cantado. Não cantado alto e no centro, mas cantado baixo e de canto. Como recanto, conforto, escape. O canto não cessou, eu não adormeci. Procurei um corpo dançante, mas não encontrei. Procurei pelo vento com meu rosto rente à fresta na janela do quarto, mas ele não soprou. Eu não adormeci, mas depois adormeci. Logo eu acordei, mas o canto não cessou.
Eu não vi um fundo, eu ouvi um fundo. Um som de fundo.
Não dei um passo: nem para frente, nem para trás. Eu rodei, girei e girei no mesmo lugar em que me encontrava. O canto cresceu e se expandiu. As tranças das sandálias já não apertavam os meus pés. Na verdade, eu sequer sentia os meus pés. Eu não só ouvia como agora também cantava o canto.
Eu não vi um fundo, eu cantei um fundo. Cantei um som de fundo bem na minha frente.
O vento que eu tanto procurava dançou em meu rosto e se fez visível nos fios do meu cabelo. Eu tanto ouvia e não entendia. Eu tanto pedia e não recebia. Eu tanto procurava e não achava. O corpo que eu queria ver dançar era o meu. O meu que havia parado, estagnado, fixado. Eu queria vê-lo solto, dançante, ritmado.
Enxerguei fios e nós. Ouvi vozes e nós.
Eu gritava e cantava. No canto era eu, só havia eu.
No canto de canto o meu eu procurava por mim.
Eu me encontrei e abri a boca, fui falar e não saia a voz eu não conseguia eu tentava e foi… Foi quando senti o seu toque percorrer minha coluna. Senti o cheiro do incenso velho que queimava sem parar, abri os meus olhos e ouvi você dizer: “Bom dia, meu bem. Vamos tomar um café?”.
