Manobras da vida profissional.

Final do X Games no Rio. Mineirinho tinha feito uma volta ótima e Bob Burnquist tinha errado. Na ultima rodada, Mineirinho tenta uma manobra arriscada e cai. Burnquist faz um 900 e vence. Logo depois, uma repórter veio entrevistar o campeão sobre o feito histórico. Ele apenas diz: “Nas duas primeiras voltas eu estava levando a sério. Depois eu lembrei de me divertir.”.

Reportagem com Usain Bolt. Ele fala que em sua primeira eliminatória. A pressão da torcida jamaicana era enorme e seu tempo foi péssimo. Depois, ele entrou no clima, começou a brincar com a torcida, virou mais um animador que um corredor. Na zoeira, nascia um mito.

Corta a cena. Final de década de 90 na minúscula Piraí. Uma menina, antes de completar o segundo grau, passa em medicina. Família feliz e alegre. Até que o pai dessa garota fala: “você vai passar a maior parte do tempo no trabalho. Vai conviver mais com pessoas que não conhece do que com sua família. Então você precisa fazer o que gosta ou vai enlouquecer.”.

Segui os conselhos do meu pai. Faço o que gosto, sou redatora publicitária. Sou feliz, mas não ganhei Cannes antes dos 30. Até fiz algumas campanhas ótimas, mas nada que entrasse para a cultura popular.

Hoje, sou bem resolvida. Mas houve momentos em que realmente questionei se havia feito a escolha certa. Desemprego, baixos salários, panelinhas, instabilidade. Por outro lado, via meus amigos médicos cada vez mais bem estabelecidos. E depois de tanto tempo, como mudar de profissão? O que eu sei fazer bem? A única resposta possível era: criar, escrever e viver a vida de agência. Decidi não mudar.

Eu reconheço que seria uma péssima médica. Não tenho habilidade com nada que venha da área da saúde. Talvez a única similaridade com os médicos seria a delicadeza (#SQN) para dar uma notícia grave: - Doutora, ele vai morrer? - Vai sim, isso é até bom porque está faltando leito. Menos um para encher o saco.

Sei das minhas deficiências e das minhas aptidões. Talvez não seja a melhor redatora do planeta, talvez eu nunca consiga chegar a um alto patamar nem ser milionária. Mas eu reconheço, aceito, tento me superar para chegar onde não posso e estou ciente disso.

E é isso que me incomoda nos textos que dizem: largue tudo e seja feliz. Ninguém diz que vai ter horas que haverá questionamento. Que você vai se achar um merda. Que, provavelmente, não será rico, famoso ou o empreendedor de sucesso da capa de revista. Mas que se você for feliz assim, tudo bem. Tudo bem mesmo. Sua consciência vai estar tranquila e ir trabalhar não vai ser sinônimo de ir para a prisão.

Viver do que se gosta exige riscos e planejamento. Não dá para largar tudo sem responsabilidade. Ainda mais se você contas para pagar e ninguém para financiar. Você vai precisar saber o que realmente gosta de fazer. Não dá para dizer que ama gastronomia de manhã e que montar um comércio é legal de tarde. Fazer o que se ama não é o caminho mais fácil. É o mais difícil. Mas o prazer está justamente aí.

Eu optei por isso e hoje sei dos riscos. Faria uma escolha diferente, mesmo com todos os revés? Não. Definitivamente, não. Você leva alguns tombos. Mas quem disse que eu não pode fazer um 900?

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