Sono


- Esse emprego tá me matando. Já fazem uns sete meses que não vejo as meninas, saudade foda cara.

-É…ser caminhoneiro costumava ser mais fácil, todos que passam aqui pelo posto reclamam da correria de agora.

- Mal dá pra dormir, meu descanso se resume a pequenos cochilos, isso quando estou adiantado, que cê sabe que são poucas vezes.

- Porra Jaílson, que perigo! E se tu cair no sono enquanto tá no volante?

- Nada, to tomando essa parada aqui, me deixa mais ligado que arrebite. — tirou do bolso um pequeno frasco com algumas pílulas e botou no balcão.

O senhor do outro lado do caixa pegou o frasco, aproximou o objeto e ajeitou os óculos para que pudesse ler a pequena etiqueta.

- Modafinil…esse não é aquele proibido?

- É tranquilo de arranjar na Bolívia. Tem me ajudado quando os prazos tão apertados. Você que é sortudo com esse teu lance de insônia, é uma parada boa de ter quando se é caminhoneiro.

- O caralho, também tenho o meu veneninho, derruba até elefante. — Falou, enquanto retornava o frasco para a mármore suja.

- Pode crer, a patroa tá com uma falta de sono foda também, tem como me passar o nome desse que tu ta tomando?

- Claro, deixa só eu pegar lá na dispensa. — O velho deu as costas e foi caminhando lentamente para a porta ao lado da antiga máquina de café.

Jaílson continuou a tomar o seu pingado, o sabor era horrível e o lugar estava caindo aos pedaços, mas a amizade de longa data com o dono sempre o levava a desviar um pouco de sua rota para bater um papo com o colega. Enquanto esperava o velho retornar, tirou da carteira a antiga foto que guardava: Suas esposa de mãos dadas com as duas filhas, lindas, a razão de tanta ralação, olhar aquela imagem fazia tudo valer a pena, acariciou a fotografia como se pudesse sentir suas peles macias.

- Aqui — Alberto estendeu a mão dando o recipiente cilindrico para o caminhoneiro — Noctal, esse é dos bons.

O caminhoneiro pegou o frasco e botou ao lado do outro, puxou um antigo caderninho de bolso e uma caneta.

- N-o-c-t-a-l, Noctal. Pronto, anotado.

E a conversa seguiu por mais de hora, ambos riam, zombavam um do outro, as vezes Jaílson se perguntava se ficava mais tempo com Alberto do que com sua própria mulher.

- O papo tá bom mas tá ficando tarde, vou fechar o postor, quer dormir lá atrás? Tenho um sofá bacana sobrando.

- Nada, tenho que entregar a carga amanhã de manhã no porto. Acho que vou ficar rodando a noite inteira.

Jaílson tirou dez reais da carteira e entregou ao amigo.

- Se cuida cara, semana que vem apareço de novo pra te lembrar o quão velho estamos.

Alberto abriu um grande sorriso, mostrando os poucos dentes que lhe sobravam, e apertou a mão estendida do parceiro.

- Fica tranquilo que daqui só saio num saco preto.

Jaílson riu, pegou o potinho de pílulas da bancada, botou no bolso e saiu pela porta do estabelecimento.

A névoa que encobria a estrada deixava a noite mais perigosa do que já era normalmente, o caminhoneiro, mesmo com o farol alto, só conseguia enxergar uns 5 metros à sua frente. No rádio tocava o sertanejo de sempre. A foto que estava na carteira agora se localizava no painel do caminhão, de um jeito que suas “meninas”, como gostava de chamar, estivessem sempre à vista. Em meio aos seus pensamentos e a cantoria de João Paulo e Daniel, o sono começou a bater, Jaílson sem pestanejar pegou o remédio do bolso e jogou um pra dentro da boca, catou uma garrafa de água que já estava quente e deu uma golada para ajudar a descer, ele sempre se engasgava com a pílula, mas dessa vez desceu tranquilamente por sua garganta. Olhou para o relógio, normalmente demoravam 10 minutos pra fazer efeito, então por esse tempo ele tinha que aguentar sozinho.

Ficou se lembrando das noites de amor com Roberta, sua esposa, isso sempre ajudava a tirar o sono, na memória tinha guardado todas as suas voltas para casa, como era recebido por suas meninas depois de um, dois , tres, sete meses na boréia. Na primeira noite era de praxe que todas elas dormissem na cama de casal por cima dele. As segundas, terceiras, quartas e quintas madrugadas eram aproveitadas por debaixo das cobertas com sua amada. Em meio aos pensamentos, Jaílson cochilou.

Acordou assustado com um caminhão bem à sua frente, rapidamente girou o volante para a direita, o outro motorista deu uma longa buzinada e jogou seu veículo para o lado contrário.

-Essa foi por pouco!

Mas agora o Modafinil já tinha batido, estava mais acordado do que nunca, como se todo o sono tivesse se esvaído.

Alguns quilômetros mais tarde, Jaílson olhou para o lado e viu pelo retrovisor um homem andando de bicicleta na beira da estrada. — Tem maluco pra tudo nesse mundo, quatro da manhã, um nevoeiro desse e o cara decide sair pra dar uma volta — pensou. Depois de uns vinte minutos pedalando ao seu lado, o ciclista desapareceu no nevoeiro.

Cinco da manhã. Ele estava assustado, não lembrava do remédio ser tão eficiente assim, nem uma pontinha de sono. Ouviu barulhos ao longe e assim que virou no primeiro retorno que levava ao porto encontrou um grande engarrafamento. O trânsito estava completamente parado. Gritou ao motorista que estava ao lado num corsa preto porém ele parecia ocupado demais ajudando na sinfonia de buzinas. Como nada parecia se mover, Jaílson desceu do caminhão e foi andando entre os veículos para ver o que havia ocorrido. Já podia avistar luzes de ambulância ofuscadas pelo nevoeiro, ouviu choro, gritos, podia ver fogo, correu os últimos metros e finalmente conseguiu ver.

Um acidente, dois caminhões, uma bicicleta, um ciclista pela metade, um dos caminhoneiros chorava, o outro estava sendo retirado de sua cabine, morto, dilacerado, com um rosto calmo, como alguém em sono profundo. Segurando uma foto. No momento que os bombeiros puxam o corpo pra fora um recipiente cilíndrico cai no chão frio.

N-o-c-t-a-l.