A inovação e o dilema da Sandbox

As inovações para os desafios sociais, econômicos e culturais deste século são, em sua maioria, ancoradas nas tecnologias da informação e comunicação. Existe um consenso no investimento em formação de novos empreendedores e fazedores (Makers) e no fomento de soluções disruptivas com ciclos de aprendizagens amigáveis e dados tangíveis aos diferentes tipos de consumo. Mesmo com uma reconhecida entrega de valores à sociedade, até que ponto os modelos de inovação em vigência geram influências nas constituições sociais, culturais e de pertencimento dos cidadãos sobre seus territórios?

Quando uma agenda de governo direciona para um modelo de inovação pautado no incentivo da robótica na escola, por exemplo, algumas questões são essenciais para compreender o real papel dessa política. A quem interessa uma formação massiva de Makers e empreendedores? Existem propostas políticas e pedagógicas em debate? As experiências tecnológicas estão conectadas com os desafios da cidade na instância do bairro e da rua? Existem modelos de governança em andamento? Essas e outras perguntas acenam para um desafio comum: a construção de modelos de inovação como política de Estado: aberta, distribuída e diversa.

O movimento Maker tem notoriedade no ecossistema de métodos e processos para transitar conhecimentos entre experts e amadores. No ambiente educacional, a metodologia STEAM (Science, Technology, Engineering, Arts and Mathematics) objetiva a integração entre corpo docente e discente em busca de uma oxigenação criativa na educação. São projetos de experimentação e fabricação de dispositivos e aplicações com foco nos desafios da sociedade. Trata-se de um método que converge a criatividade pulsante da juventude com o papel da escola enquanto dispositivo político. O resultado desse processo busca, entre outras, a formação de pessoas com habilidades tecnológicas e sociais apuradas.

Apesar dessa proposta saltar os olhos dos gestores e da sociedade, na prática ela ainda está longe de ser uma ação efetiva. Uma grande parcela das escolas continuam a replicar métodos lineares de ensino aliados às doutrinas militares de obediência de classe. A promoção da intolerância, da homofobia e do racismo ainda são constantes. Ainda é notória a completa desconexão com o entorno espacial da instituição escolar. Os desvios dos reais problemas locais como saneamento, segurança e mobilidade ainda são entraves pedagógicos que perduram. No âmbito tecnológico, as estruturas dos laboratórios continuam isoladas, as redes sem fio seguem protegidas para que não haja acesso e os tablets ainda soam como objetos estranhos ao corpo docente, geralmente são bloqueados no final do ano letivo para evitar o roubo.

De certa forma replicamos modelos de inovação deslocados das reais necessidades da sociedade e consequentemente das instituições. Como alterar esse cenário?

Alguns modelos de inovação, especialmente aqueles aplicados em grandes clusters tecnológicos, combinam elementos como educação, experimentação e empreendedorismo como ingredientes para a geração de novos negócios rentáveis. Uma estratégia de mineração de criatividade e conhecimento para garantir novas fontes de sustentabilidade econômica. De outra perspectiva, existem modelos de arranjos produtivos locais e em rede, advindas principalmente das aglomerações, que desenvolvem singularidades para as maiorias — para não dizer as minorias — e pautam a constituição de uma economia mais inclusiva, plural e que respeite às diferentes dinâmicas sociais e culturais dos territórios.

Nos modelos de inovação vigentes, os principais investimentos do Estado são utilizados para a construção de centros de excelência acadêmicos e empresariais e para o fomento de novos empreendedores a fim de atender a uma crescente indústria do conhecimento. Nas outras instâncias de inovação, o debate continua sendo as táticas de sobrevivência diante de tantos desafios impostos. Diante disso, é razoável dizer que as políticas voltadas à inovação ainda não consideram estratégico a integração da sociedade, principalmente as massas, como protagonista dos modelos econômicos futuros.

A inovação cria uma espécie de magnetismo de especialistas com um objetivo único: atrair negócios independente da realidade e necessidade do território.

De fato, existem conflitos no conceito e na prática da inovação que atuam como barreiras para o desenvolvimento de soluções sustentáveis em escala. Apesar de nascer com uma visão libertária, onde tem na colaboração seu principal trunfo, a chamada “nova revolução industrial” atua dentro de uma Sandbox, uma caixa de areia de domínio dos especialistas. Fora da caixa, existe uma enorme grama onde reside o território do cidadão comum.

Caixa de areia com brinquedos de praia (Wikipedia)

A Sandbox pressupõe um conflito: dentro da caixa, a areia é um recurso. Fora dela, um transtorno. A areia fora da caixa não torna a grama uma praia, apenas destrói sua paisagem. Por outro lado, a grama dentro da caixa é tratada como nociva.

A metáfora da Sandbox é excelente para dissertar sobre o papel da inovação na sociedade. A indústria cognitiva de base tecnológica cria aparatos para a sociedade mediante recrutamento de talentos desde a escola até a sua caixa de areia, porém, não consegue gerar impacto para além de suas bordas. O que vemos é uma instrumentalização social a partir de aplicativos funcionais que visam a coleta, a visualização e o compartilhamento de dados em prol da promoção de negócios que não entregam soluções para áreas mais emergentes e estratégicas. Esses negócios estão geralmente desconectados das reais necessidades do espaço, do território e da constituição de um bem comum.

O engajamento nos desafios urbanos ainda estão apáticos e o fomento às ‘cidades inteligentes’ através de dispositivos de ‘Internet das coisas’ refletem essa mesma opacidade. Os investidores buscam apropriar-se de dinâmicas sociais em troca de entregas utilitárias, cognitivas e sistêmicas. Os produtos visam eficiência e customização sem considerar os interesses dos territórios em solucionar suas angústias a partir das suas próprias redes locais, seus afetos e diversidades. De fato, parece estratégico, para esse modelo, ignorar que fora da caixa existe uma gama de espaços de aprendizagem, fértil e disponível.

Os modelos de inovação precisam experimentar formas de articulação que desestabilizem as normas e tendências vigentes.

As ocupações nas escolas do ensino médio e nos institutos de educação superior contra os limites nos gastos públicos apontam para um modelo de inovação possível: um coletivo de pessoas e atividades com pautas decisivas para a sociedade que atuam em equipamentos e infraestruturas públicas a fim de preservar os ganhos sociais e os conhecimentos locais para as próximas gerações. Dentro da caixa, a inovação está centrada no objeto como mais uma ferramenta de consumo, atrativa e utilitária. Fora dela, esse mesmo objeto permite a construção de um sentido de democracia, ou seja, ele agrega e permite o momento onde as pessoas atuam juntas em torno de suas angústias, indignações, opiniões, interesses e, ao mesmo tempo, elabora uma fuga sobre o modelo baseado no consenso.

A disputa por uma equalização nos modelos de inovação é emergente, saudável e necessária. Ela reconstrói uma narrativa onde tanto as experimentações culturais e tecnológicas advindas dos desejos das pessoas e seus pares, seja nas escolas ou espaços públicos, quanto as soluções inovativas dos centros de excelência, promovidas pela academia e pelo setor empresarial, são importantes para a melhoria nas condições de vida. Todos os lados precisam ser respeitados.