Quem vai acender a pira olímpica?

Depois de horas de cerimônia, apresentações, desfiles de delegações, música, teatro, show de fogos … chega o grande momento. Um cidadão do país (ou um grupo deles) acende a pira olímpica. Os jogos olímpicos começaram e o calor do fogo que daquele símbolo estará aquecendo de alguma forma os milhares de atletas e fãs do esporte espalhados pelo mundo.A dúvida que fica é a que dá título a esse texto: qual brasileiro terá a honra de viver esse momento?

Para mim uma das cenas mais emocionantes da história dos jogos olímpicos é o acendimento da pira em 1996. Muhammad Ali, em Atlanta, emocionou o mundo. Já debilitado, o ex-boxeador, medalha de ouro nos jogos de Roma em 1960, consagrou-se ali definitivamente como um dos maiores do esporte de todos os tempos.

Foto: https://www.olympic.org

É bom lembrar que não é necessário ser esportista para acender a pira olímpica. Nos jogos de 1964, no Japão, o fogo foi levado por um jovem, nascido em Hiroshima no mesmo dia do ataque atômico sofrido pela cidade em 1945, no final da segunda guerra. Em Londres, 2012, sete jovens atletas acenderam a pira no estádio olímpico.

E no Brasil? A nossa história com o esporte é gigantesca e ídolos não faltam para fazer parte desse momento tão emblemático. A organização dos jogos já anunciou que quem conduziu a chama em alguma localidade brasileira não poderá ser o escolhido para acender a pira no Rio. Assim, alguns grande nomes do esporte já ficam de fora, caso de Joaquim Cruz, Vanderlei Cordeiro de Lima, Sandra Pires, Maurren Maggi, Arthur Zanetti e Sarah Menezes. Todos esses, medalhistas olímpicos.

Começamos nossas apostas. Alguns importantes nomes olímpicos do Brasil já faleceram e o máximo que poderia acontecer seria passar a algum familiar destes a oportunidade de acender o símbolo, o que acho muito difícil. É o caso de Adhemar Ferreira da Silva (bicampeão olímpico em 52–56) e Guilherme Paraense (primeiro medalhista de ouro do Brasil em 1920). Será que não tem um bisneto do Paraense para, ao menos, levar a tocha nos momentos finais?

Existem dois nomes cotadíssimos mas que não tem conquistas olímpicas no currículo. Guga, o maior tenista brasileiro, foi o favorito em uma enquete promovida pelo site Globo Esporte, vencendo concorrentes “pesados”. A história de vida do Manezinho também o credencia para o momento único. Na minha opinião, Guga é a síntese do brasileiro (Indico a leitura da Biografia “Guga — um brasileiro”). Passou dificuldade na infância, perdeu o pai, lutou muito para conquistar algo grande e com muita determinação alcançou o topo no tênis, um dos esportes mais concorridos.

O outro nome é barbada: Pelé. A escolha do rei do futebol, para além do aspecto esportivo, seria política. Pelé é um dos brasileiros mais conhecidos do mundo e esteve sempre muito próximo do marketing dos jogos. Tudo bem que Edson nunca disputou as olimpíadas, porém o Brasil ainda é visto como país do Futebol. E desse esporte, ele é o Rei. A abertura será no Maracanã …

Um terceiro nome, aí sim ligadíssimo aos jogos olímpicos, é o de Cesar Cielo. A medalha de Cesar Cielo nos 50m em Pequim foi a que mais comemorei na “minha” história de jogos olímpicos. Depois do Xuxa, de Ricardo Prado e de Gustavo Borges, Cielo mostrou ao mundo que podemos ser um país de tubarões. Foi uma pena todos os percalços que tiraram o medalhista da olimpíada do Rio. Quem sabe ele não nada de braçada para acender a pira?

Fechando a lista de “favoritos” está um que seria o meu escolhido. O único brasileiro Tricampeão Olímpico. Campeão no masculino e no feminino. O técnico José Roberto Guimarães. Como seria bom ter um “Zé” neste momento tão importante. Um “Zé” que, como tantos “Zés” pelo Brasil, trabalha duro, sabe se adaptar às dificuldades, já foi execrado (basta lembrar de Atenas 2004) mas deu a volta por cima em grande estilo. O homem que de alguma forma fechou um ciclo fantástico do vôlei masculino iniciado na década de 80 e encerrado em 1992. O condutor de uma equipe feminina brilhante, bicampeã em 2008 e 2012 e que chega para brigar pelo Tri. “Zé Roberto”, um nome de amigo que representaria muito bem o esporte brasileiro.

Bom, já dei o meu voto. E você, o que acha?

Agora me permito sonhar um pouco. Existem duas pessoas ligadas ao esporte que, na minha opinião, poderiam estar presentes e seriam muito especiais para este momento tão único. Um deles é o ex-atleta Alberto Marson.

Quem é Alberto? Um senhor, de 91 anos, que vive em São José dos Campos. Marson durante muito tempo contou pouco a sua história e só mais recentemente revelou histórias de um tesouro da história olímpica brasileira: o bronze do basquete em 1948. Marson era um dos 10 integrantes da equipe brasileira naquelas olimpíadas (que poderia ter até 12, mas não foi assim por contenção de gastos) e não tendo nem lugar para treinar, aqueles bravos esportistas foram até uma Europa pós Guerra para trazer a única medalha brasileira daquela edição.

Tive a honra de entrevistar Marson para uma reportagem especial que vai ao ar no dia 5 de agosto, na Rádio Senado, (“Depois das guerras, as medalhas”) e, conforme muito bem apontou o neto de Marson, Guilherme, o Brasil vive de muitos ídolos descartáveis e muitas vezes esquece a sua história. Alberto Marson é o único representante vivo daquela conquista. Uma homenagem nesse momento tão especial seria um reconhecimento, até tardio, aos desbravadores do esporte olímpico no Brasil.

E o meu segundo sonho seria ver, entrando no Maracanã com a tocha, a senhora Tereza Borba. Tereza é uma espécie de “filha adotiva” do goleiro Barbosa, titular da seleção brasileira de 1950. Ela guarda todas as memórias daquele que foi julgado como principal responsável pela derrota brasileira em 1950. Era, até o 7 a 1, o maior “vexame” brasileiro em Copas do Mundo. Hoje, vemos que Barbosa na verdade foi quase um herói. Sua melancolia, o pagamento da “maior pena já imposta a um brasileiro”, eram de uma injustiça tremenda.

Aquela bola enviesada de Gigghia em 1950 que calou o Maracanã pode ser defendida 66 anos depois se o fogo olímpico for conduzido por Tereza. O fogo exorcizaria os demônios que atormentaram Barbosa até a sua morte. O mesmo palco que o condenou, o aplaudiria. Acho que, assim, a chama olímpica cumpriria seu papel e, tal como o pássaro de fogo Fênix, poderia ser o símbolo de uma nova vida ao esporte brasileiro, um esporte que reconhece, aplaude e respeita seus ídolos.