Carta aberta a um país que, por acaso, também é meu

Querido Portugal,
Se esta carta tivesse sido escrita há mil e quinhentos anos, a letra estaria mais tremida porque é provável que, ao mesmo tempo, um visigodo me sodomizasse com um ferro em brasa por me ter rido quando disse que se chamava Teodorico. E ainda há quem se queixe dos imigrantes de hoje, não é?
Vou tentar não me alongar porque sei que, ultimamente, tens recebido muitas cartas abertas. Queria dizer-te que acho que mudaste e ainda bem. Já não és um país com tanta relevância mundial como há uns séculos, mas a relevância só traz chatices. Uma das coisas que me aborrece em ti é precisamente que continues, apesar de tudo, a ensinar ainda aos nossos miúdos os “feitos gloriosos alcançados no passado” em vez de lhes ensinares história, por exemplo. É que a história não é compatível com propaganda. Muito menos se for a mesma propaganda patrioteira e iludida do Estado Novo que chegou até nós quase inalterada. Aquela historieta dos “novos mundos ao mundo”, lembras-te? Tu que, na verdade, nunca deste mundos a ninguém e te limitaste nesse período específico a tirar tudo a todos os que ias encontrando pelo mundo fora. Em muitos casos, até lhes tiravas a humanidade, transformando-os em coisas que se compravam e vendiam nos mesmos mercados onde se vendia a pimenta e o marfim. Que tem isso de glorioso? Também não digo que passes a eternidade a lamentar-te (não podes voltar atrás e mudar o passado), mas, pelo menos, ensina-nos o que realmente aconteceu e porquê. Sem trompas, sem estandartes e sem citações dos Lusíadas como prefácio a tudo.
Já agora, enquanto ensinares isto, ensina também aos pequenos que as diferenças entre os sexos são basicamente uma questão de roupa interior e do que guardamos dentro dela. Para ver se deixamos de esperar que os meninos sejam umas máquinas de andar ao soco e ao pontapé com paixão por carros e bolas e que as meninas sejam umas bonecas vistosas que só se podem vestir de cor-de-rosa e que devem aspirar a ser princesas e ter como supremo ideal de vida serem decorativas e “frágeis”. Explica-lhes, já agora, que “frágil” aqui significa “inferior”. Para ver se deixamos de ter jardins de infância onde as crianças do sexo masculino brincam num canto com carros e as do sexo feminino brincam noutro canto com bonecas. Para acabar com lojas que separam os brinquedos por sexo.
A propósito de sexo, se alguém quiser mudar o seu, deixa-os. Quem é que isso prejudica? Cada qual sabe de si. E é uma perda de tempo andarmos para aí a verificar se todas as pessoas se deitam com alguém do sexo oposto. Hoje, o João dorme com a Maria. Amanhã, o Inácio casa com o Casimiro. E adotaram uma criança e três cães. São felizes. Ou não. Deixa-os em paz. Só alguém muito doente se deixa atormentar por isto. Se querem preocupar-se com o encaixe perfeito de peças construídas para encaixar, brinquem com Legos. Usem as peças para construir uma Nossa Senhora de Fátima com os três pastorinhos. Ou um busto do Salazar. É um passatempo fascinante que proporciona horas de diversão.
Para acabar, Portugal, vamos à morte. Calma, não é uma ameaça. Infelizmente, há pessoas que sofrem tanto que preferem morrer. De certeza que não é uma decisão irrefletida. Respeita quem toma esta decisão. Facilita-lhes a morte se não podes facilitar-lhes a vida. Depois, podes dedicar o tempo que passarias a discutir ética e moral a encontrar maneiras de ajudar aqueles que querem continuar vivos.
Portugal, tenho 42 anos e uma vida pela frente. Que foi? Porque te estás a rir? Sabes alguma coisa que eu não sei?
