Joga por mim, Brasil


O problema não é com eles. É com a gente. Ali, no campo, são onze contra onze. Não tem como se esconder, não tem como se esquivar, não tem como abaixar para acertar o meião em um momento crucial. No campo, tem que definir. Tomar a iniciativa. Inovar, ousar, assumir riscos. No campo, tudo bem. Mas, fora dele, ainda não estamos preparados. A camisa de brasileiro, seja ela de que cor for, pesa.
A culpa é das estrelas da noite de 15 de novembro, que estampam a bandeira. Sabe, aquela verde e amarela que tiramos do armário a cada quatro anos. Nossa República começou em 1889 como uma ditadura. A população não entendeu nem participou do que acontecia. O primeiro presidente civil foi eleito com uma participação de 2% dos eleitores. Depois viriam outras ditaduras e outros salvadores da pátria.
Ah, os salvadores. Ah, Antônios Lula Lampião Conselheiros Pelé da Silva Neymar Xavier. Como gostamos deles. Amamos os pais dos pobres. E amamos os craques que sabem o que fazer no campo, quando são chamados à responsabilidade. Os salvadores não fazem para nós. Fazem por nós. Nos carregam no colo. A campanha de TV da Sadia para a Copa é ótima, mas tem um erro. Não é “Joga pra mim”. É “joga POR mim”. A Seleção não tem culpa, está fazendo o que gosta, o que precisa e, a julgar pelos 5 títulos, está fazendo o que sabe. A culpa é nossa, coletivamente. A Seleção não joga para a gente. Joga em nosso lugar, joga por nós. Para que conquiste por nós. Que inove por nós. Que seja feliz, tenha alegria nas pernas por nós, enquanto a gente assiste.
Por que a gente prefere não participar. Dá muito trabalho, é difícil. Os alemães do dia-a-dia marcam duro. Desde o nascimento — desde o Império, passando para a República -, nosso Estado é um enorme exército de zagueiros marcando nossa saída de bola. Qualquer tentativa de participar da vida política pelo voto, ou pelo protesto, ou pelo empreendedorismo, ou pela educação, qualquer avanço, qualquer tentativa de tocar a bola e lá chegam 5 grandalhões para roubar a bola, para fazer falta, nos meter os joelhos nas vértebras.
São os impostos, o sistema político, o apadrinhamento, as concessões, os conchavos. A Seleção é válvula de escape. E Neymar, aquele em que nos projetamos. Aquele que vai dar certo, erguer a taça, comer todo mundo, ganhar muito dinheiro e ser conhecido no mundo inteiro. Por que a gente não vai a lugar nenhum, como se diariamente desabasse um viaduto sobre nossas cabeças.
Era pra ser só um jogo. Poderia ser uma metáfora. Mas é uma transferência total de personalidade. É um teletransporte. O Brasil que veste amarelo não representa o brasil que se veste como pode. Ele o substitui. A Seleção não é a pátria de chuteiras. É a pátria, e ponto. Porque quando a gente tira os olhos da TV e olha pela janela, não vê uma pátria. Vê um amontoado, vê engrenagens que foram feitas para não se encaixar uma nas outras. Vemos um sistema de castas dissimulado. Feito para a imobilidade. Feito para nunca partir pro ataque.
A Copa é maravilhosa. A Seleção, vencedora. Os jogadores, craques. O Brasil é que desistiu de ser um país para ser um time. Quem tá errado é o Brasil.

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