Donald Trump é um idiota. Ou não.

Existe uma frase que diz “se você é a pessoa mais esperta da sala, você está na sala errada”. Por trás da frase, há uma implicação de que sua posição deve ser sempre de aprender com “a sala”, ao invés de se arvorar no seu conhecimento ou posição.

Guarde isso, pois vou mostrar porque ser idiota está funcionando para Donald Trump ser a pessoa mais esperta da sala.

Toda a biografia do empresário e candidato americano é usada como prova de que ele não é um idiota: de um aluno de destaque, líder estudantil, atleta de ponta, passou jovem empresário que pegou a empresa de construção do pai e prosperou absurdamente em tempos quando o mercado imobiliário era ainda mais competitivo e com margens baixas.

Daí, transformou a empresa dos país em uma entidade global, com tentáculos em diversas áreas de negócio, incluindo o personal branding do próprio Trump.

Concordamos que uma pessoa dessas é tudo menos idiota? Então por que Trump dedica a maior parte do seu tempo de campanha dando declarações absurdas, ou soltando logotipos de campanha sugestivos que não parecem ter passado por revisão?

O motivo disso é simples: Trump entende de mídia e de história.

O inimigo comum

A polarização sempre foi uma ferramenta política das mais poderosas. Como política passa pelo debate, ter uma posição clara, bem definida ajuda, especialmente se você consegue ter o controle da narrativa, e posicionar-se como a antítese do que seu adversário é (e tudo que ele é é ruim ou danoso, claro).

Todas as grandes mobilizações da humanidade, de uma forma ou outra, foram as que melhor trabalharam a imagem do “inimigo comum”, aquele que motiva mais os convertidos em torno da causa e força ação por parte dos indecisos.

Malcolm X elevou seu status de liderança negra após a já famosa mensagem para a Northern Negro Grass Roots Leadership Conference. Segue um dos principais trechos:

Temos um inimigo em comum. Temos isso em comum: Temos um opressor em comum, um explorador em comum, e um discriminador em comum. E uma vez que nós todos percebemos que temos este inimigo, então nos unimos na base do que temos em comum. E o que temos de principal em comum é o inimigo — o homem branco.

Existem muitos outros exemplos históricos onde esse recurso foi utilizado, e sempre quem controlou essa narrativa conseguiu resultados massivos, ainda que alguns tenham servido ideologias danosas (como no caso do Nazismo).

Quando Trump finca pé, por exemplo, no perigo que latinos são para o futuro dos empregos e do viver nos EUA, ele não está — somente — atacando minorias: ele está pintando seus adversários como destruidores do American Way Of Life por permitir que imigrantes circulem livremente.

Esses adversários são o inimigo, e qualquer americano com dificuldade de conseguir emprego ou perder o seu vai se identificar com isso e se juntar contra o inimigo.

Sim, até os próprios latinos.

Ao marcar posição com declarações consideradas polêmicas (e convenhamos, imbecis), Trump está se definindo com precisão. O que torna isso um ativo de campanha é o fato de que todas essas posições são usadas para estabelecer o “não tem meio termo, ou você está com eles ou comigo”.

Isso não é novo em política, mas o que é novo é o nível de polarização que Trump gera: “se é bandeira do inimigo, vou pisar nela. Ele é o ‘anti-eu’, e será péssimo para você se ele prevalecer”. Sem concessões, sem áreas cinzentas.

Isso explica porque, ao mesmo tempo, Trump tem o suporte de 80% dos militantes mais engajados de seu partido mas ao mesmo tempo 48% não o aprovam. E, mesmo sem o apoio de representantes importantes dentro do seu partido, Trump está em uma impressionante escalada nas pesquisas, chegando à possibilidade de liderá-las.

Ao investir na polarização, Trump trouxe os muitos indecisos para seu campo. Afinal, quem quer estar do lado do inimigo, por mais que tenha incerteza se está do lado certo?

Mas só entender de história, criar uma narrativa poderosa (ainda que deplorável) e abusar da noção do inimigo comum não garante sucesso se essa mensagem não pode ser efetivamente propagada.

Trump não é um político, é um homem de mídia

A imagem do “inimigo comum” só é tão boa quanto mais esse inimigo acusa o golpe. Trump opera com a certeza de que seus adversários vão morder a isca e se enrolar mais na imagem que ele constrói deles e sabe que a internet vai trabalhar a favor dele.

O estilo agressivo, as frases de efeito, as declarações bombásticas, o visual exótico do candidato, tudo é material rico para a internet. Trump opera não como um político, preocupado com “controle de danos” ou “imagem pública”, mas sim como uma pessoa da mídia, que quer e precisa da exposição.

Na frase famosa de Oscar Wilde em O Retrato de Dorian Gray:

…pois existe uma única coisa que é pior que ser falado, que é não ser falado.

E a internet entrega: tudo que Trump faz ou fala gera de reações emocionais amemes em linhas do tempo, com direito a abaixo-assinados e protestos acalorados.

Quando Obama ataca Trump (compreensivelmente perdendo a calma que lhe é característica) por este falar de “Islã radical”, Trump coloca em Obama a imagem de “amigo do terrorismo”. Não cola com todo mundo, mas cola com muita gente, especialmente muita gente indecisa que não quer se ver ao lado de terroristas.

Todo mundo sabe que Trump deveria ser ignorado, que este tipo de pensamento só ganha terreno quanto mais espaço lhe é dado. Mas não vivemos mais um tempo onde a mídia está concentrada na mão de grupos de comunicação, estamos em um tempo quando a mídia são as pessoas, e os grupos de comunicação (os que ainda sobrevivem) seguem as pessoas.

O que estas pessoas estão fazendo ou falando nos pontos online definem o que os editores vão entregar. Logo, mesmo que uma pessoa racionalize e pense “se eu não falar dele ele não existe”, milhões vão propagar a mensagem. Essa granularidade joga a favor de Trump, e o candidato sabe surfar nisso para conquistar os desgarrados.

Aprendendo para não repetir

Estamos muito, mas muito perto de ver os EUA elegerem um candidato que possui de longe o discurso mais polarizador dos últimos tempos, e isso não vai acontecer sem consequências.

Porém, se estamos vendo a história ser construída, temos que aprender com ela: quais lições se tiram disso?

Controle da narrativa

Como muitas empresas, políticos se preocupam demais com o produto e menos com a consistência de sua narrativa. É impossível fazer uma boa narrativa sem transparência dos seus propósitos e uma comunicação clara de quem você é e o que você quer. Se você não vai usar isso para criar “o inimigo”, ao menos você se imuniza para não sê-lo.

As pessoas não leem jornais, elas leem o Buzzfeed

É preciso parar de pensar na internet como mídia de segundo escalão ou em memes como formas vulgares de comunicação. O juízo de valor tem que ser colocado de lado para que se chegue às pessoas onde elas estão e da maneira que elas preferem.

O homem mais esperto da sala

Donald Trump é, no momento, o homem mais esperto da sala, se não globalmente, ao menos na política americana. E ele não se importa em mudar de sala, ele quer dominar a sala, e quer fazer isso da maneira mais improvável possível: sendo um idiota.