Bikeboy ou
(como falhei miseravelmente num teste de emprego)
Essa é a história de como fracassei ao tentar uma vaga de emprego como bike messenger, em São Paulo, há pouco mais de uma semana. Mas antes de mergulharmos nos fatos que desencadearam mais um check em minha humilde lista de fracassos ao longo dos meus quase 27 anos de vida, é necessário explicar a relação que tenho com projetos, digamos, pouco (ou nada) ortodoxos.

Há cerca de dois anos, passei por um detox digital por quase cinco meses, alegando se tratar de um projeto da faculdade. E era. Sério. Cheguei a escrever um livro narrando todas as minhas experiências durante esse período sabático sem internet, celulares e correlatos (se estiver interessado baixe o ebook clicando aqui). No ano seguinte, eu faria mais duas experiências, agora em viagens de baixo-custo: a primeira à base de caronas, enquanto a segunda, e mais recente delas, cruzando o litoral de bicicleta.
E o que todas elas têm em comum? Bem, além das motivações um tanto quanto confusas, confesso, são experiências que tem uma presença intensa do autor, nesse caso, eu mesmo. São experiências que me tiram de uma espécie torpor e me forçam a… viver. É isso. Vivenciar realidades que me são estranhas, beber do “livro do mundo”. Essa tendência que tenho de experimentar o outro, para além das explicações de cunho psicológico, me fez levar esse método de trabalho tão a sério, a ponto de passar a estudá-lo como objeto de pesquisa no mestrado. Na academia, esse “método” é conhecido como jornalismo de imersão. Pois coloquei na cabeça que poderia aplicar essa metodologia de investigação jornalística no contexto das ciclovias da cidade de São Paulo e extrair algumas boas histórias dessa experiência. (Ok, paremos por aqui. Acho que essas informações são suficientes. Outro dia explico o porquê dessa mistura do Brasil com o Egito. Ademais, me permitam pular um parágrafo).
(E mais um).
Aproveitei o gancho da minha pesquisa e, há poucos dias, tentei a sorte em um entrevista-barra-teste para preencher a função de bike messenger em uma empresa do ramo, a Carbono Zero Courier, no centro de São Paulo. Bike messengers são pessoas que trabalham com entregas expressas apenas com bicicletas (gostaria de agradecer ao Wikipédia por essa definição sucinta). Meu objetivo era dar início aos trabalhos de campo.
Para isso, troquei algumas mensagens com um biker que me passou o contato de um dos sócios da empresa que me passou para assessora de imprensa que me fez explicar pela terceira ou quarta, talvez quinta vez “a pauta”. Às vezes, meus caros, os caminhos formais são tortuosos; mas entendo o lado deles. Me apresentar como um jornalista-barra-pesquisador-barra-esquisitão cria uma espécie de barreira institucional desnecessária. Enfim, passado a burocracia inicial, marquei um papo na quinta-feira, dia 3 de agosto, às 9 horas.
Cheguei às 10h30.
NOTAS NO MEU BLOCO DE NOTAS:
— Ansioso. Não dormi porra nenhuma. Até às 9 horas vou estar só a capa da gaita;
— O pior café da manhã em meses;
— Alguém caiu no gemidão do WhatsApp no trem. So sad;
— Cheguei atrasado. Comecei bem P A R A C A R A L H O;
— E se fosse uma entrevista de emprego de verdade? Mas é!
Troquei ideia com o Léo, homem de meia idade, cabelos bem aparados e postura de quem comanda a porra toda. Leonardo Lorentz é sócio da Carbono Zero Courier desde 2013. Um artigo no site da empresa afirma que Lorentz “percorre cerca de 40 quilômetros para dar exemplo a seus funcionários e para vender melhor seu negócio”. Se a informação procede, é difícil dizer, mas o release cumpre com o seu dever de persuadir. Tão logo nos acomodamos em sua sala, expliquei-lhe a situação, a pesquisa, meus objetivos. Pedi uma chance no teste como bike messenger, que me tratassem como todos os outros e não como um jornalista, um extraterrestre. “Além do mais, estou acostumado com longas distâncias”, disse. Achei que precisava provar algo acerca do meu condicionamento físico. Imagino que para ele tenha sido difícil levar a sério o que dizia aquele rapaz calçando um par de All Star encardidos, camisa dobrada nas mangas, bermuda jeans e cabelo volumoso. Não que a minha aparência desse motivos para desconfiança, mas eu teria minhas dúvidas se estivesse no lugar dele. Fato é que Léo pareceu gostar da iniciativa e topou me ajudar. “Nós somos bem democráticos, sabe? Tem funcionário que chegou aqui porque foi traído pela mulher, perdeu emprego, levou uma rasteira e achou que pedalando poderia esfriar a cabeça”, falou. “Quem me dera ser por mulher”, pensei. Papeamos mais um pouco antes de marcarmos meu teste para o dia seguinte, 4 de agosto, às 9 horas.
EM CASA
— Por que você está colocando essas tralhas da bicicleta na mochila, vai viajar de novo, menino? — perguntou minha mãe.
— Vou fazer um teste de emprego.
— Graças a Deus! Deus é Pai! Onde, minha Nossa Senhora?
— Em São Paulo.
— M-mas no jornal?
— Não. É numa empresa de entregas.
— En-tre-gas…?
— É. Entregas de bicicleta. Vou tentar uma vaga como bike messenger.
— …
— M-mas do que adiantou então se formar jornalista? Pra andar de bicicleta? Porque se for pra andar de bicicleta eu prefiro não fazer faculdade e continuar lavando o banheiro de escola como eu sempre fiz. Estuda tanto pra andar de bicicleta, huh? Nsequê, nsequê, nsequê, nsequê, nsequê, nsequê, nsequê, nsequê (ad infinitum)…
Eu nunca soube dizer se o problema sou eu ou a bicicleta. Sei que meus pais depositam todas as fichas em mim como se eu fosse uma espécie de alquimista capaz de transmutar todo o conhecimento acumulado em dinheiro, mas não é assim que as coisas funcionam. Não no mundo real. Quando possível, tento explicar o projeto de pesquisa, a imersão, que o jornalismo não é só glamour. Mas a bicicleta, ah, essa eu não consigo explicar.
SÃO PAULO, 4 DE AGOSTO
Daniel, o líder dos bikers e responsável por aplicar o teste, me entregou um formulário para que eu preenchesse com os meus dados pessoais. Também continha uma provinha simples para saber se eu não era um maluco que atravessava avenidas na contramão. Às 10 horas, me entregou uma lista com o título Qualify A. Era um roteiro de seis pontos pelos quais eu deveria passar e tirar fotos. Estas, por sua vez, comprovariam a minha passagem pelos pontos indicados. O trajeto completo passava pelo Mercado Municipal da Lapa, Memorial da América Latina, Pinacoteca do Estado de São Paulo, praça Charles Miller, Metrô Vila Madalena, Parque Vila Lobos e de volta a sede da Carbono Zero Courier, na Vila Ida.

— Você tem 2h30 para completar o percurso. Não precisa correr, ok? Dá tempo. Posso te dar mais 20 minutos de folga. Alguma dúvida? — me perguntou.
— Não. Sem problemas — respondi com firmeza. Eram apenas 30 quilômetros de pedal. Para alguém que percorreu mais de 700 quilômetros, o que eram trinta-cá-eme, huh?
Mas, eu não sabia de nada.
O primeiro ponto, o Mercado Municipal da Lapa, se mostrou um parto de primeira viagem. (Entendeu? Parto-de-primeira-viagem). Pelo mapa, o trajeto de quase quatro quilômetros não era nada, mas na prática, rapaz, testou a minha paciência. Eu sentia que estava dando voltas intermináveis, como nos filmes em que o mocinho se perde no labirinto. A 300 metros, vire à direita; siga em frente por mais 500 metros; curva suave à direta; permaneça na avenida blá, blá, blá por mais um quilômetro. Eu simplesmente não conseguia me adaptar ao Google Maps. Juro! Quando, enfim, cheguei ao Mercado Municipal, sentia que já havia se passado quase uma hora de teste.
O desespero começou a bater.
Registrado a foto, segui caminho até a Barra Funda. O mapa, os carros a minha volta, a 500 metros, vire a direita na Rua 1, merda!, passei da rua. Como faço pra retornar? Recalculando rota. Estava no caminho certo, era só seguir em frente. Avistei o Terminal Barra Funda. Boa notícia. O Memorial da América Latina ficava ao lado. Moço, como faço para chegar ao memorial?, perguntei ao taxista. Rapaz, se você seguir por essa rua, olhe, você vai demorar, viu. Faz o seguinte: atravesse o terminal, é mais fácil, me disse. O homem parecia estar em guerra com o pedaço de osso de pterodáctilo no dente. Atravessei o terminal andando, segui em direção ao memorial, saquei a foto, parei por um instante, refleti a morte da bezerra, coitada, respirei, tomei coragem, subi na bike e segui para os próximos pontos.
Foi duro, mas tive que aceitar: eu era um completo perdido com ou sem o mapa. Percorrer grandes distâncias em rodovias onde o seu único objetivo é seguir em frente, ah, isso é fácil. Mas quando é preciso percorrer a mesma distância no olho do furacão da metrópole, as coisas mudam um pouco. Some a isso, o fato d’eu nunca ter circulado por São Paulo mais que alguns poucos metros entre o Metrô e a faculdade. Ali, o que me separava do Geraldo Magela era a conta corrente.
Minhocão. Cãibra nas panturrilhas. Pausa para um alongamento improvisado. Irmão, tâmo no corre aqui, será que você não arruma uns centavos pro rango nosso de cada dia?, me pediu o rapaz. Pior que não tenho nada aqui, chapa, mas tenho uma bisnaga, serve?, eu disse, oferecendo as últimas bisnagas que encontrei na mochila. Pode pá, tô suave, lek, má valeu aí, disse o rapaz. Garoa fina. Óculos embaçado. Friaca maldita. Praça da Luz. A 200 metros, vire a direta. Retorno a 500 metros. Merda, errei o caminho de novo! Subi a calçada. Peguei a contramão. Nessa altura do campeonato, eu já não ligava para boas maneiras no trânsito. Pinacoteca. Foto. Garoa fina. Praça Charles Miller. Estádio do Pacaembu. Meio dia. Pelas contas, faltavam 50 minutos para o término do teste. Olho a lista que Daniel me entregou horas antes: faltam dois pontos, mais a chegada na Carbono Zero Courier. Era tudo ou nada. Bebi o fio de água que sobrara na garrafa. Apertei o passo e…
UMA-PUTA-LADEIRA.
Deixei o orgulho de lado. Empurrei a bicicleta. Já não tinha esperança de completar o teste a tempo. Talvez o tempo não valha nada. Eles querem apenas que eu complete o percurso e prove que consigo circular por São Paulo sem precisar de uma ambulância no final, pensava comigo. Mas o que gerou o meu atraso? Será que foi o percurso, o mapa, o fato d’eu desconhecer São Paulo, o peso da mochila, minha confiança excessiva, o sono, a falta de condicionamento, o quê? Não. Eu dei o meu melhor. Sim. O meu melhor.
Por fim, completei todo o percurso. Comigo, todas as fotos dos pontos por onde passei. Eram insignias. Meus troféus.






— É. São 13h30. Você passou 40 minutos do tempo limite — disse Daniel.
— Relaxa. Eu compreendo completamente. Ao menos serviu de experiência. Poder circular pela cidade foi o objetivo desde o princípio. Mas diga, vocês sabiam que eu não conseguiria completar o teste, né? — provoquei.
— É. Esse percurso, o Qualify A, é difícil mesmo. O que posso fazer é te dar outra oportunidade. Na próxima, deixo cinco pontos para te ajudar. Terça-feira, que tal?
— Por mim tudo bem — falei sem pensar.
Na semana seguinte:
Terça-feira, dia 8 de agosto.
Daniel, bom diaAqui é o Rômulo. Sei que combinamos d’eu fazer mais um teste hoje, às 9 horas, mas tenho um compromisso às 10 horas que marquei há algumas semanas e acabei esquecendo quando combinamos o teste na última sexta-feira. No calor do momento não lembrei disso. Vou gravar um programa num estúdio na Liberdade. Será que não podemos marcar uma outra data?
Cara, perdão mesmo. Eu devia ter me lembrado dessas coisas antes de marcar com você.
No aguardo, bom dia.
Não houve resposta.
Daniel cagou para mensagem.
Acho que eu faria o mesmo.
Como diria o filósofo Aristóteles: “Faz parte”.
