Fotos: Douglas Cordeiro

O velho e o aro

O velho arrisca alguns fundamentos do basquete sozinho no parque Max Feffer: movimenta com facilidade a bola por entre as pernas, gira em torno do próprio eixo, avança em direção ao garrafão, salta e arremessa. A bola bate no aro e faz tuim, tuim, tuim, ao quicar no chão da quadra. O velho repete os movimentos: bola por entre as pernas, gira em torno do próprio eixo, avança em direção ao garrafão, salta e arremessa. A bola bate no aro mais uma vez e faz tuim, tuim, tuim, ao quicar no chão. Não há ninguém naquela quadra. Só o velho e o aro.

Naquele dia, estava eu a bisbilhotá-lo a certa distância. Não queria atrapalhá-lo. Fato é que lá estava o velho, tal qual me afirmara dias antes em sua modesta casa, no Jardim Natal, bairro do município de Suzano. De segunda a sexta-feira, o velho treina nas quadras do parque. Já se vão seis anos desde que ele passara a frequentar religiosamente o local. Decido, enfim, interpelá-lo:

— Elias — digo, surpreendendo o velho que pára de bater bola. — Acho que deixei de perguntar em nosso último encontro, mas o que você sente quando está na quadra, sozinho, treinando?

— Quando estou aqui os problemas além-quadra desaparecem. Eu me concentro apenas no aqui e agora — respondeu-me. O velho tem fala mansa e parece escolher cuidadosamente cada uma de suas palavras. O boné com aba para trás e o figurino básico – uma camiseta branca surrada, bermuda de tactel cinza e tênis confortáveis – podem até enganar os transeuntes desavisados do parque, mas as rugas que o velho carrega no rosto denunciam a sua idade.

O velho viveu toda a infância no município de Poá, e com 20 e poucos anos mudou-se com o mãe e os sete irmãos para Suzano. Foi, segundo ele, um período em que sentiu a necessidade de entender as coisas, os processos. Os teóricos falavam de coisas que ele não entendia. “Dizia a mim mesmo que eu precisava entender, precisava de uma formação intelectual, não por vaidade, mas por uma necessidade muito íntima.”

De família humilde, o velho não tinha dinheiro para comprar conhecimento, mas encontrou um banquete de livros nos lixos da cidade: de Hegel, Weber a F. Scott Fitzgerald. “Eu encontrei a coleção de Victor Hugo que me encantou com Os Miseráveis.” Ainda muito jovem se animava toda vez que encontrava livros compatíveis com a sua idade: Mark Twain, Alexandre Dumas e John Steinbeck foram alguns dos autores que o acompanharam em sua juventude. “Eu lia de tudo um pouco: de Filosofia a livros teóricos sobre Economia.” Não entendia nada, mas o velho botou na cabeça que um dia entenderia. E assim seguiu como uma desbravador ignorante, consumindo o conhecimento que era descartado pelos outros. Sentia-se à vontade assim, afinal de contas, “tinha muito tempo para aprender”.

Tuim, tuim, tuim, fazia a bola.

O velho pára de repente e com um leve sorriso no canto da boca, diz: “Eu ainda continuo um ignorante”. Ele me lembrou um homem grego que certa vez falou que sua sabedoria era limitada à própria ignorância. “Só sei que nada sei”, dizia o tal grego. Mas essa é outra história.

O observador

Há um lago artificial no quintal da casa do velho. Tão logo nos conhecemos, descobri que as plantas e os animais lhe são caros. Disserta habilmente sobre estes e outros assuntos como qualquer douto de gabinete com formações mil. O velho é apaixonado pela natureza desde a infância, época em que se metia nas matas espalhadas pela região. Os livros de Biologia o levaram a um profundo conhecimento sobre a fauna e flora. A paixão só aumentou quando, no final dos anos 60 e começo dos anos 70, as emissoras abertas de televisão do país passaram a exibir documentários gringos, muitos deles sobre a vida animal. “Eu assistia a todos eles”, revela.

Um amigo em comum conheceu o velho às voltas no parque há quase seis anos. Ele me contou sobre as consultorias que recebe toda vez que publica na internet fotos de plantas e insetos. “Ele [o velho] conhece muitas espécies e quando vê minhas fotos publicadas me diz o nome científico da planta, o inseto que se alimenta dela, enfim, me dá toda a cadeia por trás daquela florzinha.”

O conhecimento não vem apenas dos livros, mas de incursões práticas que o velho fazia nas matas. Com mais idade, e já empregado, comprou, em 1980, sua primeira máquina fotográfica: uma câmera reflex japonesa de altíssima qualidade para a época. Aos poucos, adquiriu uma teleobjetiva, filtros e outros acessórios. Quando lhe sobrava tempo, se embrenhava nos brejos pesquisando e fotografando a fauna e flora da região. “Eu não era um fotógrafo profissional. Me considero muito mais um observador, formado pelos documentários da vida.” Infelizmente, teve sua câmera furtada com apenas dois anos de uso. Muitas fotos se perderam com o tempo, mas o velho continua produzindo, mesmo que timidamente. O material, agora digitalizado, ocupa pastas e pastas em um humilde computador no canto da sala. Algumas fotos servem de papel de parede em sua área de trabalho, enquanto outras ilustram os álbuns de seu perfil numa rede social azul.

E a bola continua fazendo tuim, tuim, tuim.

Tempo, o monstro

O velho dedicou 32 anos de sua vida como mecânico de vagões na Rede Ferroviária Federal – estatal brasileira de transporte ferroviário (fundada em 1957 e privatizada em 1998) que cobria boa parte do território nacional. Ele decidiu deixar as ferramentas de lado e se aposentou em 2011. “O serviço tomava muito tempo da minha vida e de repente aquilo não existia mais.” O velho precisou se readaptar a essa nova vida cujo o tempo (de sobra) se transformara num monstro. A liberdade nunca foi tão assustadora.

Neste momento o velho desvia o olhar. Estava imerso nos próprios pensamentos. Depois de um breve momento, dirigindo-se a mim, ele diz:

— Então, aquilo que a gente não é capaz de mensurar, de antever, de pensar, aconteceu. Aconteceu de eu ficar deprimido. E houve uma reação em mim, além das frequentes noites sem dormir: eu passei a intensificar mais o esporte.

O velho passou a correr de segunda a domingo, todas as manhãs. Era como suprir a falta daquela velha rotina com outra coisa. Mas não era uma troca equivalente.

O que o velho não esperava era que seu corpo, em resposta às noites de insônia e a todo o estresse acumulado, cederia. E num fatídico domingo ele não conseguiu se levantar da cama. “Me doía todo o corpo”, lembra. “Comecei a disfarçar pra mulher não perceber, mas a fadiga, a febre, enfim, permaneceram nos outros dias. Comecei a avaliar a situação: ‘o está acontecendo comigo?’, ‘o que houve?’, ‘o que fiz de errado?’.” A resposta, afirma o velho, estava no próprio corpo. “Desde aquela época determinei à mim mesmo que só sairia de casa quando estivesse bem fisicamente.”

O velho tenta um arremesso, mas a bola bate no aro e cai.

Ser humano: um universo em si

O basquete vem dessa época. O velho notou que durante a semana, à tarde, as quadras do parque estavam vazias e decidiu que faria seu condicionamento físico usando os fundamentos do basquete e não mais correndo. Devido a gama de movimentos, “ganharia mais sem se matar fisicamente”. “O condicionamento físico é básico: tem que suar”, afirma, enquanto me mostra alguns dos movimentos que praticava.

Com o tempo, as pessoas foram aparecendo. Nos domingos de manhã o velho divide a quadra com os “camaradas”, como ele mesmo os chama, numa espécie de confraternização. O velho dispara de um lado a outro da quadra, divide os lances com pessoas com menos da metade de sua idade, entra em choque com outras tantas com o dobro de seu tamanho, mas o objetivo é só um: “Eu venho para ver o pessoal e conversar. Naturalmente as pessoas não têm essa consciência da conversa, mas eles estão conversando comigo e é isso que eu curto.” Mesmo ofegante, permanece em quadra, afinal, quando o corpo deixa de responder aos comandos, sobra-lhe a longa experiência nos arremessos.

— Que tipo de pessoa frequenta a quadra? — pergunto ao velho.

— É difícil rotular. Em função da intensa rotatividade de pessoas que passa por aqui, só os conhecemos por aqueles breves momentos em que se expressam, seja por palavras ou atitudes. Não os conhecemos em profundidade, entende? Algumas delas surgem e abrem o coração em função de seus dramas pessoais e eu nunca os tratei com indiferença. Acontece direto e a gente não pode discriminar ou sair fora. A quadra é pública. E aí a gente ouve, dá um retorno. Às vezes não é a resposta que a pessoa quer, porque eu também não abro mão das minhas posições. Cada ser humano é um universo em si.


Elias Bastista, no alto de seus 63 anos, é o que chamamos no jornalismo de desvio. Atleta improvável. Tímido sábio. Curioso voraz. Diz o tal conhecido em comum que o velho é fã do concerto de Brandenburgo número 3, do alemão Johann Sebastian Bach. Diz também que Elias disserta sobre a origem da língua portuguesa e vez e outra se arrisca fazendo pães. Um homem de muitas habilidades vocês hão de concordar.

Decido deixá-lo à vontade. Despeço-me de Elias, o velho, e me desculpo por tomar o seu tempo. “Quando a conversa é boa é outra coisa”, disse-me. A poucos metros da quadra, vejo o velho repetindo os mesmos movimentos de antes: bola por entre as pernas, gira em torno do próprio eixo, avança em direção ao garrafão, salta e arremessa. A bola faz um arco perfeito e cai certeira na cesta.

Ao longe escuto o tuim, tuim, tuim


Rômulo Cabrera é jornalista desempregado, documentarista sem prestigio, ator sem talento, sommelier de tubaína e boladão no estilo. Se você [curtiu] e está feliz bata palma!