Algumas horas na Campus Party Brasil 2016 #CPBR9

Uma vez, minha nonna comentou comigo sobre não começar nenhum texto se justificando… vai ver que é por isto que ela era uma boa escritora e eu não. Começo justamente o texto assim pois, esse é meu primeiro ensaio aqui, e no mundo. Com certeza você encontrará erros, typos e outros temperos no texto. Façamos de conta que é uma espécie de assinatura minha. Combinados?

Chega de falar de mim e vamos para o assunto em si, que me chamou a atenção. Tive a oportunidade (na essência da palavra) em investir a tarde de ontem junto ao público da Campus Party.

Sendo um tarado nato por tecnologia, dei uma olhada na vasta agenda do evento, consegui organizar a minha e zarpei para o pavilhão principal do Anhembi. Pisando lá, antes de me meter nos assuntos e conteúdos, resolvi fazer a “volta olímpica” para reconhecimento do local e começou aí a minha surpresa.

Campus Party Brasil 2016 #CPBR9–28 Janeiro

Milhares de jovens e, não tão jovens assim, espalhados por infindáveis bancadas comunitárias. Comecei a tentar montar o Tetris na minha cabeça para entender a forma de organização que estava rolando ali. Diferentemente do que eu esperava encontrar (puro preconceito meu), não encontrei uma turma homogênea de Nerds.

Encontrei uma legião de pessoas se expressando, cada um com a sua linguagem mas, com uma fome comum em se comunicarem de alguma forma. Seja programando, seja defendendo uma causa, seja dividindo conhecimento. Tudo me levou a crer que todos ali estavam com um único propósito: Produzir algo que ajude a sociedade. Cada qual da sua maneira e limite mas, muito evidentemente, remando para o mesmo lado.

Tinha muita gente, muito conteúdo simultâneo, muito equipamento, muita eletricidade… tudo muito de tudo! Tudo para gerar euforia, desordem e fazer com que estes jovens, que (pre) julgamos generalistas e rasos transformassem o local em uma espécie de arena caótica.

Para minha surpresa, o cenário se mostrou o oposto. Público respeitoso, interessado no assunto, pensando muito no coletivo e engajados em fazer algo diferente… uma espécie de Hackthon só que substituindo a pressão e competitividade por engajamento e empatia, respectivamente.

Difícil expressar por aqui exatamente o que estava rolando… até porque, ser apaixonado por algo, não significa ser um profundo entendedor ou estudioso. Se me perguntarem sobre a qualidade técnica do que estava sendo desenvolvido por lá, eu não saberia responder com propriedade. Mas algumas coisas interessantes eu pude presenciar ali.

A forma de comunicação entre este público mudou, e pra sempre (acho eu). Parei uma garota para pedir uma informação e senti claramente que, por mais que ela tentasse disfarçar, havia um incômodo na voz dela em ter que conversar pessoalmente com um estranho. Ao mesmo tempo, percebi que ela estava sentada na bancada, com o monitor visível, fazendo um Hangout com mais umas 5 ou 6 pessoas… de fato ela estava se comunicando, à maneira dela, mas estava.

Outro ponto que me chamou a atenção, no Main Stage, uma rapaz uruguaio palestrava. Auditório cheio, nenhuma cadeira disponível. Vi um rapaz (jovem) ceder sua cadeira para uma desconhecida (ainda mais jovem), que minutos depois sugeriu que revezassem o lugar (crowd seat tinha acabado de ser criado ali). Olhei em volta e percebi pessoas “dividindo” suas baterias extras de forma solidária, com quem precisasse, sem pensar que mais para frente isto poderia fazer falta. A atmosfera de coletividade estava presente de forma leve e sem pretensão alguma.

Assisti um painel de discussão de Youtubers que, pelos números falados, tem mais seguidores que algumas cidades grandes tem de habitantes. Devo confessar que, conhecia apenas um dos cinco que estavam lá falando. Gente simples que gera conteúdo e não se coloca em nenhum outro patamar acima dos “simples-mortais-não-Youtubers”. Alguns começaram gerar conteúdo para diversão própria e perceberam que seria possível viver disso, o que é um antagonismo ao conceito tradicional de trabalho. Independente do nicho, das opiniões sobre os assuntos, eles se mostraram pessoas que inspiram. Inspiram por diferentes razões: “são gente como a gente”, apresentam opiniões fortes sobre assuntos e trabalham o conteúdo de forma natural, sem maquiagem, RAW mesmo.

Aos poucos comecei a conectar alguns pontos… esse tal público da feira não é mais um público nichado. Não é um público estritamente digital. Até porque, como já bem sabemos, não tem muito como separar vida online da offline hoje em dia. Esse tal público é, na realidade, a próxima geração.

Mais pontos foram se conectando. Esse pessoal em cinco ou dez anos, representará mais de 50% da força de trabalho do país. Eles estarão, junto conosco, segurando o leme desse Brasilzão.

Se o que eu vi ali sob a ótica de valores e atitude em construir algo melhor, for consistente, acredito que o país passará por uma bela transformação. Por mais que a situação atual não esteja nem perto do desejado, nem o pior cenário tem força suficiente para abafar esta turma. Eles estão aprendendo a trabalhar de forma simples, respeitosa, com menos recursos e mais desprendimento. Coisa interessante e bonita de se ver. Injeção concentrada de ânimo na veia.

De tudo que vi ontem ali, só um ledo engano: Fui lá para encontrar tecnologia e encontrei gente. O tag do evento não poderia ser melhor: #feelthefuture.