“Lá fora é mais fácil.”

“Lá fora é mais fácil.”

Acordou em estado branco. Inanimado. Sem vontade. Percorreu o corredor. Foi e voltou. Deu meia-volta, subiu e desceu. Olhou ao redor. Nada. Buscou debaixo da cama, nos armários do quarto, nos documentos em cima da escrivaninha, nada. Numa última tentativa lembrou de olhar pelas janelas, nada: não encontrou seu próprio horizonte.
Desesperado, num momento de lucidez, deu-se conta: acordara dentro da própria consciência.

Um ambiente hostil, que só lhe serve para guardar os resquícios de sentido dos objetos conversados dia após dia com as mesmas, e sempre as mesmas, pessoas. Lugar guardador de todas as culpas, desculpas, misérias e vergonhas; da benevolência apática com os prejulgados inferiores; das investidas sádicas em busca de poder; da felicidade ressentida; dos desejos sexuais intermitentes e reprimidos, e de tudo aquilo que se poderia resumir como a vida de um partícipe da sociedade moderna.

Entenderão do que falo os já inadvertidamente dominados pelos dogmas morais, ou por alguma de suas vulgatas, ou, ainda, talvez por suas ressignificações, ou ressignificações das próprias vulgatas; pela doutrinação televisionada; pela sincera vontade autoreprimida de ser feliz.
Mas só entenderão realmente aqueles conscientes, os que acordam dentro de si todos os dias ensimesmados pelos sentimentos alheios. Deslocados, íntima e silenciosamente, de seu próprio ser para o limbo do existir.