A flor.

O jardim de belezas ocultas.

É engraçado o quanto algumas coisas acontecem independente de nossa vontade. Irônico que, apesar disso, elas não parecem predestinadas a ficar tanto quanto a espera nos faz pensar que deveriam. Tudo é pra ser, mas nem sempre como a gente quer.

Um dia triste. Um lugar público. Clássico.

Minha mente estava atordoada em frustração. Sentia aquele engasgo no fundo da garganta querer borbulhar do canto dos olhos, algo que não previ. O peso e o cansaço de um novo não foi dessa vez. Mas estava em um trem, Central /Santa Cruz às 19h de um Domingo, não cabia desabar. Ao invés disso, lembrei de um texto meu. Trem parador. Fiquei absorto ao me ver no contexto de algo que escrevi anos atrás. Curioso.

Tem vezes que a vida parece te apontar sinais.

Eu estava triste, mas;
Entre o instante que uma música termina e outra começa, nesse silêncio, ouvi um barulhinho e olhei. Logo no banco à frente havia um casal de meia-idade comendo um biscoito Fofura sabor alho. Aquele que na verdade é só isopor temperado. A saia da senhora e a calça do senhor estavam sujos de farelo. Ela vez ou outra espanava ambos para limpar um pouco antes de se sujarem novamente. Pelas roupas e o “Mulheres de Cristo” escrito na toalinha que tinha, deduzi que fossem cristãos. Se entre-olhavam com sorrisinhos enquanto falavam baixinho. Ele carregava um sacola de mercado com uma garrafa pet com água semi-congelada que serviu a ela.
 
Quanto tempo estavam juntos? 
Em que momento se descobriram apaixonados?
O que os fazia resistir por tanto tempo?

Eu estava triste, mas;
Enquanto refletia sobre o casal, olhei o restante das pessoas ao redor. Não demorei até ver um outro senhor, sentado bem mais a frente, completamente inebriado por sabe-deus-que-música tocando em seus fones de ouvido. O topo da cabeça totalmente careca não impedia o headbanging. As mãos batucando o banco sobre o qual sentava. O que ele devia estar ouvindo? Ele estava o foda-se para quem quer que pudesse julgá-lo. Era ele e o momento dele ali. Qual era o segredo pra ser feliz daquele jeito?

Eu estava triste, mas;
Dormi. Sempre durmo em condução. Senti a cabeça pesando. Não sei quantas estações passaram mas quando despertei, tinha uma mulher em pé na minha frente com um bebê no colo. Também não sei quanto tempo ela estava ali. Ofereci o lugar, levantei e ela sentou. O bebê tinha olhos enormes e quatro dentes na boca. Ficou me encarando com aquelas bilhas gigantes de quem acabou de chegar e tudo é novo. Os bracinhos pequenos conseguiram puxar o fio do meu fone e, se não estivesse preso ao celular no bolso, provavelmente o levaria à boca. Quantas coisas ele ainda viverá?

Eu estava triste, mas;
De pé, não conseguia mais dormir. Fiquei vagando em pensamentos. Aí notei algo preso no banco na minha frente, logo atrás do senhor que dividiu um Fofura com sua amada. Era uma flor. Não uma de verdade, uma flor artificial. Um lugar estranho para se encontrar uma flor, mesmo que uma artificial. Me questionei; quem poderia tê-la deixado? E por quê? Ou para quem? Seria tipo aquelas coisas de intervenção artística ou, sei lá, fruto aleatório de um coração apaixonado? Talvez nem fosse nada disso. Talvez nem tivesse significado algum. Mas chamou minha atenção. Bati uma foto disfarçadamente. Mal dava pra ver que era uma flor. Bati outra, com zoom. A qualidade não me agradou. Ponderei se pegaria, talvez tivesse de ficar ali para algum destinatário especial. Questionei que talvez fosse eu. Peguei.

Eu ainda estou triste, mas;
Detesto que as coisas sejam em vão. Mesmo as não recíprocas, ou as tristes, ou mesmo as que gostaríamos que fossem de outro jeito, mas não chegam sequer a ser alguma coisa. É normal eu sair por aí olhando pessoas e tentando imaginar coisas aleatórias sobre elas. É normal eu buscar significados, lições. A questão é que não acho que as tire do nada. Confesso que nem sempre enxergo mas, a impressão que tenho, é que há algo por aí, uma ordem ou coisa do gênero — chame de Deus ou Poesia, tanto faz — que está em tudo, como uma beleza oculta.

Acho que tenho me tornado mais apto à enxergar. Há beleza no mundo. E posso ainda estar triste porque as coisas não são como eu gostaria, mas;
vai passar.

A flor está comigo.