Cara, tá na hora de tu perceber que o machismo também é contra você.

No ‘eu’ diante da luta ‘dos outros’, há um ‘nós’.

Pinterest.

Eu não lembro quantos anos eu tinha quando vi meu pai ser expulso de casa pelo meu bisavô, materno, que segurava uma perna-de-três. Sabe? Aquelas madeiras enormes de construção. Eu estava de pé sobre o sofá, olhando pela janela, a vista borrada em lágrimas, alternando entre ver a discussão lá fora e os meus irmãos acuados ao meu lado, se abraçando em desespero. Eu, o mais velho, era o que melhor entendia o que estava rolando ali e mesmo assim não entendia muito. A razão do furdunço? Meu pai, que já havia se separado da minha mãe após traí-la algumas vezes, não aceitava o fato de que ela tinha encontrado outro alguém. Um tempo depois disso, ouvi do meu irmão, mais criança do que eu era, que uma prima nossa tinha dito que nossa mãe era puta, assim como a mãe dela, e todas as mulheres que já tivessem tido mais de um homem. Ela ouviu isso na Igreja. Do meu pai nunca ouvi nada, mas de outros que já haviam agido como ele me foi repetido que homem é assim mesmo. Minha mãe precisou entrar na justiça para cobrar o que era nosso de direito. Meu pai ficou magoado e deixou de falar com ela. Essa fase foi a primeira vez que o machismo rosnou na minha vida.

Por uma piada do destino e azar da minha mãe, meu primeiro padrasto não foi lá coisa muito melhor. No começo, claro, tudo é lindo. Eles tocavam junto alguns projetos e, minha mãe, como sua mulher, era mais ajudante que trabalhadora — aos olhos dele. E eventualmente vieram as brigas. Abuso verbal, físico e psicológico. Ele ameaçava que passaria de carro sobre a minha cabeça, pra assustá-la. Eu, dos três, era o único que não se dava bem com ele. Era o único que, mesmo com braços raquíticos e sem muito o que poder fazer, tentava intervir nas brigas. Lembro de forma vívida quando em uma das brigas, pensei em furá-lo com um garfo mas temi que pudesse matá-lo (lógica infantil) e optei por acertar uma vassourada na lombar dele. Uma decisão maravilhosa, aliás. Ele largou minha mãe na hora e passou semanas acamado. Por um golpe do destino, acertei sua hérnia de disco. Ele deve sentir dores até hoje. Antes do fim de fato, ele dividiu a casa com pallets e disse que cada um viveria do seu lado. Minha mãe teve que entrar na justiça para que ele fosse embora, com ordem restritiva, e ele ainda ameaçou tomar a casa, que ele construiu no nosso terreno com todos os salários que minha mãe não recebeu — sério, essa era a desculpa dele. Essa fase foi a segunda vez que o machismo rosnou na minha vida.

E ambas as situações, eram problemas que minha mãe teve que lidar, que caiam em seu colo por ela ser mulher, mãe, separada e tendo que cuidar de três crianças, em grande parte, sozinha. E é preciso perceber que os ferimentos, embora mais severos nela, não são particulares, eles se alastram a quem está em volta. Eu, minha irmã, meu irmão.

Na entrada pra adolescência, tendo crescido como o moleque preso à barra da saia da mãe — e as razões disso hoje me são claras — eu não me encaixei como supostamente deveria na definição de homem. Para alguns, ainda hoje não o faço. Óbvio, sobre critérios totalmente sem sentido. Eu não gostava de futebol, não rodava peão, não soltava pipa. Não fazia sucesso algum com as meninas também. Ao invés disso eu gostava de escrever, vivia no meu próprio mundo, gostava de passar pano na casa e ficar patinando de meia depois, gostava de lavar prato e copo e me orgulhava de deixar as coisas nos trinques. Eu era o mais velho e, portanto, quem mais podia ajudar minha mãe em casa na época. O que não interessa muito a quem julga e aponta que, provavelmente, você é gay por isso, com todo peso pejorativo possível. E eu não entendia mas percebia que eu não era mesmo igual os outros. Eu não era homem de verdade. E eu cheguei a questionar se talvez não estivessem certos.

A ironia é que todo ano letivo que se iniciava, eu não demorava pra encontrar o amor da minha vida. A primeira se chamou Thaís, já na primeira série, depois houve a Jéssica, nos três anos seguintes foi a mesma Aline e depois dela, outra Aline. Na última Aline foi que rolou a pressão que gerou a dúvida. Sonhando acordado com a Aline, o mundo ao meu redor me fez questionar se eu era gay. Sentido, cadê? Essa foi a terceira vez que o machismo rosnou na minha vida.

E as consequências disso? Uma autoestima bem fodida e a sensação constante de não se encaixar. Fatos que vêm naturalmente dentro do pacote da adolescência, foram fortalecidos pelo histórico e reverberam até hoje. Fora um pé na depressão, o estabelecimento de comportamentos ruins e etc. E isso tudo é sobre mim. Se meus irmãos escrevessem, seriam duas outras histórias e consequências na vida deles, dos mesmos acontecimentos. E se minha mãe escrevesse, seria outra, pior. E isso não foi só na minha família. Então o quanto se estende?

Um tempo atrás, um garotinho foi espancado pelo pai e morreu. A justificativa dada pelo pai era de que ele apresentava comportamentos femininos, dentre os quais o pai citou lavar a louça. 
Lavar a louça. 
Ele morreu espancado porque gostava de lavar a louça. 
O pai temia que ele fosse gay, quis dar corretivo, endireitar. Eu nunca apanhei por isso. Não sou gay e, mesmo já tendo sido confundido com um, também nunca me senti suscetível a morrer por isso. Mas por muito tempo medi meus gostos por esse preconceito que, de certo modo, também se instaurou em mim. O garotinho que morreu poderia de fato vir a se descobrir gay — o que não teria NADA a ver com gostar de lavar a louça — e, mesmo assim, isso nunca justificaria seu fim prematuro e trágico. O machismo o atacou, não apenas rosnou.

E vi o mesmo pensamento machista, estruturado culturalmente como um câncer, agir contra minha mãe. Porque o que é feminino, é tido como frágil, submisso, está abaixo. Porque não é tido como mulher de verdade, digna, se não serve ao homem, se não se submete. E se um homem compartilha das características associadas à mulher, ele é tão indigno quanto. E minha mãe foi quem me criou, brigou por mim, lutou por nós. Toda uma guerra cuja razão nunca me fez sentido, porque pra mim era questão de bom-senso o agir certo, mas ela tinha que lutar por isso. E nada foi fácil pra gente.

E essa ausência de lógica me deixa confuso até hoje. Não preciso ser mulher ou gay para ver que as causas pelas quais eles lutam, são em prol de uma sociedade melhor, de modo geral — homens héteros inclusos. Se não pela própria liberdade de ser, será pelas pessoas que queremos bem e que estão ao nosso lado. É absurdo o quanto é comum a história de crianças que presenciam agressões em casa. E a violência é aprendida culturalmente;

[…] Outra modalidade de violência que, embora não sendo exclusiva do âmbito doméstico, é nele que ocorre com maior freqüência, é a violência contra a mulher. Em distintas partes do mundo, entre 16 e 52% das mulheres experimentam violência física de parte de seus parceiros (OPAS, 1998). Apesar disso — ou exatamente por esse motivo — a violência de gênero é ainda marcada pela “invisibilidade social”. Esta violência diz respeito a “sofrimentos e agressões dirigidos especificamente às mulheres pelo fato de serem mulheres” (SCHRAIBER; D’OLIVEIRA, 1999).
Uma vez que metade dos adolescentes pertence ao sexo feminino, é estarrecedor o impacto estatístico e social das discriminações, abusos físicos, psicológicos e sexuais por elas sofrido. A título de exemplo, estima-se que, no Brasil, em 1985, uma em cada cinco meninas tenha sofrido abuso sexual, sendo que 300.000 (5% daquele total) foram vítimas de incesto pai-filha, das quais 38% tentarão suicídio (AZEVEDO; GUERRA, 1997).
Em relação aos rapazes, pode-se constatar que são submetidos a uma “automutilação [por terem que] reprimir as partes de sua própria personalidade consideradas femininas” (GIFFIN, 1994). Além disto, “o valor cultural da honra masculina” (ZALUAR, 1993) gera a necessidade de comprovação da virilidade através de demonstrações de força física, valentia, enfrentamento de perigos e brigas, aumentando os riscos de sofrerem ou praticarem violência. Apesar disto, raramente os projetos de investigação e intervenção incluem também os homens.
A violência de gênero, quando ocorre na relação conjugal, atinge também os filhos, que se tornam testemunhas freqüentes e impotentes ou, até mesmo, vítimas de maus tratos por tentarem defender a mãe. Apesar de todo sofrimento que passam, um expressivo percentual desses filhos repete, em sua vida adulta, o mesmo padrão de relacionamento, por haver interiorizado esse modelo de opressão, agressão e medo.

(Retirado do artigo; Adolescência e violência: mais uma forma de exclusão de Feize M. Milani, completo aqui.)

Cada movimento tem seus pontos centrais, mas o machismo, em todas as suas nuances, é uma realidade generalizada. Ele afeta a todos. Tem gente morrendo de forma atroz: por serem quem são, por não serem como alguém disse que deveriam. Tem criança vendo a mãe apanhando do marido, sendo morta. Tem criança tendo o psicológico fodido por não se encaixar. Tem criança crescendo sem saber que sua vida pertence a ela. E eu poderia continuar citando tantos outros exemplos, mas é só olhar com mais atenção pro mundo, não é difícil de ver. O preço que se paga é maior e mais letal do que o que se fantasia de “privilégio” — é literalmente se achar no direito de ganhar um salário maior ao troco de vidas traumatizadas, perdidas.

Hoje eu sou pai. E meu esforço é ser pro meu filho o oposto de grande parte da representação paternal que eu tive. Ao mesmo tempo, temo o mundo no qual ele vai crescer. Nem a mim mesmo eu tomo como o melhor dos exemplos e percebo isso com gosto amargo na boca graças as minhas falhas. Mas vivo nessa revisão constante, torcendo pra aprender e servir de degrau para que ele se torne alguém melhor que eu. Alguém que seja capaz de lidar com esse mundo melhor do que eu fui. E sendo pai, já tive minha capacidade de criar meu filho questionada pura e simplesmente porque: sou homem — veja o discurso recente do Presidente da República que corrobora essa lógica distorcida. Isso, graças ao senso comum que dita que mulher é instintivamente mãe e pai não consegue, e portanto nem precisa tentar, ter o mesmo cuidado e zelo. Eu já ouvi de uma oficial de justiça que não adiantava muito eu buscar meios legais para resolver situações envolvendo a guarda do meu filho, porque a mãe teria vantagem porque: era mãe. Sem qualquer avaliação particular sobre a situação. Diante de alguns casos legais, o fato de ser homem soa desvantagem porque, supostamente, mulher nasceu pra ser mãe e isso é instintivo, o esperado — mesmo que não tenha sido uma escolha. Felizmente, não precisei mesmo de intervenção judicial e hoje as coisas seguem bem. E se tem algo que aprendi, na vivência e na faculdade, é que nasce um pai e/ou uma mãe, quando nasce um filho, e vamos nos tornando com o desenvolvimento da criança. Instinto é só uma vontade prévia, mas que não te deixa pronto pra nada na criação de uma criança — eu curso psicologia, já estudei desenvolvimento infantil e isso só ajudou um pouco, todo resto continua sendo surpresa e festa.

É estúpido pensar que a causa dos problemas é algo que atinge um grupo ou outro especificamente, quando todos vivemos sobre o mesmo céu, juntos. Você pode não ter passado pelo que eu passei, mas alguém que você goste, talvez. Talvez venha ainda a passar porque, infelizmente, daquela época pra cá, a realidade pouco mudou. E isso vai te afetar. Mesmo que você não esteja no centro do problema.

Não estou aqui querendo equiparar dores, ou comparar problemas. Quero mostrar que os ferimentos se alastram como ondas, afetam todos em volta. Acontece que vejo que diante de tantos discursos e debates sobre o tema, se você não está ou se não se vê incluso no círculo de “vítimas”, sempre parece que o problema é lido como sendo exclusivamente de terceiros, de um grupo ou outro. Parece que, enquanto homem e hétero, estamos numa bolha de mundo perfeito, como se não tivéssemos mães, irmãs, filhas, namoradas. E como se qualquer coisa que as afete, não nos atingirá de forma nenhuma. Como se também não nos afetasse diretamente, de uma forma ou de outra.

Já conheci quem sofreu abuso na infância, quem apanhou na rua, quem já foi estuprada, quem teve que esconder quem amava, quem já teve que ir ao inferno para que o filho não crescesse sem um pai e etc. E o que eu senti, diante de tudo isso, foi o quanto a sociedade consegue ser nociva para algumas pessoas, sem qualquer justificativa plausível, por pura e simples insistência em erros. E o pior é que essas pessoas não são exceções, não são pontos fora da curva. Todas sofrem de situações que se repetem todos os dias, mas são ignoradas por apatia, fantasiadas de naturalidade, mascaradas em senso-comum, perpetuadas por omissão. E tudo isso é cíclico e atravessa a todos nós.

Não existe sentido em fazer parte disso. E está na hora de você também entender isso.


Eu escrevi esse texto pro dia 08/03. É a primeira vez que exponho esse lado da minha história e dessa forma, até mesmo para pessoas íntimas. Eu não ia postar por isso, pela exposição, e por também se tratar da história de vida da minha mãe. Após uma conversa com ela sobre isso, ela disse que eu deveria, porque: “é uma realidade comum e que acontece, aconteceu. Com isso talvez as pessoas se identifiquem e percebam essas coisas.” Quando comentei que havia escrito sobre o que escrevi, ela temeu que fosse sobre todas as falhas dela, as culpas que ela carrega por ter passado por tudo que passou. Me doeu. Então aproveito também pra dedicar isso à ela e afirmar, publicamente: Você fez o melhor de tudo que pôde e se hoje eu estou aqui e sei que tenho coisas boas em mim, foi graças a você.