Defeitos.

Ou partes de nós que não encaixam.

homem sob seus próprios escombros, por susano correia

Eu tenho um defeito horrível: eu sou intransigente. Não com tudo e nem sempre. Só com aquilo que mais apetece: a necessidade de mudar e ser sincero consigo mesmo. Autenticidade.

Lembro da minha ex quando falo disso. Ela chorou dizendo que eu não precisava estar sempre certo, mesmo quando estivesse. Soa irônico, né? Ela estava certa. E aquilo me quebrou em mil pedaços e até hoje não sei se juntei todos de volta.

Virou ex de toda forma. Mas eu internalizei aquilo. Mudei? Não tanto. Aliás, prego enfaticamente que nem todos são capazes de mudar e, mesmo os que são, nem sempre conseguem. Sou intransigente quanto a isso. Terminei dizendo que ela não mudaria. Vê-se agora que nem eu.

Descobri recentemente. Me envolvi com outra menina. Não queria compromisso, nada muito sério. Sexo e cafuné bastavam. Também sou carente. Era o que ela queria também. Tudo conveniente. Mas nunca captei quem era ela de verdade. Mas, mesmo indiretamente, cobrava isso. Gosto de gente efervescente, mas não lido bem com gente impulsiva. É uma relação íntima ao que parece.

Em constante auto-análise, vivo em reafirmações sobre quem sou. Mudo em tudo que consigo, mas só o que consigo. Como não mudei quanto a isso e quanto a ser, por vezes, intransigente. Outra ironia. Consequentemente esse meu jeito acaba por virar uma cobrança sobre quem me relaciono. A intransigência de ser transigente sobre quem somos: tentar melhorar, se adaptar, pensar antes de falar, de agir. Não ser estático.

A outra menina não virou ex porque não era compromisso, mas agora é só lembrança também. Ela me bloqueou depois de uma intransigência minha e impulsividade dela. Desbloqueou dias depois dizendo que sentia estar perdendo alguém importante. Me comoveu mas, intransigente que sou, tudo já tinha terminado pra mim quando me foi imposto o fim e tive que avisá-la que foi ela quem o demarcou, não tinha mais pra onde ir. Acho que ela não gostou. Mas nem todo mundo é capaz de mudar. Como sou intransigente, deduzi que ela não seria.

Me peguei pensando quão triste deve ser não conseguir ser sincero consigo mesmo e se arrepender depois. Eu sempre me jogo do penhasco de mim mesmo e mergulho de cabeça no que acredito. Mecanismo de autopreservação suicida. Me dói a ideia de negar a mim mesmo. Não dizer o que poderia ter sido dito, não ter feito o que poderia ter sido feito. São mortes lentas que prefiro evitar.

Todo fim é mais suportável quando temos a certeza que tentamos o nosso melhor — ou já tentamos o que achamos suficiente. Sempre penso isso, tento sempre ser o meu melhor, mesmo que pra isso eu volte atrás. Infelizmente isso não basta. Pro resto, geralmente sou intransigente.

Sei lá, defeitos.

homem com naufrágio no peito, por susano correia