Deslizes.

Ou: as coisas das quais gosto porque não sei definir o que são.

“- Ah, mas meu deslize favorito ainda é o do teu corpo contra o meu.”, ela disse. E meu olhos cruzaram o espaço entre nós mas não se retiveram na superfície da sua retina. Não, nessas horas a gente não tenta ver a parte física do outro, nessas horas queremos enxergar a verdade, as motivações, tudo que há por trás. Ou será só eu? Enfim, nesse caso eu queria enxergar todo desejo entre as entrelinhas tão espaçadas que abrigavam pinturas rupestres feitas de orgasmo e traços brutos de “não precisa ser mais do que já é” e concluir que era só aquilo. De novo.

E eu poderia falar de deslizes mais suaves como a propiciada pela mãe natureza envolvendo rigidez por vasodilatação e cavidades lubrificadas, romantizando enquanto cito descargas sinápticas e a base neuroquímica que cria a mágica da paixão. Mas não. Esse era o jogo dela.

Deslizes.

Ao invés disso eu rio com sarcasmo encarando o abismo entre o que é dito e o que fica implícito. Ou, como ela costuma dizer: eu complico as coisas. Eis uma verdade: complico e gosto de coisas complicadas. Graças a Deus e a isso, deu-se o nosso encontro. Meu analista diria que isso é fruto de questões mal resolvidas na infância onde não pude experimentar plenamente o ser criança e me habituei a me cobrar tanto que não encontro segurança em qualquer coisa que não esteja dentro da minha cabeça. Mas eu não tenho um analista. Quem sugeriu isso foi ela.

Deslizes.

Da última vez que ela esteve aqui eu acordei cedo, comprei pão logo após sair uma fornada, fritei dois ovos para cada, despejei a sobra de queijo que havia na geladeira e a chamei pro café enquanto ela se arrumava apressada. Foi embora sem tocar em nada. E eu assisti toda programação matinal sem sequer perceber que a TV estava ligada.

Dessa vez eu fiquei deitado assistindo-a deslizar pra longe dali. Um dia isso vai acabar, pensei. Mas eu sempre penso em nunca mais até que ela apareça de novo. É como se ela fosse passarinho e eu uma gaiola sem fundos e cheia de alpiste.

Tarde demais pra criticar os deslizes. Tudo bem. Se fosse sempre como planejo, não teria graça. No fim das contas a gente só se encaixa porque não se cabe mesmo.

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