Eu sou de Plutão, baby.

Tudo soa tragédia grega mas na real eu nem ligo tanto assim.

“Ratto di Proserpina”, de Gian Lorenzo Bernini.

Tenho cruzadas particulares. Nem sempre tô no mundo mas tô cá sempre questionando qual meu lugar nele. Tipo Plutão e o resto do nosso sistema solar. Tipo Hades e o resto do Panteão.

Nestes, ainda poucos, anos de vida, me relacionei com poucas pessoas. Mas vivi tudo conforme demandava o meu crer. Prego e prezo tanto pela famigerada autenticidade que talho a pele para expôr até as pequenas verdades que se escondem entre as artérias do antebraço; vê que o que te entrego vem bombeado lá do fundo do meu peito?

E irônico. Isso é irônico. A frase; tem algo em você que me afasta, embora eu queira estar ditas em pequenas variações. Repetidas tantas vezes por diferentes vozes. Já devia desconfiar que o problema era eu mesmo, não a insegurança alheia. A mesma aura enigmática que atraía, era a que afastava, me disseram.

Detalhe de “Ratto di Proserpina”, de Gian Lorenzo Bernini.

Um tempo atrás consultei a astrologia para ver se encontrava justificativa que explicasse esse meu campo gravitacional. Dentre todas as coisas que não entendi do que li, culpei Plutão na primeira casa. Sempre achei Hades injustiçado. E logo compreendi meu ímpeto: a força que reside no fundo e consome o que não mais apetece — destrói.

Que diferença há entre meus anseios e o rapto de Prosérpina pelas mãos de Plutão? Formas diferentes de chegarmos ao que é profundo mas, no fundo, dá na mesma.

De toda forma, nem sempre coube a mim. Por vezes eu só fui o arauto do fim — tal qual fui hoje, gravem! — anunciando o que antes concordava em negar, mas que já estava lá. Os pedidos de desculpa eu sempre aceito e guardo, frutos de atitudes nobres. Mas a rachadura permanece mesmo depois de remendar o vidro quebrado. E ela fica ali na minha cara, cuspindo verdades; aconteceu e acontecerá de novo. E eu não dou muito crédito pra astrologia, mas no espelho quebrado eu acredito.

Uma desculpa com conveniente uso da culpa das estrelas; — Eu sou de Plutão, baby. 
E sigo orbitando sozinho.