O que você está fazendo aqui?

Foi a primeira coisa que ouvi depois da porta abrir e eu só conseguir dizer Oi.

witchoria

Parada na minha frente, ela ostentava um semblante tão severo quanto confuso. Quase dava pra imaginar um letreiro na sua testa exibindo em letras de pixels cor amarelo-fluorescente; que porra é essa? E meu cérebro pareceu descobrir os segredos da mecânica quântica, vibrou dentro do crânio e se consumiu desaparecendo em um buraco negro. O efeito foi uma vertigem desgraçada e um zumbido agudo no ouvido. O coração explodia no peito clamando que o cérebro o levasse junto pra longe dali, do contrário ele faria minha cabeça explodir. Quem me dera eu também pudesse desaparecer ou o que restou da minha massa encefálica cobrisse as paredes daquele corredor.

Mas não.

Minha cara toda formigou e senti azulejos quebrados descendo na garganta, tudo sendo empurrado pro estômago que se revirava como ressaca de praia e cerveja quente barata. Por um instante pensei que o chão estivesse mofado e cedendo e, com sorte, o desabamento daquilo me tiraria dali me jogando no andar abaixo. Mas quando olhei pra baixo, tudo que vi foram joelhos trêmulos. Ao subir o olhar, evitei contato visual e observei as dobradiças da porta. E notei as lascas faltando na madeira. Desde sempre. A mãe dela vivia dizendo que ia trocar. Nunca trocava. Meus olhos correram pelo corredor logo atrás dela, tudo no mesmo lugar. Talvez eu ainda pudesse dizer onde ficava cada móvel e quadro pendurado. Mas mesmo assim, nada ali parecia o mesmo. A fronteira era a mesma, mas o lugar depois dali era outro.

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E aí eu a olhei. Os olhos de raiva, o cenho franzido. O letreiro agora piscava; rancor, rancor, rancor. E eu podia culpá-la? Nem a conhecia mais. Foi quando meu corpo pareceu desacelerar. Na verdade, tudo pareceu desacelerar. Como em um efeito de suspensão gravitacional igual naqueles filmes de Hollywood sobre viagem espacial. Senti o ar faltar só pra assim perceber que havia esquecido de respirar. Num segundo, meu cérebro retornou mas, ainda atordoado por suas novas habilidades de translocação no espaço-tempo, desligou. No segundo seguinte, ao religar, foi que eu percebi; o problema foi eu tentar voltar.

Levei o corpo físico para o lugar onde costumava estar mas o lugar para onde eu queria voltar só existia na minha memória. No fundo da minha cabeça ouvi a implosão de todos os prédios de lembranças romantizadas indo ao chão. E no meio do estouro dos escombros, a voz dela;

— Por que você veio aqui?

Questionou novamente. Só alguns segundos haviam se passado. Expirei o ar dos pulmões e os ombros, antes tensos, relaxaram.

— Me perdi. Já me achei.

Dei as costas e desci as escadas. Ela praguejou alguma coisa e ouvi o que pareceu um trovão anunciando a tempestade. Mas era só a porta.

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