Rom-eu.
Foi tudo um sonho teu.

Diz pra mim, Romeu, como é que tu se sente? Antes rei da racionalidade e da imagem de imponente. Se perdeu. Diz pra mim, Romeu, o que te aconteceu? Tudo que tu tem parece pouco e o que agora ocupa tua mente não parece poder ser seu.
Ah! Romeu. Eu já ouvi falar disso. Poetas versaram. Músicos cantaram. Suicidas... Bem, tu, entendeu. O mundo se torna vasto e como que uma vaca no pasto, pouco dessa imensidão te importa. Você só quer remoer o que trás esse gosto hora doce, hora amargo, à boca que sustenta uma risada forçada, morta.
E parece que nunca vai passar, não é, Romeu? Parece que o mundo resolveu conspirar contra e agora dá gargalhadas escondidas repetindo: se fodeu, se fodeu! E tu se fodeu mesmo, Romeu, mas o mundo não 'tá nem aí.
No entanto, uma coisa sobre essa dor que tu sente deve ser admitida. Essa coisa incontida e pulsante, que te torna quase decrépito, rastejante, não é culpa de ninguém além de tu mesmo. E a gente sabe que tu não escolheu, mas, veja bem Romeu: aconteceu. E ainda que inconveniente, há de se assumir que essa coisa que tu sente agora é só por ter experimentado algo que te fez sentir melhor.
Que parece ser a razão pela qual você nasceu. Justificar todo seu processo de formação e tudo que te aconteceu. Explicar quem você é. Todas as respostas n'outro corpo, no sorriso d'outra boca, na líbido d'outras coxas, questões que antes você nem sabia que tinha, Romeu.
Mas tu não 'tá num conto de Shakespeare e ela não é Julieta.
Pois é, Romeu. O mais comum é o impossível se mostrar com um não-querer. A gente pode tentar justificar e enfeitar da forma que for mas no fim das contas temos só que assumir: simplesmente não aconteceu. Não era pra acontecer. Não naquele momento. Talvez em momento algum aconteça. Mas quer saber, Romeu? Vale mais um peito que chora, ainda que só, do que um que desistiu, definhou e morreu. E embora eu não possa dizer que prometo, espero que um dia tu encontre alguém que vai pensar que, sem você, cianureto é salvação.
Therefore love moderately. Long love doth so.
Too swift arrives as tardy as too slow.
