Do Que Eu Falo Quando Eu Falo de Corrida

Roberto C. Padilha
Jul 23, 2017 · 3 min read

Tenho pensado bastante sobre o tempo. Algumas das leituras que eu fiz ultimamente tem trazido, direta ou indiretamente, reflexões sobre ele. Acho que isso é até algo natural, à medida que envelhecemos e que vivemos o suficiente para poder olhar para trás e examinar nossas decisões, os caminhos que tomamos e os que deixamos de lado; as pessoas de quem ainda nos lembramos e aqueles que acabamos por esquecer.

Numa realidade frenética, que nos faz sentir culpados pelo ócio criativo e reflexivo, em meio a uma enxurrada de fontes de repressão intelectual disfarçadas de entretenimento, é cada vez mais difícil se entregar a estes momentos de reflexão. Momentos em que realmente nos entregamos ao vazio e paramos de olhar para o mundo, para os outros, e olhamos para nós mesmos.

Para Haruki Murakami esses momentos vem entre os passos ritmados de uma corrida. Em uma escala (ainda) muito menor, tem sido assim para mim também.

Do Que Eu Falo Quando Eu Falo de Corrida — Haruki Murakami

Em “Do Que Eu Falo Quando Eu Falo de Corrida”, em meio a reflexões sobre a vida e o tempo, Murakami descreve sua relação com a corrida e com o esporte de alto rendimento, e suas influências no seu corpo, sua mente e seu trabalho ao longo dos anos.

De maneira bastante simples e honesta, como que em uma conversa entre amigos, Murakami nos faz refletir sobre a beleza de aceitar o tempo, o envelhecimento e as experiências, refletindo sobre a construção de caráter, filosofia de vida e o autoconhecimento que só podemos alcançar percorrendo os percursos tortuosos de uma vida completa, com altos e baixos, alegrias e decepções, sucessos e fracassos.

“Não me interessa quanto eu fique velho, mas enquanto continuar a viver, vou sempre descobrir alguma coisa nova sobre mim mesmo. Por mais que você fique ali nu se examinando diante de um espelho, nunca vai ver refletido o que existe por dentro.”

Manter-se jovem tem sido uma das obsessões do nosso tempo. Precisamos retardar a velhice, pensar e agir como jovens! Aproveitar a vida!

O risco de passar a vida toda tentando recriar momentos da juventude, procurando sentir novamente como já fomos muitos anos atrás, é aquele de um ator que passou tempo demais interpretando um papel, a ponto de de já não saber mais quem realmente é. É não se permitir sentir saudade e nostalgia, e é não perceber que a vida é cheia de oportunidades para aqueles que se permitem viver o momento, com a cabeça no hoje, e os olhos voltado para o amanhã.

“No quadro da bicicleta está escrito 18 Till I Die, uma canção de sucesso de Bryan Adams. É uma piada, claro. Ter dezoito anos até você morrer significa morrer com dezoito anos.”

Correr ainda é algo novo para mim. Mas muito além dos benefícios para a saúde, tem sido uma oportunidade de recalibrar os pensamentos, de recarregar as energias e de reencontrar o foco que preciso para o dia-a-dia. Assim como a meditação, tem me ajudado a deixar de lado aquilo que não posso (e não devo) carregar comigo, e voltar minha atenção e apreço aos pequenos milagres que acontecem todos os dias.

“E um dos privilégios concedidos àqueles que evitaram morrer jovens é o direito abençoado de ficarem velhos.”

O que Murakami fala, quando fala de corridas, vai muito além da sua paixão pelo esporte. Muito mais do que um livro de memórias, o que encontramos é uma declaração de amor à vida e ao tempo, de alguém que entendeu perfeitamente a beleza de viver e se deixar viver. Não como quem se dirige em direção à morte, mas como quem sabe apreciar o percurso da vida.

Roberto C. Padilha

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You know how sharks have to keep swimming or they die? I’m like that. If I stop reading, I die.

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