Conto #01

Os garçons andavam de um lado para o outro carregando bandejas e anotando pedidos nos seus celulares ou qualquer outro gadget eletrônico que servisse para isso. O local cheirava a salmão grelhado e especiarias. Uma iluminação alaranjada criava um ambiente confortável, combinando com as paredes vermelhas e o chão de madeira envernizada do restaurante. Haviam várias disposições de mesas para grupos e outras mais reservadas num canto para casais. O som do local misturava talheres e pratos batendo com conversas e risadas. Do lado oposto ao que nós estávamos sentados, um grupo animado de pessoas começou a cantar um “parabéns”, aparentemente para um rapaz jovem. Me lembrei do meu aniversário de 19 anos que também foi comemorado em um restaurante de comida japonesa. Não pude resistir e me distraí olhando para aquela família, perdido nos meus próprios devaneios enquanto levava mais um sushi até minha boca.

— Vem morar comigo.

Quase engasguei com o pedaço de sushi que estava mordendo.

—Ahn?

Olhei para frente. Ele me fitava com um sorriso desenhado nos lábios e um brilho de malícia no olhar que sempre surgia quando alguma ideia maluca estava por vir. Ou quando ele estava pensando em nós dois transando. A mão dele atravessou a mesa e pegou a minha. Ficamos alguns segundos em silêncio, os olhinhos dele piscando vez ou outra.

— É um sim?

Não aguentei e dei uma leve risada. Um ano e meio atrás nós estávamos nos conhecendo. Hoje, ele me pede para ir morar com ele. Era a história que eu sempre sonhei e nunca imaginei que poderia acontecer. Tive um vislumbre momentâneo dele chegando em nossa casa morto de cansaço do trabalho enquanto eu preparava o nosso jantar, para depois nos sentarmos na sala com os pés na mesa de centro bebendo uma cerveja e falando do nosso dia.

— Você tá doido — respondi — e isso não é um sim.

— Mas pelo jeito também não é um não — ele respondeu, apertando minha mão — Está considerando?

— De maneira alguma — respondi com um tom de deboche — Não vou morar com você.

Ele mordeu os lábios e franziu o olhar no meu. Mostrei a língua fazendo uma careta e olhei para o lado a fim de não fazer contato visual. No fundo, eu queria dizer que sim, que queria ir morar com ele. Mas haviam outras coisas que eu precisava resolver antes e uma vida a dois não ajudaria nisso.

— Mas que diferença faz? Você dorme lá em casa quase a semana toda e nos fins de semana que precisa trabalhar você também já dorme lá por ser mais fácil de chegar nos lugares. A única diferença é que agora você ia levar o guarda-roupas e a escova de dentes. E o playstation 4, é claro.

— Você quer que eu vá morar com você ou quer que meu playstation 4 vá?

— Bem… — ele coçou a cabeça fazendo uma careta — Os dois?

— Idiota.

Ele sorriu e balançou a cabeça em silêncio. Voltamos para nossa refeição e conversamos sobre outras coisas. Depois de algum tempo terminamos de comer e ele pediu uma xícara de café. Eu pedi mais um suco de maracujá. A família que havia cantado “parabéns” na mesa oposta começou a se retirar e pedimos a conta para uma atendente de traços asiáticos com cabelo preso em coque. Ela entregou a caderneta, nós dividimos o valor total em dois e finalmente saímos do aconchego do restaurante para a noite fria de São Paulo. Estremeci com o vento gelado e apertei o agasalho contra meu corpo. Sem perceber, ele me abraçou por trás e encostou o rosto nas minhas costas, murmurando alguma coisa.

— O que você disse?

Ele falou mais alto.

— Você sabe que eu falava sério, né? Sobre ir morar comigo.

Fiquei em silêncio, sentindo o corpo dele abraçando o meu numa tentativa de me proteger do frio paulista. Quando começamos a sair ele era muito reservado. Não falava muito da vida pessoal e demorou semanas até me convidar para conhecer seus amigos. De certa forma, ainda hoje, ele tinha alguns resquícios desse comportamento reservado, de momentos solitários que faziam parte dele, daqueles que não consigo ler seu rosto e nem adivinhar no quê ele está pensando. E eu havia me habituado a isso. Então sim, toda essa situação era estranha.

— Eu sei que pode parecer estranho — ele começou a falar, como se pudesse ler meus pensamentos — mas eu já estou tão acostumado a ter você por perto que nas noites em que você vai para a casa dos seus pais eu não durmo. A cama fica com um buraco enorme e nem colocando todos os travesseiros da casa no seu espaço isso é resolvido. Tem seu cheiro mas não tem você, não tem o som da sua respiração. E sabe, eu preciso dormir.

— Olha, não é que eu queira complicar, mas é que existem coisas e eu…

— Eu sei — ele me interrompeu — Quer dizer, eu não sei o que é, mas a gente pode resolver. Não pode?

Permaneci em silêncio e começamos a caminhar em direção ao metrô de mãos dadas. Fiquei confuso entre falar a verdade ou em insistir que não era hora, mas nunca fui muito bom em esconder as coisas mesmo quando era criança. Sempre optei por falar a verdade pois nunca soube como mentir sem dar risada. Parei de caminhar e ele se virou.

— São várias coisas — eu comecei a falar e sabia que ia ficar cada vez mais descontrolado e sentimental a cada palavra dita — Minha vida financeira não é totalmente independente e isso não é algo tão simples de se ajeitar. Para mim, vai faltar grana. Ir morar com você quer dizer que eu não ia conseguir te ajudar a pagar o aluguel e eu ia ter uma dificuldade tremenda com as contas, e não é justo ou certo largar tudo para você, mas por mais que eu faça meu melhor…

— Mas isso não é problema, você sabe. — ele insistiu enquanto se aproximava.

— É mas eu não acabei — interrompi ele — Isso é importante para mim, pois é minha independência e eu não quero depender de ninguém. Nem dos meus pais e muito menos de você, entende? E porra, não é só isso, eu tenho medo de um milhão de coisas. E se você não gostar de mim? E se você achar que eu não sou a pessoa que você pensou que eu era? Caralho, eu te amo tanto que tenho medo de você enjoar de mim se olhar para minha cara todos os dias, mas ao mesmo tempo — parei por um instante e senti que meu coração tava pra explodir naquele momento — eu também não durmo mais quando estou na casa dos meus pais e quero ficar o tempo todo com você. Só que eu tenho muito medo do que pode acontecer. Se você não gostar mais de mim e eu precisar de alguém em um momento difícil, com quem eu vou contar? Entende agora?

Ele ficou em silêncio com a expressão pensativa de quem assiste um filme muito cult e fica pensando a respeito do que acabou de ver nas cenas pós créditos. Por fim, ele me puxou para perto e me beijou, colocou as mãos no meu rosto e depois encostou a testa na minha.

— Eu sei, eu sei. Eu sinto o mesmo. Mas tenta não pensar tanto, pode ser?

Por fim, fomos embora. Chegamos na casa dele e largamos as roupas na sala, mas estávamos cansados demais para transar. Caímos no sono com minhas pernas entrelaçadas nas dele.

No dia seguinte, comprei uma escova de dentes e deixei no porta copos da pia do banheiro.