No Supremo não se faz justiça quando se quer, mas quando se pode”, aprendeu o ex-ministro Moreira Alves em seus 30 anos de corte. O atual decano Marco Aurélio, ao contrário, ignorou a lição ao deferir o pedido de soltura de André Oliveira Macedo, o célebre líder do PCC conhecido como “André do Rap”. Assim como soltou os presos em 2ª instância no final de 2018, outra vez Marco Aurélio atrapalhou uma nobre causa ao tentar defendê-la: em ambos os casos, a opinião pública interpretou as decisões monocráticas e sem discussão como meros atalhos a soltura de criminosos.

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Sem título [série pixel] (2016) de Éder Oliveira.

Não é novidade a obsessão de Marco Aurélio pela divergência e o voto minoritário. O mesmo ministro, inclusive, já tinha dado outros 15 habeas corpus parecidos, todos derrubados pelos colegas em plenário que discordam da sua interpretação do Código de Processo Penal. Eu, particularmente, concordo com a interpretação de Marco Aurélio tanto quanto com a lição de Moreira Alves de que não se faz justiça quando se quer, mas quando se pode. …


O recém-lançado livro do cientista político Jairo Nicolau — O Brasil dobrou à direita: Uma radiografia da eleição de Bolsonaro em 2018 — fornece instrumentos valiosos para a (re)compreensão da ascensão de Jair Bolsonaro ao poder. Muito além de interpretá-lo como um mero fenômeno eleitoral ou fabricado pelas “elites”, os dados apontam Bolsonaro como o político de direita mais popular desde a redemocratização.

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Piauí (2015) de Marina Rheingantz

Na eleição de 2018, embora derrotado pelo petista Fernando Haddad nos municípios mais pobres do Nordeste, o então candidato do PSL venceu entre os eleitores menos escolarizados das demais regiões do país (gráfico 01). E o principal: com uma votação muito superior às conquistadas pelos candidatos de direita no 2º turno das eleições anteriores (gráfico 02), razão pela qual Jairo afirmar que “uma das mudanças mais profundas de 2018 é a vitória de um candidato de direita sobre o PT entre os eleitores de baixa e média escolaridade. …


A nomeação do desembargador Kássio Nunes ao STF é rica em significados. Sem entrar no mérito do magistrado, o método da escolha diz muito sobre o atual momento do governo Bolsonaro. “Não posso negar minha decepção, não pela pessoa indicada, mas pela forma” afirmou a bolsonarista Janaína Paschoal (PSL-SP).

Segundo a Folha de São Paulo, Kássio foi sugerido ao presidente pelos senadores Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) e Ciro Nogueira (PP-PI). Em seguida, Bolsonaro jantou com o ministro Gilmar Mendes, o presidente do Senado David Alcolumbre (DEM-AM) e o ministro das Comunicações Fábio Faria que chancelaram o juiz piauiense.

Bolsonaro ao lado de parlamentares do Centrão no anúncio da prorrogação do auxílio emergencial (01/07).

Uma análise quanto ao papel desses cinco nomes no governo é instrutiva. A começar por Gilmar Mendes, o mais político dos ministros do Supremo e prestes a se tornar o decano da corte com a saída de Celso de Mello. A consulta de Bolsonaro a Mendes também atesta que o ministro está prestes a se tornar o novo interlocutor do governo no Supremo, especialmente agora que o “aliado” Dias Toffoli (também presente no jantar) está sendo substituído por Luiz Fux na presidência da corte. …

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Rodrigo de Abreu Pinto

Nascido em Recife. Formado em filosofia pela FFLCH-USP. Mora no Rio de Janeiro e estuda direito na PUC-Rio. Escreve às quartas.

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