Já não há surpresa com a falta de surpresa nas entrevistas de Paulo Guedes

Rodrigo de Abreu Pinto
Nov 4 · 4 min read

Domingo de manhã, abro o jornal, surpreendo-me com a entrevista do ministro Paulo Guedes na Folha. Dois dias antes, o presidente Jair Bolsonaro atacou o veículo, não sem antes cancelar as assinaturas do periódico no governo federal.

Fora isso, a entrevista não surpreende. Para além da arrogância e o besteirol de quem caracteriza o governo Collor como centro-esquerda, o ministro voltou a delinear os projetos do governo como quem atira para todos os lados. Também não surpreenderá, portanto, caso não acertem alvo nenhum.

Assim como as promessas eleitorais de “zerar o déficit em 2019”, “privatizar um trilhão”, “corta os subsídios” foram para o brejo, pode-se prever o mesmo às várias reformas que o ministrou apresentou numa tacada só. Na entrevista, Paulo Guedes anunciou 5 ou 6 PECs, relativas às “reformas estruturais”, e não explicou direito nenhuma — o que apenas reforça a nebulosidade que já acompanha o noticiário diário da equipe econômica. Será que não é hora de admitir que a “balbúrdia” também está dentro do ministério da Economia, ainda visto por muitos como a “ala racional” do governo?

Ainda na entrevista, Paulo Guedes reforça que a fusão dos ministérios “acabou o bate-cabeça”. No entanto, mais parece que a junção das três pastas (Fazenda, Planejamento e Indústria), hoje reunidas no mesmo ministério, são demais para um homem só. Só isso explica, afinal, o ministro se comunicar como quem fala várias línguas ao mesmo tempo.

Indo mais além: só isso explica a desorganização de quem que já anunciou várias propostas sem embasamento nenhum, que tão logo foram atacadas e sumiram do noticiário com a mesma rapidez. Em cada uma das reformas, por exemplo, o ministro pôs um desses elefantes na sala: a capitalização na reforma da Previdência, a nova versão da CPMF na tributária, o fim da estabilidade dos servidores na administrativa, a desindexação da saúde e educação na federativa.

O roteiro é o mesmo de sempre: lança-se uma ideia vaga; inicia-se um debate público entre secretários, ministros, imprensa e inclusive o presidente; até o momento em que alguém diz que não era bem assim (o que não raro induz a demissão de um bode expiatório, como ocorreu a Joaquim Levy e Marcos Cintra).

Desta vez, além das PECs, Paulo Guedes afirmou que estão formulando uma nova estratégia de privatização da Eletrobrás (a fórmula já mudou meia dúzia de vezes). Voltou a falar sobre o Plano Mansueto de auxílio aos Estados, originalmente concebido para estimular os governadores a aderirem a reforma da Previdência, mas que até agora não foi ao plenário. Revelou que vai adulterar a PEC do deputado Pedro Paulo (DEM-RJ), já em tramitação na Câmara, sobre os gatilhos da Regra de Ouro/Teto de Gastos.

Ainda sobrou tempo para criticar quem olha as “novidades” do atual governo e tão somente afirma que “Temer já estava fazendo”. Ora, se não bastasse figuras importantes do ex-governo que foram mantidas (como Mansueto Almeida no Tesouro), não é verdade que as realizações mais importantes são heranças do governo anterior? Basta enumerar: a reforma da Previdência, o acordo Mercosul-UE, as concessões do PPI e a liberação do FGTS. E não vou nem dizer que o 13º do Bolsa Família já tinha sido proposto em 2017 pelo ex-senador Lindbergh Farias (PT-RJ).

Ao final da entrevista, o ministro arremata: “Um menino, desde cedo, sabe que ele é um ser de responsabilidade quando tem de poupar. Os ricos capitalizam seus recursos. Os pobres consomem tudo.

Se não bastasse a insensibilidade (para não dizer cinismo) em afirmar que os mais pobres não poupam porque são irresponsáveis, Paulo Guedes desconsidera que a falta de demanda, que então debilita a economia, é consequência direta da redução do consumo da base da pirâmide. Não por outra razão, para além de reformas que só terão impacto (caso tenham) no longo prazo, o ministro deveria falar sobre as alternativas no curto prazo.

Nesse sentido, embora não mencione, o mesmo Paulo Guedes vem tomando medidas que demonizava no começo da gestão (liberação do FGTS; recursos do pré-sal por fora do teto; redução forçada dos juros via bancos públicos; descontingenciamentos). Se disso ele não fala, é porque quem fala muito dificilmente admite que também muda muito de ideia, então cala.

O problema, no entanto, é que o silêncio é proporcional a verborragia em termos de falta de coordenação e planejamento. Seja quando fala demais, seja quando cala, a economia que sente o verbo.