Identificando machismo em quatro atos cotidianos


Um dia com quatro oportunidades de identificar o machismo em falas e atitudes, aparentemente, inofensivas. Ou, um texto sobre o porquê ainda falaremos muito sobre feminismo!

Beleza como valor monetário

De saída, o simpático taxista que me leva para um evento comenta a situação de uma pedinte na rua. Inconformado, ele diz que “ela é bem bonita, e conseguiria arranjar algum trabalho bom”! Olha aí um caso de beleza como valor monetário. Porque, né, mulher que não é considerada bonita não tem direito a um bom emprego? Ou é apenas a aparência e não a competência que nos garante acesso ao mercado de trabalho? Já disse Naomi Wolf: “a beleza é um sistema monetário semelhante ao padrão-ouro”.

Falas inocentes (?) e cultura de estupro

Em seguida, ouço uma analogia machista: “tem que bater a massa sem parar. É como mulher de malandro, quanto mais bate, mais ela gosta”. Oi? Não dá. Precisamos parar de normalizar esse tipo de pensamento. Isso é cultura de estupro. É dissociar a violência contra a mulher e transforma-la em piada. São essas expressões comuns que mostram como estamos acostumados a naturalizar comportamentos violentos de forma muito sutil. Daí, quem obviamente não acha graça, é que parece errado ou politicamente correto. Mas não dá pra esquecer que a violência doméstica mata e no Brasil corresponde à metade dos atendimentos realizados no SUS em mulheres de 15 a 59 anos. Isso sem contar todas as mulheres que não procuram ajuda justamente para não passarem a “vergonha” de serem taxadas de “mulher de malandro”.

Gordofobia e Prisões Estéticas

Ouço uma menina dizer que era muita “gordice” comer um pão. Falamos no hangout do Conexão Feminista com a Flávia Durante, jornalista e criadora do Bazar Pop Plus sobre a dificuldade de explicar a razão pelo qual esse termo é muito ruim. Vai lá assistir a explicação linda dela. Mas também reforço aqui: associar gordo sempre à comida (normalmente fazendo referência à compulsão e descontrole) é generalizar um grupo de pessoas que já é marginalizado apenas pela aparência. É um modo de desumanizar. É o mesmo que dizer que qualquer ato criminoso seria coisa de negro (“negrice”, por exemplo). Ou a mesma coisa de dizer que todo comportamento de reivindicação é histeria de mulher (tá parecendo “mulherzinha”). E o que isso tem a ver com feminismo? Tem a ver que combater a gordofobia é também uma pauta pela liberdade de amar a si mesma, independentemente de padrões estéticos impostos. E isso é feminismo.

Machismo na ciclovia

E pra fechar o dia, sou fechada por um ciclista. Deliberadamente fechada. Para “me proteger” ele impediu minha passagem de um jeito bem brusco. Indignada, falei pra ele me dar licença. Ao que ele justifica, dizendo que o farol estava fechado!! Oi? Quem é esse fulano pra decidir se eu atravesso ou não no farol vermelho? (e, a propósito, não tinha carro nenhum passando). Insisto em passar e ele responde: quer se matar, se joga no trilho do trem! Oi, de novo? E se eu quisesse me matar? Quem é essa pessoa para interferir na minha vida? Na boa, ele teria essa mesma atitude com um homem? Duvido! Homens: eliminem a necessidade de controlar o espaço que vocês acham que uma mulher deve ou não ocupar no mundo.

Se você consegue identificar situações de machismo no dia a dia e quer falar sobre como age para ser uma feminista praticante, participa do nosso vídeo colaborativo do Conexão Feminista! É só enviar um vídeo curtinho para o e-mail conexaofeminista1@gmail.com contando o que você faz para colocar o feminismo em prática!