Notas do aprendizado de um financiamento coletivo

Compartilho algumas descobertas de quem passou pelo primeiro (e bem sucedido) financiamento coletivo. Foram dois meses pedindo dinheiro pra realizar um projeto pessoal. E se você quer se meter nessa empreitada, leia essas notas:

- Não faça isso se você já for ansioso do tipo patológico. É uma aflição sem fim. Só recomendo se você estiver conscientemente preparado para a frustração de talvez não alcançar a meta e ainda assim manter o entusiasmo e se dispor a fazer o possível até o fim.

- Também não recomendo a ninguém fazer isso sozinho. Jamais teria feito um financiamento coletivo sem a Helô. Jamais. Na verdade eu recomendaria que você fizesse apenas com ela, que tem uma energia e um foco impressionantes. Ter alguém para dividir essa trabalheira é necessário por demais, pela logística, pelo emocional (principalmente pelo emocional), mas também pela chance de ampliar a divulgação pra mais gente.

- Pedir é difícil. Pedir mil vezes é ainda mais. Porque desde sempre a gente aprende que ficar pedindo é feio. E pedir dinheiro, então? Vixe… É terrível! Desconheço quem aprendeu na escola como pedir dinheiro para realizar seus projetos, por exemplo. Então, é um troço que chega a doer se você não tem a veia comercial. Ao mesmo tempo, a real é que a gente se constrange beeeem mais que os outros.

- É preciso repetir mil vezes a mesma coisa. Jesuis. Sem propaganda não vai. Tem que falar, falar, falar. Tem que se vender e bater no peito. E falar, falar, falar. E postar. E fazer stories. Socorro. Isso porque no meio de tanta informação e notificação, as pessoas perdem os nossos pedidos facilmente. A gente sabe que já disse aquilo trocentas vezes porque estamos vivendo o processo, mas os outros não. Então, tem que repetir mesmo e ainda terminar a arrecadação e ouvir: mas já acabou (?), porque você não avisou? Ai, ai…”repetir é dom de estilo mesmo”!

- Boca a boca: é tudo nessa vida! Não há ferramenta de marketing digital que substitua isso. Comprovamos a rede incrível que temos, pessoalmente, cada uma entre seus conhecidos, e com a própria Conexão Feminista. Sem cada uma das indicações e compartilhamentos de posts a gente não teria conseguido!

- Ajuste as expectativas: você vai precisar encher mais o saco do seu amigo do coração pra conseguir uma doação do que de um estranho. Acredite! Não leve a mal, mas esteja preparado.

- As pessoas só querem ajudar: há gente estranha e desconhecida que quer ajudar. É uma coisa linda e assustadora. Elas querem ajudar para ver o projeto acontecer. E nem é pela recompensa. Chega a cair uma lágrima de emoção.

- As pessoas querem ajudar sempre mais: e, às vezes, justamente por isso,, não ajudam nada. É um paradoxo, mas é a crença de que o que elas podem fazer é pouco demais pra ser feito. Gente: nenhuma ajuda é pouco. N.E.N.H.U.M.A. Repito: N.E.N.H.U.M.A! Um compartilhamento da campanha, uma indicação pra amiga. Isso é muito. Muito. Muito mesmo!

- Às vezes as pessoas querem ajudar de um jeito torto: um jeito que não é exatamente o que você precisa. Aprendi que todas as vezes que eu for ajudar alguém eu vou perguntar: como eu posso te ajudar? E se eu não puder fazer o que a pessoa pediu, então, não faço. Porque se ofereço algo que não é o que a pessoa está pedindo, então não é uma ajuda. Na verdade estou criando um outro problema (constrangedor diga-se), que é o de ter que te dizer que sua boa intenção é boa, mas não basta (só que com outras palavras pra não criar climão…sentiu o trampo?).

-É um termômetro do seu impacto: realizar um financiamento coletivo é saber se o que você faz importa. Cada doação funcionou como um soco no peito da síndrome da impostora que funciona com aquela voz interna maldita e que insiste em minimizar o que a gente faz. É incrível perceber que os outros espelham um reflexo nosso melhor do que o nosso para nós mesmas. Obrigada por nos ajudarem a ajustar as lentes com que enxergamos nosso trabalho!

Um viva!

E boa sorte na sua campanha!