Métricas

Acordou assutado, parecia tarde. Olhou no celular de relance e percebeu que estava certo. Mais uma vez batia o recorde de horas na cama. Até quando seria assim? Sentia saudades de ter uma hora para deitar e levantar, uma rotina que antigamente parecia sufocante, mas que agora fazia falta, como um vazio que achava ter vencido.

Ficar reclamando na cama não vai ajudar”, pensou. Foi se trocar e comer algo. Começou a pensar na quantidade de coisas que precisaria fazer naquele dia, e ficou preocupado. Muita coisa para pouco tempo, uma daquelas contas que não fecha. Pegou um pedaço de papel e anotou o que precisava realizar, para ver o que priorizaria.

Um dos itens era fazer as contas do mês. Abriu a calculadora do celular e já começou a listar o que vinha mente. Percebeu que essa seria outra conta que não fecharia. A preocupação era visível em seu rosto. Logo o seu saldo seria negativo. Mais um número para se preocupar.

Para não ficar absorto em sua situação ruim, saiu de casa, buscando novos ares e uma forma de tranquilizar a mente. Enquanto andava pelas ruas estreitas daquela cidadezinha, lembrou há quanto tempo morava nela. Um pequeno sorriso se desenhou nos cantos de sua boca. Era uma sensação gostosa na mente pensar em algo bom como foi o fato de ter parado naquele lugar, como se fosse uma decisão dos deuses para ele.

Enquanto descia naquela rua de paralelepípedos sem um destino certo, pensou nas coisas que haviam acontecido em sua vida depois que chegou naquele lugar. Agora novos números apareciam em sua mente. Nessa altura já começara a acumular elogios pelo seus trabalhos realizados na cidade, e começou a considerar que aquilo era uma das melhores coisas que tinha acontecido em sua vida.

Mesmo sem intenção, sua mente começou a contabilizar também o número de lugares que havia visitado na região. Sim, aquilo era algo que o fazia bem, memórias que mostravam uma história em pleno curso. Em dado momento da caminhada, observou um grafite em um muro roto e resolveu fotografar. Ao pegar o celular, passou os olhos pelas outras fotos que já haviam ali e percebeu como havia se tornado um fotógrafo amador depois de chegar naquele local.

Ali, naquele momento, parado com um rosto de plena contemplação e com o celular prestes a bloquear a tela, percebeu que eram aqueles números que importavam.

Agora era possível perceber que o problema não era a sua vida em si, mas as métricas que ele utilizava para medir seu sucesso.