Imóvel

Me impedi de abrir a garrafa naquela noite, não podia bagunçar meus pensamentos, já estava com a cabeça suficientemente atormentada pelo passado, não precisava de nenhum aditivo para dificultar o entendimento e afinar a dor. As músicas já faziam o suficiente para sua noite ser complicada, as lembranças vieram, torrencialmente, sem pedir licença ou sequer dando perdão à pobre alma daquele que transcrevia tanto de si mesmo e ainda assim conseguia enigmatizar o suficiente para que ninguém lhe conhecesse realmente.

A vontade de beber se sustentava em pilares mais firmes que sua própria consciência jamais conseguira. Afinal, Bukowski bebia para compor suas obras primas, bebia para esquecer, bebia para lembrar, bebia para amenizar e bebia para beber. Ébrios são seus maiores sucessos, provavelmente rascunhados com algo parecido a uma receita médica de qualidade duvidosa, daquelas que receitavam cigarros para o stress e bebidas para a insônia. Como sonhava em ser grandioso, em viver daquilo, em não depender de um sistema no qual não acreditava e no qual jamais poderia confiar.

Não conseguia entender todas as pessoas, mas principalmente as que mais entendia eram as que mais lhe causavam reflexão. Como poderia ele entender alguém que se escondia atrás de letras ambíguas de artistas como Lana Del Rey, quem dera poder ver através das distorções que a caretice lhe impuseram, quem dera poder usar sua loucura sóbria, que sobrepujaria qualquer alcoólatra que tivera a oportunidade de conhecer. Sua imaginação fazia tudo que os simuladores de realidade prometiam e não cumpriam, lhe transportava no espaço-tempo de forma quase imediata, e o álcool embaralhava isso, às vezes para o bem, às vezes para o mal, jamais encontrou a dose certa para ir apenas em uma direção. Ah as aspirações. Eram elas que lhe mantinham firme, sem desistir, tudo aquilo que disseram que ele jamais alcançaria, somado à tudo que as pessoas que nele criam falavam que era o mínimo para si.

Tinha mais dúvidas do que a maioria das pessoas, e mais certezas também, seu problema estava em processar todos os desdobramentos de cada caso, isso lhe tirava o ‘timming’ e acabava por embaralhar todas as suas certezas. E mais uma vez se via perdido, sem saber pra que lado olhar, como se jamais tivera estado ali, e realmente, aquela versão de si jamais estivera. Pensou em largar toda essa história de escrever, e efetivamente largou algumas vezes ao longo do caminho, mas sua vocação sempre falou mais alto, e então voltava como se tivesse apenas saído para fazer compras no mercado, e ao dar-se por conta ele estava lá sentado, repetindo tudo mais uma vez, esperando que, com os mesmos passos, fosse parar em algum lugar diferente, mesmo que por obra do acaso. Jamais aconteceria tal evento, não enquanto não trocasse sua acomodação, preguiça, vergonha, pelas qualidades que tanto prezava, obstinação, coragem e resiliência.

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