as mil e uma noites…

…ou (título alternativo): histórias que jornalistas contam e que fariam o cara do bigodinho engraçado rir. As grandes massas do povo caem mais facilmente numa grande mentira do que numa pequena, não é mesmo? Assim espalhou-se o mito de que o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães era de esquerda, contrariando todo pesquisador sério que já tenha se debruçado sobre o assunto.

I

Saiba que não sou ninguém, apenas uma curiosa sobre o tema, pós graduada em Relações Internacionais (título serve pra alguma coisa quanto ao lugar de fala?…). Século XXI, então não alegue desconhecer algo — se você está lendo este texto, de alguma forma acessa internet… use-a para pesquisas, checagem de fontes. Em tempos de google, engolir verdades prontas sem pesquisar e refletir sobre o assunto configura sedentarismo mental?

Mito. Equívoco. Não que Stalin e Hitler fossem muito diferentes. Cada um na sua, com seu caráter totalitário em comum. O nazismo inclui-se no rol dos chamados fascismos, que tinham como características comuns serem regimes autoritários antiliberais, antidemocráticos e anti-socialistas, cada um com suas próprias especificidades nacionais e históricas.

No caso alemão, a retórica precisava levar em conta um poderoso movimento operário e sindical, daí a apropriação pelo regime de um lay-out socialista. Discurso de Hitler em 1943: “O Estado nacional-socialista trabalhará ainda mais energicamente no futuro a fim de realizar um programa que deve conduzir à eliminação das diferenças de classes e ao estabelecimento de uma verdadeira comunidade socialista”. Em Tricks im Kampf um den Wähler (truques na luta pelos eleitores), Hitler explica como os nazis deveriam se apoderar dos métodos marxistas de propaganda: “1- Da mesma forma que os partidos marxistas, devemos utilizar cartazes políticos em vermelho gritante; 2- devemos ter caminhões com alto-falantes, e saturados de cartazes com muitas bandeiras vermelhas; 3- devemos cuidar para que os membros do partido não compareçam às reuniões de terno e gravata e também não muito bem-vestidos, para evitar a desconfiança dos trabalhadores […]”.

Em resumo, identificam o fascismo enquanto regime: antiliberalismo, antimarxismo, organicismo social, liderança carismática e negação da diferença. O fascismo tinha caráter metapolítico, mobilizado para a incorporação da nação, dos corações e mentes da massa, numa concepção de mundo única, excludente.

***essa parte I inclui trechos DESSE TEXTO do meu falecido blog***

II

Quer dizer…

Século XXI. 2017.

Totalitarismos não são bonitinhos, fofinhos como bichinhos de pelúcia. Venham de qual direção politica, ideológica ou religiosa vierem. São feios. Asquerosos. Não devemos sequer flertar com eles. Pensemos em democracia no sentido da palavra, não na praticada pelos gregos (na prática, excluía mulheres, estrageiros e escravos). Pressupõe debate — não silenciamento de ideias. Respeito — jamais ódio. Direitos (para todos!) — não sem deveres (!), porém.

Não custa lembrar, dentre outras coisas, que as primeiras adesões ao nazismo (e aos fascismos, em geral) sugerem uma tendência anticapitalista que aparenta, no início, ter um caráter revolucionário. Entretanto, aparências enganam…

A aliança com os setores mais conservadores, ligados à grande indústria monopolista, aos bancos e às finanças em geral, pode explicar o fato desses partidos terem chegado ao poder por via legal. É interessante notar que, apesar de o verdadeiro poder vir da oligarquia e de nesses movimentos se encontrarem adeptos de todas as camadas sociais, inclusive proletários, é da classe média que saem os elementos que formarão os principais quadros. A fúria da adesão pequeno-burquesa talvez se explique pela constante ameaça de proletarização em momento de crise.

Tanto Hitler, quanto Mussolini, queriam despertar convicções, não debater ideias. Os princípios não são tão importantes para eles quanto o envolvimento no sistema e a adesão a ele. A preponderância desse antiintelectualismo fará descambar a ação para o fanatismo e a violência. Deriva daí uma visão irracionalista do mundo, calcada na promessa de doação de uma sociedade melhor.

Ambos os movimentos se acham orientados por um nacionalismo exacerbado, nascido do desejo de tornar a nação forte e grande, auto-suficiente, com um exército poderoso. A concepção nacionalista tem um caráter idealista e critica a interpretação materialista da história, típica do marxismo. A luta de classes é substituída pela solidariedade nacional: só uma nação unida será forte o suficiente para substituir ao caos.

Quer dizer…

Século XXI. 2017.

***essa parte II inclui trechos DESSE outro TEXTO do meu falecido blog***

III

Olhe para essa foto (a única imagem a ilustrar esse textão!). Ambos falecidos. A jovem se chamava Maria. O rapaz de olhar penetrante, Heinrich. Meus avós. Alemanha, pós segunda guerra. Antes de virem ao Brasil. Não parece, mas poucos anos antes ela foi hóspede em Ravensbrück. E ele perdeu a primeira família num bombardeio aliado. Ela gostava de mostrar fotografias antigas e contar histórias. Dizia que brasileiros desperdiçavam comida. Era polida com todos. Ele me mostrava músicas (alemãs e clássicas) e filmes. Ela cozinhava gostosuras de lá e daqui. Ele bebia cada vez mais (lembranças dos horrores que viu de perto?). Cada um lidava com o stress pós traumático à sua maneira.

Por motivos pessoais, nazismo é um assunto que me interessa. (Olha meu lugar de fala de novo?). Dos vinte anos de crise aos anos posteriores escritos por Arendt ou Adorno. Tenho até um livro que questiona se não teria ocorrido, na realidade, um holocausto alemão: os alemães enquanto vítimas dos aliados (não deixam de ser, enquanto povo, se pensarmos nas cidades ~civilians~ bombardeadas…). Os Direitos Humanos, como os conhecemos, não nasceram no pós guerra por acaso. Deem uma olhada na Declaração de 48.

Parem de relinchar. Nazi não tem nada de esquerda, embora totalitário. Não tem nada de bonitinho em chamar os outros de nazi qualquer coisa nem em se identificar como nazi whatever. Não é sequer criativo. Há bastante esquerda totalitária asquerosa naquele século XX. O nazismo… nazismo é outra coisa. E se acham que Direitos Humanos significa defender bandido… é porque a humanidade anda esquecida da primeira metade do século passado.

Não é da esquerda ou da direita que devemos ter medo. É do totalitário. Das falsas informações, tanto quanto do silenciamento. Da anti-democracia. Recorram a 48… Pensem no que lhe deu origem, nos milhões de soviéticos mortos, em Hiroshima. Único flerte do bigodinho à esquerda foi o molotov, que o próprio fez questão de rasgar. Vocês acham que Roosevelt e Stalin se curtiam? Tinham um inimigo comum — nada além disso e uma guerra fria logo após para confirmar.

Sejam democratas, peloamor. Deixem esses seus fascismos mofados de lado — à direita e à esquerda. Democracias saudáveis pedem espaço para diálogo e debate (de ideias, não de pessoas; de estudos e pesquisas, não de crenças; pessoas e crenças são subjetivas). Um coletivo saudável inclui, necessariamente, a economia e o meio ambiente. Direitos Humanos — com pragmatismo.

Se eduquem, enquanto formadores de opinião, antes de propagarem informações equivocadas. Tenham mais responsabilidade. Ponto de vista (opinião) é uma coisa; propagar inverdades é outra. Se eduquem, enquanto público, antes de acreditar em qualquer ruminante. Chamar nazismo de esquerda é ofensivo aos neurônios. Chame do que é, para alertar sobre todos eles: totalitarismo, fascismo. Educação é a chave.

vídeo (em inglês): Behind the lies of Holocaust denial

“Para a educação, a exigência que Auschwitz não se repita é primordial… Mas o fato de a exigência e os problemas decorrentes serem tão subestimados testemunha que os homens não se compenetraram da monstruosidade cometida. Sintoma esse de que subsiste a possibilidade da reincidência, no que diz respeito ao estado de consciência e inconsciência dos homens” Theodor Adorno, 1974

“Em vez de se ficar consolado com a ideia de que eventos recordados pelo julgamento de Eichman foram exceções à regra, seria mais proveitoso investigar as condições nas civilizações do século XX, as condições sociais, que propiciaram barbarismos desse gênero e que poderiam favorece-los de novo no futuro” Norbert Elias, 1992