feminista não

Mulheres tem útero. Trompas. Ovários. Vaginas. Mulheres menstruam. Mulheres engravidam. Dão à luz. Amamentam. Fatos da vida, daquele tal cromossomo XX. Fatos biológicos. O fato social é que nossa opressão vive umbilicalmente ligada ao sexo biológico. E, aparentemente, para algumas almas sebosas, falar sobre essas particularidades do sexo feminino é transfobia. Seria cômico, não fosse trágico.

Aproximadamente 50% da humanidade nasce mulher. Não existe auto identificação ou sentimento — a partir do momento em que o medico diz “é menina!”, somos lidas e socializadas como mulheres, quer nos identifiquemos como tal ou não. Sexo biológico, sabe? Não preciso me sentir mulher. Tenho útero, vagina, essas coisas transfóbicas da qual não podemos escapar nem mesmo quando passamos a nos identificar como homens (beijos pro Tammy!).

nota: dou minhas cólicas pra quem as quiser — doação 0800 — não aceito devolução

Houve um tempo no qual o tal cérebro feminino foi usado para nos colocar em nosso lugar. Quando essa conversa era sobre homossexuais, a comunidade LGBT chiou afirmando que não existia cérebro gay, não existia cromossomo gay (o que concordo, obviamente). O que mudou para começarem a validar a existência de cérebros fêmeos e machos? Não parece um retrocesso tanto quanto medieval defender a existência de cérebro feminino e cérebro masculino?

Historicamente lutou-se contra a concepção essencialista de que mulheres têm um cérebro feminino e por isso seriam frágeis, dedicadas à maternidade e ao cuidado, e homens possuem cérebro masculino, por isso seriam fortes e agressivos. Essa visão define fatores biológicos para questões socialmente construídas. Foram séculos de luta das mulheres para provar que não somos fisicamente incapazes ou biologicamente inferiores. Atualmente, se uma criança gosta de rosa e brinca de boneca ela só pode ser uma menina? Se eu gosto de artes marciais, meu cérebro é masculino?

dicas de leitura:

Chamando todos os cérebros femininos: Parem com o “Neurosexismo”

The Misogyny of Modern Feminism

Quanta bobagem! Feminismos envoltos em psicodelia grave? Depois de ler e assistir bastante coisa sem noção, passei a não me identificar como feminista. Vergonha alheia define. Mulheres apanham, são mortas, violadas, traficadas, passam por mutilação genital… Estupro é arma de guerra, lembram? Não posso deixar de ser a favor dos direitos das mulheres jamais, mas deixei o feminismo faz tempo. Womanist sounds better than feminist (palavra em português para womanist?).

dicas de leitura:

6 razões porque tantas mulheres questionam o movimento feminista

Ativismo efetivo: como tornar o feminismo eficaz?

desafio: ache alguma mensagem ou publicação na qual eu tenha tratado ou falado de uma mulher dessa forma. Valendo!

No sétimo país em mortes de mulheres e primeiro em mortes de trans (ambas em razão de seu gênero), ativistas apontam transfobia nos absorventes e cólicas menstruais. Parabéns aos envolvidos! Seria cômico, não fosse trágico. Mulheres que dizem lutar pelos direitos das mulheres atacando mulheres, em vez de se unirem para lutar contra o perpetrador dessa violência. Roosevelt e Stalin não nutriam grandes simpatias um pelo outro, mas tinham Hitler como inimigo comum. #ficaadica

Essa desunião expressa sintomas de uma natureza mais genérica: a desunião das minorias como um todo. Um fascista sorri a cada rixa entre um gay e uma travesti; entre um negro e um nordestino; entre um indígena e um sem-terra; entre uma feminista radical e uma transativista. Percebe? As minorias deveriam se fortalecer, juntas, em vez de ficarem se ofendendo ou procurando tretas. E não bastasse a desunião, investem na agressividade.

Ativistas agressivos prestam um enorme desserviço às suas causas. São, em alguns casos, piores do que os opositores destas causas. Envenenam os movimentos por dentro, causam antipatia às suas causas onde quer que abram a boca. Distorcem motivações e embasamentos teóricos por conta de um misto de ignorância e vontade louca de atacar os outros e se provarem superiores aos não iluminados. Esse tipo de gente existe em todos os movimentos — mudam as bandeiras, mas a estupidez e a imaturidade intelectual são as mesmas. Um presente para quem quer ver sua causa naufragar.

Certos segmentos ativistas parecem se esforçar para afastar possíveis aliados. Meus caros, não sejam os mesmos monstros que querem combater. Ou melhor: sejam sim, já que pelo visto vocês dão as cartas, detêm o poder e prescindem de aliados. Não sou eu, causasiana com nacionalidade europeia e hetero, que deveria me preocupar com o naufrágio, não é mesmo? Acordem.

leia: Os novos carolas — como ativistas irracionais prejudicam suas causas

não se pode mais comentar no perfil de amiga do facebook que os stalkers da amiga enviam inbox carinhosos?

notas:

Isso não é exatamente um texto e está mais para fragmentos ao redor de um mesmo assunto.

As imagens que ilustram esse não-texto são prints de mensagens amorosas que eu e outras mulheres recebemos. Motivo? Comentamos sobre menstruação e cólica no perfil de uma mulher. Remetente: transativista que usou um perfil fake para tal. Já sei quem é essa pessoa, seu ip, seus links de instagram, canal do youtube, Facebook… Poderia expor, mas prefiro dizer apenas o seguinte: as pessoas trans não merecem esse tipo de representante falando em seu nome e carbonizando seu filme.

AQUI a postagem sobre essas mensagens no meu face (aviso: contem textão!).

**para quem se interessa: AQUI uma compilação de textos sobre a Historia das Mulheres (no Ocidente)***

curiosidades: Associação médica recomenda evitar chamar grávidas de “mães” para respeitar transsexuais e Please explain how this transgender madness empowers women