o mito da beleza

I

Dani era uma mulher nos seus 30 e poucos anos. Mãe de três. Solteira. Moravam, ela e os três, no apartamento apertado da mãe dela. Lá moravam também a irmã e sua filha. Três quartos e o quartinho de empregada. Desempregada. Sem curso superior completo. Esperava, há algum tempo, o resultado de um processo. Pensão alimentícia retroativa ou algo do tipo, relacionado ao pai de seus filhos.

Um dia saiu o resultado! Dani finalmente poderia dar uma aliviada na situação financeira com o dinheiro a receber. Investir… Voltar para a faculdade… Pagar dívidas… Um plano de saúde para ela e os filhos, talvez? Muitas possibilidades! Fazer uma viagem? De repente, ela deu uma sumida. Algumas semanas desaparecida, sem dar notícias. Normal. Período de férias escolares. Fazia sentido ela dar uma sumida. O contexto parecia tranqüilo, favorável.

A encontrei por acaso. Vestido vermelho, justo, decotado. Meio da tarde. Empinada. Confiante. Me cumprimentou, abraçou. Fiquei um pouco desconcertada, admito. “Amiga… coloquei silicone! Você não reparou?”. Disse uma Dani sorridente, orgulhosa e feliz, colocando as mãos nos peitos para me mostrar. “Já vou sair com um gato amanha — ele é rico!”. É… Sorri sem graça. “Ficou ótimo”, elogiei sem demonstrar entusiasmo. Em que ponto a sociedade deu errado?, pensei em minha cabeça.

Sou uma incrédula. Cada vez mais incrédula, apesar de. Racionalizo. Entendo. Me identifico mais do que gostaria, embora questione. Quantas vezes eu mesma quase não caí nessa cilada? Incrédula define. E com todos nós, enquanto humanidade, por normalizarmos o silicone (…essa metáfora de um todo adoecido pela aparência…).

II

Por quê? Por que conheço gente que deixou de pagar dívidas ou de comer certos alimentos? Corpo é religião e comida virou inimigo e culto num grau com ecos de Idade Média. Index de alimentos proibidos. Por que conheço quem faz jejum intermitente e ignora o futuro de sua tireoide? Até quando pessoas continuarão acreditando em dietas mirabolantes e em milagres? Daqui a pouco vão fazer a dieta de Cristo e passar 40 dias em jejum no deserto?

Não basta plastificar, tem que morrer de inanição. Esfomeadas de autoestima de um lado, oportunismo e gente pregando o que dá mais dinheiro (com a justificativa de que ciência evolui) de outro.

“A sociedade ao longo dos tempos sempre procurou estabelecer padrões estéticos e comportamentais aos seus indivíduos. Estes padrões variam de cultura a cultura e vão se alterando, pressionando as pessoas a se adaptarem de maneira a serem aceitas. Atualmente, há uma divisão de padrões estéticos, entre o corpo malhado de grande massa muscular e a referência da moda, muito magra e alta. O bombardeiro da mídia com esses padrões esteticamente perfeitos tem reflexos como a venda desenfreada de suplementos e medicamentos emagrecedores, intervenções cirúrgicas e a prática de atividade física desordenada, entre outros. Nesse contexto, no qual impera uma ditadura estética, há um crescimento de distúrbios relacionados à alimentação e à imagem”. Trecho DAQUI

Isso não é inocente — nada no que diz respeito a padrões estéticos e comportamentais é inocente. Cuidar da saúde? Se alimentar de forma mais saudável? Não ser sedentário?… Tudo isto é ok e o corpo, nosso templo sagrado, agradece. Mas a quem interessa uma obsessão pelo corpo perfeito? A quem interessa tanto foco no corpo pela estética, não pela sua funcionalidade? Defesa da saúde? Entre desculpas perfeitas e dicas amigas, sutilmente a sociedade nos doutrina (e é doutrinada!). Quem lucra com isso?

Suas conquistas profissionais, acadêmicas e pessoais já importaram menos do ter o equilíbrio certo de curvas, a pele lisinha, aquele lábio, o cabelo sem frizz ou até a bochecha certa? Seu namorado, sua família, seus amigos… já te cobraram pelo seu bem ou pela nóia deles mesmos? O quão entorpecidos e contaminados estamos, enquanto sociedade, nessa espiral ao redor do corpo?

III

Qual a profundidade da espiral de ignorância na qual as pessoas escolhem continuar? O que explica a acensão da profissão de blogueiras e musas fit no Brasil, a partir da difusão do instagram por aqui? O que explica gente que acredita no que qualquer influencer diz, mas não pesquisa e não pergunta a especialistas? Tempos de Google, tudo à distancia de um clique. Paradoxalmente, tempos sombrios. Crenças crescem e se multiplicam como praga endêmica. Uma epidemia ululante de religiões e seus dogmas! Força, fé e foco — ignorem photoshop, facetune ou hormônios.

Uma bomba atômica pode ser lançada a qualquer momento. Uma bala perdida. Um acidente de trânsito. Um ataque terrorista. Um aneurisma. E há gente que escolhe passar seus dias se preocupando em moldar o corpo? Não é melhor saborear o alimento? Não seria preferível viver a vida com tesão? Tesão em cuidar do corpo, da aparência… tanto quanto em degustar um vinho, comer uma pizza, apreciar um chocolate. Se permitir. Corpo, mente e espírito — indissociáveis, necessários entre si. Equilíbrio é uma tríade — físico, mental e emocional.

***

Tenho muitas perguntas e talvez não haja resposta certa ou errada para nenhuma delas. Talvez ainda seja necessário o afastamento temporal para fazer uma análise dos impactos reais de influencers (e das redes sociais) na sociedade e em suas saúdes física, mental e emocional.

Alguns links que podem dar uma pista ou, no mínimo, ajudar na reflexão.

vídeos:

Quanto vale a magreza?

Está na capa da TIME: dietas NÃO funcionam

leituras:

Culto ao corpo: retrato de uma obsessão

Quando ser saudável não é saudável

Tempos estranhos: infelicidade, corpo, pressão social e suicídio

Pugliesi, os “novos especialistas” e a propaganda no séc. XXI

Por que tirar a dança da dança?

A vida é mara!