setembro amarelado

Era agosto. Quase morri algumas vezes naquele ano. Fora do hospital, ouvi da última pessoa que se espera ouvir algo do tipo e primeira da qual se espera apoio, que eu estava querendo chamar atenção. Quase-morte quase bem sucedida. Consciente ou inconscientemente, foram algumas tentativas. Sorte ou anjo da guarda porreta, já completei nove anos de vida. Sem pudores, diria que vida, por si só, nada vale — parar de sentir, às vezes, fala mais alto; querer fugir, às vezes, grita!

Nestes últimos tempos, já aconteceram tentativas de gente conhecida e já se contabiliza um sucesso. Em todos os casos, ninguém entendeu nada. Como assim? Não eram depressivos, aparentavam estar bem, blábláblá. A verdade é que nunca se sabe o que outra pessoa está sentindo. Não temos idéia da dimensão e da devastação que podem ser causadas pela dor alheia e sequer sabemos o que pode estar causando esta dor… (muitas vezes, a própria pessoa não sabe).

Incentivamos o individualismo, o clássico não se importar com os outros e, para adornar o cenário, incentivamos também o uso diário de um acessório carnavalesco. Máscaras: item obrigatório na sociedade em que vivemos. (observe como nos apresentamos nas redes sociais, por exemplo… simulacros de quem somos ou de quem gostaríamos de ser?). Cedo ou tarde, colocamos alguma máscara. E, sejam elas usadas para causar prejuízo a outrem ou simplesmente para autopreservação, máscaras sempre caem.

Então um dia aquela pessoa que estava sempre sorrindo cai pela janela ou dá um tiro na cabeça… e ninguém entende. Não? Será que aquela pessoa não tentou conversar com alguém, não tentou pedir alguma ajuda? Será que aquela pessoa não foi simplesmente ignorada, quando o que precisava era de um ouvido para compartilhar sua dor, suas angústias? Será que todos ao redor não estavam presos demais no seu egoísmo cotidiano e foram incapazes de prestar atenção em sinais?

O que faz a diferença entre alguém cair em um abismo ou se afastar dele? Em última instância, não adianta apoio do mundo inteiro se a própria pessoa se recusa a parar de cavar o fundo do poço, fato. Mas do que adianta um setembro amarelo se suicídio, (tal qual depressão e outras doenças sérias!), continua sendo um tabu? Não se debate o assunto, não se divulgam casos reais, próximos. Sintomas de uma sociedade doente, suicídio, depressão e outras doenças seguem com sua aura mística.

Não levamos a sério quem tenta tirar a própria vida — era apenas alguém querendo chamar atenção. Esse ato é normalmente julgado como puramente individual e a sociedade se esquiva de suas responsabilidades. Covardia de um indivíduo, apenas? Tendo a concordar com Durkheim*: apesar de ter todos os atributos de um ato individual, o suicídio é um fenômeno social. Para ele, o suicídio faz parte de uma sociedade e, por ser recorrente, deve ser estudado como uma característica que ela possui. (*se quiser saber um pouquinho mais sobre o autor, leia o suicídio)

Podemos mudar a sociedade? Resposta otimista ou não, o que podemos é olhar no espelho, enquanto indivíduos. Sei que chega um ponto no qual até amar ou se preocupar com alguém cansa e é desgastante. Ignorar funciona? Entre ações e inações, cabe a cada um fazer uma autocrítica. Autoanálise, conhecer a si próprio, saber os próprios limites. E aí, tem prestado atenção nas pessoas do seu círculo íntimo? E em si? Um pouco de cuidado ao lidar com quem convivemos e um pouco de descolamento do próprio ego não faz mal. E se afastar, algumas vezes, é questão de sanidade mental e de autopreservação, não de egoísmo.

Se você estiver cogitando suicídio, seja por qual motivo… Não vou te julgar e nem te pedir para reconsiderar a ideia. Sei que chega um ponto no qual existir é insuportável. Conheço a sensação de se sentir sem saída. Em paz, mas por aqui já se foram anos de terapia, meditação, autoanálise, estudo, leitura, desconstrução… A vida não anda fácil, e daí? Quase morri algumas vezes no mesmo ano, lembra? Sei que depressão e que desespero não são frescura e nem fraqueza. Sei que, muitas vezes, nem percebemos o quanto estamos afundados.

Sei também que há luz no fim do túnel viu. Todavia, a advertência. Enquanto não somos capazes de encarar o espelho e toda a dor que isso muitas vezes traz, a tendência é que continuemos implodindo nossa vida e nossas relações (por vezes, sem sequer percebermos estar fazendo isso). Se auto(re)conhecer é um processo doloroso, principalmente se perdidos, sozinhos, insatisfeitos ou nos sentindo um fracasso. Embora pareça inescapável, a sinuca de bico não é beco sem saída.

Converse. Converse consigo mesmo, inclusive. Escrever me ajudou em épocas de crise. Não se envergonhe caso você tenha depressão ou outro transtorno mental. Não sinta culpa se a tristeza continuada afeta seu rendimento pessoal e profissional. Converse. Procure ajuda (peça!). Não é frescura ou necessidade de atenção. É uma doença como outra qualquer e pode ser tratada. Procure terapia. Não pode pagar, está sem plano de saúde e na sua cidade não tem atendimento gratuito? Converse. Existe o CVV — dá pra ligar ou usar o chat. Desabafar sabe. Ajuda. Ademais, se afaste do que puxa gatilhos ou facilita descontroles — é preciso aprender a evitar coisas, lugares e pessoas.

Desejo boa sorte e bom recomeço a todos. Sobreviventes de tentativas frustradas e de tentativas bem sucedidas de alguém próximo. Futuros candidatos a uma sobrevida. Cuidem-se. Boa sorte nesse mundo cheio de juízes e judas, mas vazio de amor, respeito e compreensão. Força sempre.

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Esse projeto é MUITO bacana! #ficaadica Quando estamos passando pelos momentos mais sombrios da depressão ou pensando em suicídio, é difícil imaginar que algum dia voltaremos a nos sentir felizes. Cartas de Recuperação é um projeto para levar esperança a estes momentos.

***nota de rodapé***

Os comprimidos podem servir para esconder o mal-estar, para esconder a angústia. Mas não são curativos, não produzem um estado de felicidade”. -> curiosidades ou pontos de vista -> A Psiquiatria está em Crise #dicadeleitura