um conto (nem tão) erótico

Hoje tomei porra no café da manhã. Aquela cumplicidade gostosa antes de sair da cama. Que se fodam remela, mau hálito, cara inchada. Gosto de você me comendo pela manhã, ao acordar. Bela forma de começar o dia. O gozo como desjejum, logo após ter sido ceia. Esse erotismo que abraça o amor e a amizade, natural. Ninguém acorda desinchado, sem cara de sono, com bom hálito. Sorridente, sim. A vida sem maquiagem. Bom dia.

O gatilho para esse momento epifânico sobre o significado do amor foi uma música. Dirigindo após o café da manhã exótico na batcaverna. No rádio do carro tocou uma música. Tocou uma música no rádio do carro. Como pode uma (simples?) música trazer tantas lembranças boas e ser, ao mesmo tempo, dolorosa de ser ouvida? Aquela música que só ele seria capaz de reconhecer. Trilha sonora da avenida Niemeyer… do trajeto Rio-Búzios… I just can’t get you off my mind.

Não entenda errado. Ele, já foi. Você, é. Ambos, permanecem em quem sou. Únicos. Engraçado como a gente esquece completamente como é uma pessoa, embora a tenhamos visto ontem! E lembra cada detalhe de como é alguém, mesmo passados anos desde a última vez que vimos esse alguém de perto. C’est la vie. Amar é lembrar os detalhes, até os chatos? Aquelas coisinhas que você só aguenta porque fazem parte de quem é aquela pessoa inteira, sabe.

O abraço que ameniza tudo. A paz. A temperatura ideal. A textura. O cheiro. O refúgio em meio ao caos. A alegria na presença. Pode ser uma amizade, um amor ou uma mistura deles. Familiar ou não. Relax. Estresse pra quê? A vida… ela já nos bate todo dia. Da porta pra fora é tiro, porrada, bomba e salve-se quem puder! Pode parecer papo de auto-ajuda, mas precisamos parar de confundir amor com apego — e olharmos mais para nós mesmos. Meditação coletiva. Temperada com uma dose de abandono do ego.

Seu relacionamento te traz paz de espírito, confiança, segurança, tranqüilidade? Se amoroso, envolve tesão? Respeito e honestidade, por favor. Transparência. Amar também envolve a compreensão de que aquela pessoa é um ser humano com defeitos, como nós, e que comete erros, como nós. Um indivíduo. E se amar é compreender que, sem os substantivos anteriores, não é amor. Talvez eu idealize demais o significado do verbo, mas acredito em evitar e afastar o que é tóxico, o que nos ancora, o que nos diminui.

Fico intrigada quando vejo gente reclamando se seus respectivos cônjuges. Às vezes, reclamam de todos os seres humanos daquele sexo (gênero?). Cansa ouvir. Dá preguiça. Embora possa parecer que damos passos de caranguejo, estamos em 2016. Terminar um relacionamento não é proibido, tão pouco ficar solteiro. Cada um tem sua razão… (re)avalie as suas, seja honesto consigo. O ser humano precisa de carinho, amor, atenção, cumplicidade, diálogo, parceria e sexo bem feito — de resto, somos todos diferentes.

Frases feitas para justificar a convenção social que abastece álbuns e redes convencem a quem? Separação dói. Envolve reconstrução. Reinvenção. Redescoberta. Recomeço. Libertação. E, por isso, é muito difícil. A outra opção é parar de reclamar. Pare. Termine ou pare. Aceite. Soa ridículo (e talvez covarde) estar ao lado de alguém e reclamar. O que te obriga a estar numa relação? (antes de problematizar, note que a escolha vocabular do texto indica a qual público alvo se destina) Felicidade é a única coisa nessa vida que deveria ser compulsória — e ela nem sempre envolve viverem felizes para sempre.

Essa infelicidade acompanhada que vemos aos montes não tem serventia alguma — a não ser alimentar a indústria farmacêutica. É isso que deveria ser pecado, não o amor em qualquer uma de suas formas. Pouco espero de uma sociedade na qual ganha ibope quem enxerga demonstrações de afeto como ofensa, entretanto. Hipocrisia, você quer uma pra viver? Aquela memória musical matutina me disse que é um privilégio viver relacionamentos sem hipocrisia. E que amar não é para todos (o que já torna amar e ser amado, por si só, um privilégio?).

Reciprocidade é um substantivo que falta alguns parágrafos acima. Se ela inexiste, não há amor. Apego. Manipulação. Controle. Amor, não. Até gozo precisa ser recíproco — para vôos solos, a masturbação. Quantos gozos unilaterais temperam monogamias encenadas por aí? Falta mais amizade nas relações amorosas. Quantos chuviscos viram bolas de neve por inexistência de diálogo? Discutir, no dicionário, também significa entrar em entendimento sobre (algo) e levantar questões a respeito de (algo).

Essa epifania toda para chegar à conclusão de que amar é um verbo recheado de substantivos. Envolve discussão. Adiciona intimidade. Tem como prerrogativa amizade. Pressupõe liberdade. Privilégio, mesmo. Além disso, colore qualquer tom de cinza. Digressão causada pela pequena morte ao acordar. Para resumir numa frase de instagram: esteja com alguém que traga mais pantone pra sua vida.

A outra conclusão (clichê inevitável) é que descrever razões para amar ou se apaixonar por alguém é uma tarefa ingrata. Faltam palavras para resumir motivos. Sinto decepcionar quem começou a leitura atraído pela porra do café da manhã, mas aqui o buraco é mais embaixo. Eu poderia amá-lo por seus belos olhos, mas me apaixonei pelo olhar. Reflexos. Me sinto maravilhosa, até ao acordar de manhã, com o cérebro meio desligado e a cara inchada. Diva. Se sentir assim com alguém é um privilégio. E quando você admira aquela pessoa que te olha sorrindo de manhã? Admira o caráter, inclusive. Gente pode ser o lugar mais seguro do mundo, viu?