mando notícias do mundo de cá

geralmente esses textos passam por um pequeno caderninho antes de virem ao mundo. à parte dessa maternidade burocrática, hoje eles nasceram no lugar errado, às vistas, no caos, no meio da praça de alimentação do shopping, porque isso que é a internet. uma grande praça de alimentação do shopping. um prazer culpado, um ambiente infinitamente restrito, calculado, controlado, vigiado em stories ou em lugares estratégicos para restaurante x. tudo meio morto com grandes letreiros luminosos e sans serif que indicam vida.

exatamente que nem eu.

todo dia penso que qualquer coisa menos ser humano é a melhor coisa para se ser. por que dentro dessa calça apertada de homo sapiens, é o único lugar onde as pessoas morrem em vida, e como se não bastasse, após ela também. a quem tiver interessado em mandar currículo para terra, o meu mais sincero não venha. aqui é muito difícil, estrangeiro. por vezes a gente acorda sem propósito algum, mas tem de levantar mesmo assim, porque a vida demanda ação. muita ação. o tempo todo. aqui, pra se ter uma ideia, os dias úteis são os dias trabalháveis. o fim de semana, por dedução, é inútil, pois não há produtividade. eu não sei se é assim na cidade de vocês, mas na minha impera o que chamam de capitalismo. é difícil de explicar isso, é meio abstrato, mas tragicamente real, nem eu mesma entendo direito, contudo sei te falar que ele é até legal quando você consegue comprar o que tá faltando na sua despensa, mas para a maioria dos terráqueos, pasme, a despensa está vazia quase sempre. é como se houvesse um raio, como se as ondas do capital não penetrassem 2/3 da superfície terrestre. há muita gente que luta contra isso, juro, assim como há muita gente que odeia quem luta contra isso porque a sua despensa nunca esvaziou. parece um clima de eterno conflito, não? e é.

no entanto, há uma coisa que une quem tem a despensa vazia, meio cheia, completamente cheia e abarrotada. todas estão sob o jugo da produtividade, da ação constante, dos dias úteis. todas precisam fazer algo sempre, porque quando não fazem, é literalmente de enlouquecer. tem umas pessoas habilitadas para nos ajudar nos arrotos de loucura, são os psicólogos. mas tenho que te ser sincera, os psicólogos também enlouquecem — e muito! as saídas de emergência aqui não são sinalizadas nem nada, é bem difícil escapar de tudo.

uma saída obscura é a morte, o processo de fenecimento do ser, a etapa final de todo ciclo. estrelas morrem e terráqueos também. mas pra nós, a morte é um grande símbolo. ninguém morre de uma maneira que não choque. quer dizer, eu realmente não sei se vocês fazem funerais para estrelas, ou se há estrelas de estimação (aqui você pode comprar estrelas pra alguém, é só acessar o site http://pt.wikihow.com/Comprar-Uma-Estrela) — aqui somos exagerados. tem cerimônia para absolutamente tudo. quando uma menina completa 15 anos e provavelmente já menstruou, ela é apresentada para a sociedade numa dispendiosa cerimônia. quando um humano aprende a ler, tem uma festa; uma festa para quem sabe decodificar símbolos encriptados (e pensando bem, é um bom motivo para se festejar), mas isso faz pensar que grande parte dos terráqueos nunca terão uma festa dessa pois não sabem ler e/ou escrever o próprio nome. é muito triste. mas como eu ia dizendo, há diversas celebrações tristes, como a morte. aqui, as pessoas não simplesmente morrem. elas são submetidas a autópsias e você assina um papel por isso. elas são preparadas numa funerária escolhida com a voz embargada, e lá, alguém muito especial assina um papel. há uma missa onde seu corpo é exposto para varias pessoas muito especiais (sim, aqui você é capaz de torturar psicologicamente as pessoas, até depois da morte. meu amigo, só não venha). ali também assinam papeis. após isso, você é ternamente depositado na terra e magicamente volta a fazer parte de todo o ciclo da natureza (tipo as estrelas!!!). após assinarem papeis, é claro. mas diferente daí, esse processo é traumático demais, porque na terra, a morte é um fenômeno do outro, já diria o raphael. numa fração de segundos, deixamos de existir. não restará nada além de uma lembrança sua no outro. e você, já MORTAÇO, não entra mais na briga, perdeu qualquer faculdade de se saber alguém, pois c’est fini!, não há mais nada a partir dali (há quem conteste, mas essa é uma história muito longa, ninguém nunca vai saber te contar toda. ela veio se perdendo e se ganhando com o tempo).

a essa altura você já deve ter rasgado o currículo não? do que eu tô falando?! vocês nem devem saber o que é um currículo, porque ai, muito provavelmente, nem é preciso provar, por meio de um documento que somos capazes de algo. enfim, burocracias. uma ótima palavra chave, aliás, para afixar na agência de viagem de vocês

“conheça a terra! o planeta mais burocrático dos sistemas solares!”


sabe o que é mais engraçado aqui? é que a gente desembesta em lamentar cada engrenagem só porque ficou triste demais por não ir pra aula. no fim, poetas, inventores, sábios, revolucionários e medíocres em geral, como eu, só o foram pois estavam tristes com alguma coisa.


★★★★★
desafiador e tem algumas cachoeiras.
The New York Times

★★★★★
“único planeta com pássaros que constroem a própria casa com barro e arquitetos arrogantes que acham que morar é um conceito.”
El País

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