Sobre meu corpo-templo
Me ensinaram que meu corpo era templo,
templo intocado, intocável
paredes sagradas que acumulavam poeira,
um brilho fosco
uma luz de fim de dia, meio escuridão.
Me ensinaram que meu corpo não era meu,
Era pra ser guardado a um outro alguém
Que sem ser eu me merecia mais do que eu.
Mas me toquei
Um toque infantil, de quem ainda menina se viu mulher — suja
Um choro inesperado veio em seguida
As lágrimas tiradas do rosto com a mesma mão que me descobrira
Lágrimas em transparente cor de sangue
Cresci inseguranças
Alimentei angustias
Criei a crença de que não havia mais sagrado em mim
O meu corpo-templo violado
Desmerecido de um outro alguém.
Virei confusão, entrei com ira no meu corpo-templo
Gritei e gritei
Expulsei o que dentro de mim comercializava meus sacrifícios
Meus rituais
Minhas tradições
Expulsei os ganhos sem sentido e sem espiritualidade
E no final fiquei só
Só eu em mim
Descobri por trás das poeiras brilho
Me toquei mais e mais
Descobri por trás da penumbra luz
Me toquei mais e mais
Descobri velhos altares escondidos cheios de sentido
Me toquei mais e mais
Descobri potes de perfume escondidos, quebrados inundaram meu corpo-templo de cheiro
Cheiro de mulher
Cheiro de mim
Cheiro inundador de mim.
Sou ainda esse corpo-templo
Mas em mim hoje o sagrado é o toque
São as janelas abertas entrando todo tipo de luz
o sagrado são os encontros dentro dele
não dos que me merecem mais do que eu mesma
mas dos que são convidados
em novas preces
ritos
sacrifícios
oferendas
Corpo-templo
Templo tocado de
Paredes sagradas
Com brilho que faz fechar os olhos
Morder a boca
Gemer de suspirar
Sob luz de verão, meio clarão.
