Estação Paulista

Eat Pray Love é um filme americano de 2010, um drama dirigido por Ryan Murphy, estrelado por Julia Roberts

O movimento na rodoviária parecia o mesmo de sempre. Tive a sensação de reconhecer um ou outro rosto como quem os vê todos os dias. Sabia as linhas do metrô de cor — esse que vem do coração mesmo. O tempo, calculei automático. Estava em casa. Dizem que as duas capitais tem demais em comum. Que a distância é curta. Que é logo ali. Mas carioca não sai de casa quando chove ou faz frio, fala alto e muitas das vezes esquece de ligar o despertador — eu já esqueci. O paulista tem hora pra brincar e hora pra trabalhar. Usa regata e vestido em temperaturas abaixo de 20, mantém sempre um casaco na bolsa e um guarda chuva no porta luvas do carro. Embora ambos andem com as mãos no bolso por segurança e reclamem do trânsito. Já faz seis anos que voltei pro Rio. Dizem que sou exceção. Que carioca não gosta de dias nublados. Acostumei com o cheiro de terra molhada, de sujar a sola do sapato no resto de chuva, e me apaixonei pelo tipo que só usa chinelo dentro de casa. Do tipo que arranja programa pro frio, e procura o sol em mirantes e teatros por falta de praia. Há de se dar um jeito. Que a falta de, por vezes, faz com que tenhamos pressa de chegar a algum lugar. É bem verdade que é impossível não sorrir pro Rio. Mas é também verdade que mostrar os dentes nunca foi sinônimo de felicidade. A gente brinca de forçar a gíria, mas não esquece que certas coisas tem outro nome. Farol é sinal, bolacha é biscoito e paulista é com ‘x’ e não com ‘s’. Em seis anos fui e voltei de inúmeras distâncias de mim. Atravessei linhas rodoviárias, ferroviárias, e aéreas. Deixei muita bagagem pelo caminho. Viajei com a roupa do corpo. Voltei sem. E mesmo nesse armário de mudanças, em seis anos, reconheci o caminho de volta pra casa. Era logo ali, como eles disseram que seria. Dentro de uns; já outros, na memória interna de alguns espaços nada vazios. Espaço do coração, que é capaz de morar em mil e um lugares ao mesmo tempo. Ainda bem. Que meu deslocamento físico não daria conta de preencher esse tempo do jeito que a memória foi capaz de preencher. Ainda bem. Que a distância da saudade é curta. Que talvez o verdadeiro amor permaneça nos sorrisos que são despertados pela saudade. Que não sorrir sempre não é sinônimo da falta dele. Ainda bem que em SP só existe amor. Estava, mais uma vez, em casa.

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